O filósofo romeno, naturalizado estadunidense, Mircea Elíade (1907-1986), em seu livro “O sagrado e o profano” enfatizava que os estudos sobre as religiões se concentra nos símbolos sagrados, pois é o que mantém o conjunto de relações sociais e nutre o pensamento humano com várias expectativas e possibilidades. Entretanto, seus estudos sobre os símbolos sagrados não teve uma fácil aceitação devido as heranças de uma antropologia racionalista em que manifestava todo interesse sobre o sagrado seria um retorno ao homem primitivo, arcaico ou mesmo populações infantis.
Uma destas críticas ao pensamento
religioso que considera um pensamento infantil se encontra na obra “Catecismo
Positivista”, do filósofo francês Auguste Comte (1798-1857), representante da
corrente filosófica positivista e que destaca os estágios deterministas que uma
sociedade evolui a saber: a) o Estado Teológico: marcado por explicações
religiosas acerca da humanidade e que configura uma fase primitiva da
humanidade; b) o Estado Filosófico: marcado por ser uma fase de transição
devido ao nascimento da Filosofia, mas que se perde em especulações e falta de
provas acerca da realidade; e c) o Estado Positivo: marcado pelo avanço da
humanidade, porque se concentra a verdade em torno das ciências específicas. O
Positivismo sugere ainda o despertar de uma ciência, a física social, que teria
por método a observação e a experimentação das ciências naturais, e que também
abordaria uma investigação social a partir de um padrão comportamental. E nas
leis sugere o Direito Positivo, que se opõe, ao Direito Natural, mas rege os
comportamentos sociais e as instituições com características de subordinação às
Constituições, e que são mutáveis de acordo com o tempo e espaço. Também
chamado de Juspositivista possui uma interpretação metodológica que interessa apenas
à validade do direito.
A ênfase positivista em
considerar as religiões como um fundamento primitivo transformou-se em
argumento factível com os ideais de progresso e evolução. Ou seja, progresso e
evolução se tornaria elementos básicos para uma sociedade perfeita, evoluída e
que contempla a Humanidade. E tal argumento se apoia nos avanços científicos
que traz melhoras significativas na vida das pessoas através da tecnologia em
vários setores. Porém, os valores morais como a dignidade humana, a liberdade e
a igualdade são inferiores às preocupações evolutivas e do progresso. Esta
observação foi indicada pelo pensador espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955),
sobretudo no seu livro “O Homem e a Gente”. Ortega y Gasset critica os rumos
que foram dados ao pensamento humano quando se declara efetivamente que as
religiões bem como seus valores são de ordem primitiva, porém atrasada, e que
as ciências específicas são dotadas de verdade, que representa avanços
tecnológicos e a contemplação de uma humanidade perfeita.
É importante comentar que o
pensador Ortega y Gasset viveu, historicamente, um momento de crises extremas:
as guerras mundiais, a gripe (chamada de espanhola), os regimes totalitários
internacionais e as crises econômicas. Porém, Ortega y Gasset sugere uma
reflexão nos valores morais que ficaram perdidos pela ânsia no desenvolvimento
tecnológico e abandono por valores morais fundamentais que resgatam a
humanidade de si mesmo, pois para ele as crises históricas são causadas pela
incapacidade do ser humano pensar em projetos significativos para a humanidade.
Projetos estes, que Ortega y Gasset, lembra que foi orientado pelas obras do
filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) que formula o seu imperativo
categórico: “Aja de tal modo que tua ação seja sempre universal de conduta”, o
que identifica a humanidade sempre como um objetivo moral último como um
compromisso ético.
Durante a Segunda Grande Guerra,
pouco se sabia dos experimentos que eram feitos por cientistas dos regimes
totalitários. Entretanto, tal desconhecimento termina quando a Segunda Guerra
acabou e se verificou os laboratórios científicos em que se utilizava humanos
como cobaias: desde experiências com o frio até experiências com gases tóxicos.
Tais cobaias pertenciam a grupos étnicos considerados, pelos regimes
totalitários, inferiores. Dentre os grupos como ciganos, homoafetivos, negros,
poloneses e também os judeus eram colocados em prisões ou serviriam de cobaias
por manter símbolos e rituais, pela sexualidade, pelas características físicas,
pela sua nacionalidade ou por sua fé. A intolerância e o racismo às
diversidades se tornou explícitas e daí resultou uma investigação sobre a
retomada aos valores humanos.
Como resposta ao genocídio da
Segunda Grande Guerra, em outubro de 1945, surge a Organização das Nações
Unidas (ONU) com objetivos em manter a segurança e a paz mundial, auxiliar no
desenvolvimento econômico, proteger o meio ambiente, e promover ajuda
humanitária em casos de fome, desastres naturais e conflitos armados. Assim, em
dezembro de 1948, foi proclamada, pelas Nações Unidas, a Declaração Universal
dos Direitos Humanos, como uma orientação à preservação da dignidade humana,
bem como a direitos como a liberdade e a igualdade, à saúde e à educação.
Entretanto, sendo uma orientação se esperou que outros documentos de vários
países contemplassem as orientações deixadas pelos Direitos Humanos, com
objetivo que as nações a reconhecesse e introduzisse em suas Constituições.
A Constituição da República
Federativa do Brasil, de 1988, destaca já nos Princípios Fundamentais, em seu
4º artigo, inciso II – a prevalência dos Direitos Humanos. Sendo assim, o
Brasil é signatário dos Direitos Humanos, em forma de lei fundamental para se
firmar como um Estado Democrático de Direito. Entretanto, o sociólogo Gilberto
Freyre (1900-1987) já destacava para as práticas de um racismo mitigado no
Brasil desde a formação colonial, em seu livro “Casa Grande e Senzala”. Para
ele, havia no Brasil um racismo velado pelo argumento que a miscigenação
impediria o racismo no Brasil – tal discurso ficou conhecido como Democracia
Racial. Porém, Freyre em suas declarações e entrevistas compreendia que, no
Brasil, o que existia era um mito da Democracia Racial – o que despertaria uma
desigualdade social pela existência de um racismo velado.
