27.6.09

Zé Dornas contra a ciência

José Dornas, meu avô, residia numa pequena casa em Juatuba, interior de Minas Gerais. A casa era bem pequena, sem muitas regalias e sem muitas extravagâncias. Aos fundos um quintal com plantação de verduras que ele, às vezes, vendia numa quitanda ao lado da igrejinha em homenagem à São Sebastião. Mas de sua pequenina casa e de seu modesto quintal, via-se a lua, todas as noites. A lua era para ele a coisa mais extraordinária que ele conseguia ver, pois era a casa de São Jorge, a inspiração dos amantes e os suas fases o orientavam nas mudanças em sua vida e em seu quintal.
Num dia de julho de 1969, ele viu uma correria rumo à casa do coronel da cidade, único lugar que possuía um aparelho de Televisão. Zé Dornas correu também, se ajeitou e espiou da janela aquela imagem trêmula e cinza que o homem iria à lua naquele instante, estava de partida num foguete para o corpo celeste em nome da ciência. Ele não pensou duas vezes, voltou para sua casinha, esperou anoitecer e foi para o quintal para olhar a lua, lá no alto, esperando o tal foguete passar em frente dela. E nada! Não viu absolutamente nada. Amanheceu, comentou com seu colega Agripino: - Rapaz viu ontem naquele trem da casa do coronel que ia passar um trem com um bando de gente para pisar na lua, mas não sei não, não vi nada passar perto dela não. - E Agripino respondeu: - Zé, talvez São Jorge pegou esse trem? – coçando a cabeça e confessando que também ficou esperando o tal foguete passar em frente à lua a noite toda. A conversa não teve conclusão, mas foi suficiente para despertar no meu avô uma curiosidade perturbadora.
No dia seguinte, a seguinte manchete “O homem chega à lua” ocupa os meios de comunicação e também do mais sofisticado meio de comunicação existente: a boca do povo. Era rádio, TV, jornal e todo mundo comentando a supremacia dos americanos e os avanços científicos e tecnológicos decorrentes do fato histórico. E o Zé Dornas inconformado pensando diante de toda aquela euforia popular: - Aqui do meu quintalzinho não vi absolutamente nada. - Zé Dornas observava a lua todas as noites e tentava aproximá-la forçando a visão e não via nem foguete e nem homem algum passeando sobre a lua como todos comentavam por ali. Foi então que ele passou na casa do coronel para verificar as informações sobre a visita do homem à lua naquele aparelho de televisão. E lá, na casa do coronel, a sala já estava cheia de gente boquiaberta, vendo o homem brincando na lua, pulando igual criança, mas nada de São Jorge e nada de dragão... A frase do sujeito que pisou na lua repetia a todo instante: “pequeno passo para um homem e o grande passo para a humanidade”. E o Zé Dornas resmungava: - uai, ele não está lá não! - Olhava a lua, olhava a TV, olhava a lua, olhava a TV... e nada! Não via nada! Estava convicto que a observação dele era mais valiosa do que a digna ciência.
E naquele lugarejo não se falava em outra coisa. Era o desenvolvimento científico, era a potência tecnológica, era o homem conquistando a lua, o São Jorge e o dragão. Meu avô Zé Dornas inconformado repetia a frase: - uai, eu não vi nada disso do meu quintalzinho não! – Para o meu avô Zé Dornas, a lua continuava o mesmo corpo celeste intocável e moradia de São Jorge e do seu dragão, continuava a fonte inspiradora dos amantes, da noite, das mudanças de sua vida e do seu quintal. E nenhum homem poderá acabar com este significado primordial da lua apenas caminhando e brincando sobre ela. Para Zé Dornas, o homem nunca foi mais longe do que a Igreja São Sebastião, em Juatuba. E ele está certo, pois, às vezes, precisamos vender verduras na quitanda ao lado de uma igreja.

Danilo Dornas neto de Zé Dornas

20.6.09

Uma noite no restaurante

A noite anestesia os que querem ficar próximos de seus amores. Não ao acaso que a noite é dos boêmios, dos alegres e dos apaixonados. Porém, todos estes seres que deveriam dormir fazem parte de um preâmbulo da insensatez do porvir. Mas, o que seria de todos sem a noite que desperta a loucura que nos habita enquanto há o sol? Não há vida sem o mínimo de loucura e de paixão, ainda que num breve instante. Há um conto de Franz Kafka, intitulado Fábula Curta, que resume bem o que é a minha vida:
- Ai de mim! - disse o rato - o mundo vai ficando dia a dia mais estreito. Outrora, tão grande era que ganhei medo e corri, corri até que finalmente fiquei contente por ver aparecerem muros de ambos os lados do horizonte, mas estes altos muros correm tão rapidamente um ao encontro do outro que já estou no fim do percurso, vendo ao fundo a ratoeira em que irei cair.
- Mas o que tens a fazer é mudar de direção - disse o gato, devorando-o.

O único problema desse conto é que não sei bem qual é o personagem que eu mais me identifico. Eu seria o rato ou o gato? Sabemos que, ao final, com tantos caminhos escolhidos, tantas direções assumidas sobrarão apenas poeiras e ossos. Então, não há muito que se preocupar com o final. É para isto que serve a noite: é uma anestesia que fascina e incentiva as mais loucas corridas neste jogo breve que é a vida.
Não que eu seja destes tipos melodramáticos que encontra obstáculos para anoitecer em claro, mas talvez eu seja apenas mais um que cansa de dormir abaixo do sol e necessite, talvez, correr na noite. Sair por aí obedecendo a lei da sobrevivência, contente, em busca dos muros altos que limitam o horizonte até ser consumido pela própria vida. Afinal, mesmo que haja dúvidas quanto aos personagens do conto, somos todos ratos, mesmo desejando ser como os gatos, neste grande restaurante que é o mundo. O problema é que o homem já inaugurou o fast food e o self-service que não precisa ser grande, mas se consome mais rápido. Vamos nos acostumar com esta ideia?
Danilo Dornas é um rato.

8.6.09

O ideal mundano


Noé Embriagado
(Miguelangelo)

Já tentou escrever algo que tente favorecer somente aos mortais? Já que são eles que estão incluídos em tudo que chamamos de realidade, incluindo o vinho, a cerveja e a vodka e outras tantas vantagens que são proclamadas e veneradas como divindades do mundo real. Mas, haverá no mundo coisa mais doce do que a vida? Não há para Zeus, Deus, Jeová ou Ala adoração tão sublime quanto às coisas que realmente embriagam o ser mortal do que as bebidas alcoólicas. Falaremos agora aos bobalhões que tentam adorar coisas que não se encaixam num copo e numa conversa com os amigos e inimigos. Vamos perguntar a eles: mostre-me um dos seus deuses que, mesmo usando barba como distintivo da sabedoria (assim como os bodes) e aos pastores (e suas ovelhas) para mostrar algo de realmente audacioso, abandonando a moral, a fazer asneiras e loucuras? - vamos lá, pergunte a esses adoradores da morte se eles são sábios o suficiente para nos mostrar este poder de destruir regras do que o próprio alto grau etílico no sangue.
Ora, claro que eles não conseguirão responder. Se algum conseguir o mínimo que nos causa é o riso do ridículo, mas eles mesmos se esquecem que toda aquela fonte sagrada de onde provêm todas as regras, os deuses, as leis são fonte inesgotável da embriaguez. O que não se diz é que seus autores eram freqüentadores assíduos dos grupos de Alcoólicos Anônimos e, pelas suas profecias e testemunhos, viviam a vida no mundo "só por hoje" – contando os dias que não beberam, em plena, crise de abstinência. Para profetizar e testemunhar é necessário alguma regra. Num caso específico, foram 10 regras! Imaginem?
Introduzir bebida alcoólica é recuperar a juventude, é se tornar inocente e recuperar a doçura infantil que um dia perdemos. Ser infantil tem a vantagem de ser salvo até mesmo pelo próprio inimigo, pois como condição infantil seria inútil derrotar alguém já vulnerável. Não é realmente divino? O álcool misturado aos produtos naturais é a fonte do esquecimento, é a fórmula para dissipar as mágoas, nos conduzir à falta de juízo e à falta de um juízo final – que é o medo de todos os seres que se acham imortais.
Julgue-me, agora, quem quiser, conforme o bom serviço que prestei aos homens com a metamorfose dos deuses. Não preciso recordar de nenhum dos efeitos do álcool, falo apenas dos benefícios que há em adorar algo mais prático, simples, comum e completamente humano. Portanto, coragem, vamos! Dissimular, enganar, fingir, fechar os olhos aos defeitos dos amigos, ao ponto de admirar grandes vícios como grandes virtudes, não será ao acaso, uma embriaguêz? Todos embriagados estão com o humor volúvel e intratável, além de possuírem olhos de morcego para descobrir os defeitos dos amigos e uma toupeira para ver os próprios defeitos. A estupidez e a conivência andam lado a lado na embriaguês e é por isso que a ternura e a justiça trazem sempre uma venda nos olhos, ambas são estúpidas e coniventes: tudo para confundir o belo e o feio. Essas coisas se verificam em toda parte, mas em toda parte são motivo de riso. Pois são justamente essas coisas ridículas que formam o principal laço da sociedade e que, mais do que tudo, contribuem para a alegria da vida.