Ao se referir a religiosidade,
Freyre destaca a metáfora do “Casa Grande” como o homem branco, patriarca e
católico e que por essas características reunia o poder sobre outros membros da
família nuclear: mulher e filhos; além de exercer também o poder sobre seus
escravizados, que viviam na “Senzala” e tinham práticas diversas do padrão
estabelecido pelo “Casa Grande”. Porém, mesmo os escravizados mantinham as
práticas de sua fé em religiões com matrizes africanas. Nesta fase, os símbolos
sagrados das matrizes africanas eram assimilados aos símbolos sagrados dos
católicos, fazendo surgir comparações entre os orixás das matrizes africanas
com o correspondente entre os santos católicos. Não apenas orixás e santos, mas
também rituais foram assimilados, como uma forma de adequação. Porém, essa
adequação entre os símbolos deixava claro que as religiões de matriz africanas
eram submetidas à religião católica, que por sua característica de poder
relacionado com o Estado, era dominante.
Nesse ponto, a intolerância e o
racismo religioso convergem para a ocupação do poder político. A intolerância
religiosa se torna uma prática mental em não reconhecer, por arbitrariedade,
práticas e crenças de outros seres humanos. Já o racismo religioso se torna uma
associação discriminatória que pela violência e ódio aos adeptos, aos
territórios sagrados, às tradições e culturas tentam submeter e isolar os
praticantes de uma determinada religião, por exemplo as religiões de matrizes
africanas. Esse dualismo é resultado pela busca de poder político-social. E não
por acaso, que tal busca pelo poder, não restringe ao catolicismo. Com o avanço
histórico, no Brasil, grupos de religiões seja católica, seja outras
denominações com características pentecostal ou neopentecostal ainda abordam as
religiões de matrizes africanas com desinformação, preconceito, intolerância,
ódio, violência e racismo.
Tal procedimento se fez presente
quando as religiões de matrizes africanas se tornaram minorias tanto em
quantidade, quanto em direitos. Assim, se tornaram ridicularizadas em
paradigmas considerados, por uma maioria, religiões antissociais ou com
símbolos sagrados invertidos para uma crença contrária à crença dominante.
Tendo seus símbolos sagrados, indumentárias e rituais, hostilizados tanto de
forma jocosa quanto em agressões às pessoas, aos templos e aos símbolos
sagrados. Em muitos casos, inclusive, pelas décadas 80 e 90, do século XX, no
Brasil, as religiões de matrizes africanas eram associadas em programas de
comunicação sob vários aspectos: comédia, tragédia e violência. Entretanto, com
sociólogos e políticos como Florestan Fernandes (1920-1995) e Fernando Henrique
Cardoso (nasc. 1931) essa realidade ganha novos contornos.
O sociólogo e político Florestan
Fernandes sugere que as heranças coloniais brasileiras deveriam ser
reconsideradas com políticas afirmativas, para redimir o longo passado e a
dívida com os povos escravizados. Fernando Henrique Cardoso, sociólogo e
presidente da República Federativa do Brasil, remodela o dia da consciência
negra (20 de novembro) e determina a obrigatoriedade em se ensinar a História
da África nas escolas e Universidades. Também se instituiu a política de cotas
nas Universidades, o que criou alguma oportunidade que aos povos negros era um
sonho distante de se realizar. Tais iniciativas foram fundamentais para que se
lute contra o racismo no Brasil de forma, não mais apenas pelo academicismo,
mas também com políticas públicas de inclusão social e com medidas afirmativas.
Entretanto, mesmo com um Estado Brasileiro com características laicas que
garante a igualdade e liberdade de expressão religiosa, não discriminando seus
cidadãos por razão de suas crenças, o Brasil carece o desafio em implementar
políticas públicas de inclusão.
A essas políticas públicas afirmativas somou-se, já no governo Luiz Inácio Lula da Silva (nasc. 1945) o Estatuto da Igualdade Racial (2010), que é destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e ás demais formas de intolerância étnica. Portanto, os símbolos das religiões de matrizes africanas são valorizados em suas manifestações sagradas. Por lei, pela discussão e pela orientação dos Direitos Humanos segue uma linha consciete e respeito ao ser humano de forma universalista. Entretanto, pela desinformação ou pelas mensagens instântaneas e imediatas, por busca de apoio e poder, de um grupo, ainda se verifica a intolerância e o racismo religioso na sociedade brasileira. Isto porque, no Brasil em que, apesar de laico, há grupos religiosos dominantes que enfatiza o desrespeito à consciência, aos direitos e às leis de uma religião minoritária.
Danilo Dornas
Prof. Filosofia
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COMTE, Auguste. O catecismo positivista. São Paulo: Vitor Civita, 1983.
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Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm Acesso em 20 de setembro de 2024.
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da Igualdade Racial. Palácio do Planalto da Presidência do Brasil
Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12288.htm Acesso em 20 de setembro de 2024.
FERNANDES, Florestan. Entrevista Roda Viva. TV Cultura. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=MQe35fx66lU Acesso em 20 de setembro de 2024.
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FREYRE, Gilberto. Uma Entrevista com Gilberto Freyre. Isso Compensa. Disponível em: http://issocompensa.com/academia/entrevista-gilberto-freyre acesso em 20 de setembro de 2024.
GASSET, José Ortega y. O Homem e a Gente. Rio de Janeiro: Ibero-Americano, 1973.
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