Danilo Dornas é filósofo.

21.5.09

O sentido da reforma educacional no Brasil

A aplicação do pragmatismo pela via educacional está implícita nas recentes propostas do Ministério da Educação diante do fraco desempenho dos estudantes brasileiros. As teses pragmáticas educacionais é aliar teorias e práticas, utilizando os mais variados instrumentos de informação para que a educação deva se constituir pela apresentação ou representação dos problemas numa didática contextualizada e articulada entre os obstáculos e a vida cotidiana, sem que haja a perda da dimensão cultural do estudante. Por isso, em resposta às recentes modificações do Ministério da Educação se deve cuidar para que tais teses pragmáticas não se confundam com a corrente pedagógica identificada por “Escola Nova”, mas garantir a implantação do valor ético humanista que indica o ser humano como protagonista de uma circunstância social. Por isso, as mudanças na educação não devem ser radicais, uma vez que não há cumprimento de exigências fundamentais como preparação dos professores e estudantes que ficam sob fogo cruzado entre as instituições e suas burocracias e os interesses político-partidários.
A “Escola Nova” é uma corrente pedagógica da década de 30 do século passado e que se consolidou por um acordo político entre os defensores de uma educação tradicional devido ao apreço pela ideologia e os liberais que preferiram uma educação mais autônoma, laica e dividida em áreas do saber. Tal acordo foi encerrado pela Ditadura Militar que adotou o sistema de ensino baseando em apresentação de teorias, como era na Europa, do século XVIII, para que haja um apreço por ideologias militares, na tentativa de apaziguar os ânimos investigatórios de forma autônoma. E desde então, houve uma fobia para que algo se transformasse na educação, que ficou mal, e entrou em estado de decomposição quando as estatísticas começaram a fazer parte do cotidiano político, sobretudo quando o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) fez parte deste diagnóstico. Desse modo, a história da educação brasileira se reduziu a uma constante disputa político-partidária para que de um jeito ou de outro construir um arquétipo ideológico que forme alguma conquista pessoal ou institucional.
Examinando os apontamentos sobre tais mudanças na educação, limitei-me a condicionar minhas ponderações sob a ótica dos estudantes. E me esquivei das tradicionais teorias educacionais e dos interesses político-partidários que rondam o atual comando da educação; porém vale ressaltar que, não que tais perspectivas não sejam importantes, mas que também se deve interrogar, filosoficamente, sobre o sentido de tantas reformas educacionais e identificar os fundamentos da fragilidade vertebral que assenta a educação, para recuperarmos os aspectos culturais da nação brasileira. Portanto, tento chamar a atenção para tais mudanças radicais promovidas pelo MEC, porque percebi que a finalidade de toda esta mudança está ausente quanto à sua representação que é o próprio estudante, o principal motivo da existência dos debates pedagógicos.
As propostas de reformas na educação do MEC, infelizmente, confirmam que o estudante é todo aquele que está matriculado em qualquer estabelecimento de ensino. Tal confirmação vem quando se repete a frase de que a escola deve ser “pública, laica, gratuita e obrigatória”. E para corroborar tal ideologia se apresentou problemas, sem considerar os estudantes, em todas suas dimensões. No entanto, é falso o sentimento que tais modificações radicais iniciarão um processo social de inclusão, como querem os ideólogos de plantão. Isto porque as propostas determinadas pelo MEC não consideram os estudantes, mas as instituições de ensino, seus números, suas estatísticas, seus financiamentos e seus dividendos. Por isso, defendo que, antes de tais modificações, deve haver uma articulação entre os problemas reais do estudante e o seu cotidiano como uma necessidade e apego à realidade, e isto não se constrói com uma fórmula de aprendizagem e nem aos parâmetros institucionais totalizadores. Mas ainda assim, não vejo em tais propostas, o estudante imbuído de sua missão na escola. O estudante é uma qualidade do comportamento humano, e isto não pode ser determinado por instituições, mas pelas narrativas e símbolos que os próprios estudantes atribuem para o universo. Assim, as propostas do MEC em organizar o tempo e as disciplinas em áreas, não é todo ruim, mas isto pode evitar que uma vocação se perca em formalidades e burocracias institucionais, porque não iremos disponibilizar o contato intelectual entre professor e estudante, mas sim incentivar ainda mais a relação professor e aluno, que em sua etimologia significa “sem-luz”, gerando o crescimento de alguma ideologia político-partidária e social. Na realidade, não temos estrutura e tempo para uma mudança radical, por isso, embora eu considere a divisão de áreas essencial, não penso que ela deva ser feita de forma instantânea para fins políticos e eleitoreiros. É certo que há estudantes e alunos. Os alunos têm preferido a frágil condição pedagógica, apontada pelo MEC, para satisfazer as exigências imediatas que acreditam medir sua inteligência e sua dignidade e assim, definem seu futuro. E é certo, que a retirada das disciplinas pode transformar a “interdisciplinaridade sem disciplina”. No entanto, penso que devemos valorizar o estudante que pauta suas ações pelo convívio com o professor, e não com preocupações institucionais os transformando em alunos neste modelo proposto. Pelas modificações, o MEC substitui o estudante pelo aluno, não muito diferente do modelo americano. Ou seja, diante de tantas mudanças radicais, sem preparos fundamentais, todo o esforço será uma defesa pelo Ensino Médio teórico, universal, com verdade absoluta e nomenclaturas sem compromisso e sem a autonomia exigida pelo estudante, pois não se leva em conta a tensão, a sobrecarga e o “saber a varejo” que eles estão submetidos por causa das disputas burocráticas, de vaidade e de posicionamento político.
Portanto, o MEC cumpre sua missão em atentar para a situação política e se esforçou para um falatório em torno de mudanças institucionais da educação brasileira. Também considero apropriada a intenção do MEC em justificar a permanência de uma política sobre a educação, para que haja mais uma tentativa de algum plano miraculoso cujo objetivo é salvar a educação, recuperar a cidadania e toda esta conversa que pode desencadear dentro de um boteco. É assim que são calorosas reuniões e os inacreditáveis projetos lançados na imprensa que assusta todos interessados no ensino e na aprendizagem, sobretudo os estudantes. Mas, e agora? O que fazer? Como gerar um professor preparado para atuar numa “área do saber”, e não mais em sua disciplina? Se não houve preparação universitária, em longo prazo, de tais modificações não há como esperar que o professor seja hábil o bastante para transitar entre as variadas competências e habilidades. A educação que antes estava em cima da mesa, agora passa para dentro da gaveta, devido aos ambiciosos projetos, até que outro político surja e reforme tudo de novo.
Estas mudanças, com seus métodos radicais, servem para caricaturar a educação, sem nenhuma preocupação com os professores e com os estudantes. Não ouvi, sequer, mencionarem ou questionarem aos estudantes, que estão como cobaias em siglas e regras que só servem para os confundirem. O MEC subestima os reais protagonistas da educação que são os estudantes. Entretanto, os estudantes são capazes de se aventurarem por sua conta e risco na exploração dos obstáculos, para que intervenham com consciência o despertar científico e as formas culturais que interagem em sua formação. A defesa do aluno é aprender o que se sabe, a do estudante é investigar o que ainda não se sabe. E na vida cotidiana é claro que há professores e há estudantes!
Danilo Dornas é professor.

4.5.09

O instante e o adeus de Nero

Não obrigo a ninguém a pensar como penso e nem a agir como ajo. No entanto concebo várias formas de viver e, geralmente, espantam-me bem menos as diferenças entre as minhas várias formas de viver do que as semelhanças entre elas. O fato de não ser um comerciante ou um escravo não me impede em por em minhas peles suas ilusões e suas conquistas para estabelecer comparações, cujo único preço é entregar-me à minha própria historiografia. Há pessoas que só aconselham aquilo que elas imaginam que possam imitar. No entanto, meus conselhos não são desta natureza. Eles são muito ínfimos aos conselhos daqueles que tentam imitar a vida. Eles são resultado do conflito entre a razão e o seu oposto; da bondade e da maldade; e da teoria e da prática. Ainda assim, os conselhos são oferecidos por alguém quem já caminha com pernas enfraquecidas pelo tempo, com apenas 32 anos, mas a vida não é justa!
O imperador romano Nero quando viu sua mãe executada, por sua própria ordem, mostrou-se comovido e cheio de piedade, quando teve que dizer a ela um simples "adeus". A vida não é justa! Nossos julgamentos estão longe de serem justos, simplesmente porque reprovamos os costumes e as regras que nos mandam o caminho certo da salvação e da bem-aventurança. Vejo esforços dos mais altos cientistas, filósofos e teólogos tentarem enobrecer argumentos éticos, munidos de virtude e fantasia, quando já não acreditamos sequer em fantasias, quanto mais em virtudes provenientes de tais mentes solitárias.
Neste instante, deixo de lado estas questões enobrecedoras e caio na vida solitária com um jeito de não me deixar conduzir por qualquer submissão às promessas que avassalam os espíritos. Solidão não é uma opção, mas sim a totalidade das virtudes e das fantasias que, um dia, nos explicaram apenas como virtudes que são: o egoísmo e a ambição. Virtudes, fantasias, egoísmos e ambições: serão estas as armadilhas da vida?
Este é o instante de Nero que julgo traduzir o que somos. Não há possibilidade de nos libertar da realidade e nos estabelecer como humanos sem retirar o egoísmo e a ambição. A vida não é justa! - é o momento do "adeus" de Nero à sua própria mãe. A finalidade da solidão é viver mais confortável, o que não a diferencia do egoísmo e da ambição. Entretanto, a solidão é um tanto mais universal, na medida em que é dela que desperta atenção e julgamentos sobre padrões e comportamentos alheios. Mas, como um médico não cuida da saúde dos outros, sem comprometer a sua própria saúde, a vida não é justa! Apenas carregamos a corrente conosco quando nos libertamos. E, provavelmente, as chagas que ela nos deixa. Não há modo de retirar a corrente que simboliza a solidão, porque não há como viver sem a solidão. Entretanto, é assim que empenhamos a luta contra nós mesmos, principalmente quando exigimos a amizade e o amor como instrumentos de crença num mundo melhor. Entretanto, são muitas as preocupações, são muitos os temores e muitas as inquietações que roem o homem solitário, porque seus caminhos confortáveis são cada vez mais luxuosos e tentadores, mas nele não há vestígio de amizade e amor. Eis toda a desconfiança sobre a possibilidade de um mundo melhor. Eis minhas dúvidas sobre o meu mundo melhor.
A caminhada é solitária. Estou solitário! Estou egoísta, ambicioso, mas confortável. Há o que se preocupar e há o que se temer. Estou inquieto às 03h50 da manhã, do dia 04 de maio de 2009, desabafando isto, que um dia chamarão de texto. Não há mundo melhor para mim neste instante. Há apenas um sujeito que se inspira em agonias e últimas palavras adicionado ao cachorro do vizinho que late irritado com algo. Não há mais que atentar para as conclusões de uma vida como a minha já fracassada. A minha vida chega ao fim! A vida não é justa! Porém, um dos meus melhores conselhos é não me seguir em minhas inquietações. Não há espelhos em meio a tanta vaidade e escassez de nobreza. Assim, desistam de receberem de mim qualquer sugestão de resposta ou conclusão como fiz com a minha vida, neste instante. Nunca fui habilidoso em decidir e não seria o caminho da minha vida que eu iria acertar. Não tenho vocação para ser contemplado pelo que chamam de felicidade. A solidão me consome, pela falta dos seus opostos e pela minha rigidez ambiciosa e egoísta. Entretanto, é tudo um simples truque! Um jogo! Uma Paidéia! Se é que se pode aprender assim!

Danilo Dornas é ninguém.
e-mail: danilodornas@uol.com.br
http://paideiadigital.blogspot.com

26.4.09

Entrevista à Revista Metacrítica (Lisboa, Portugal)


por Juliana Soares
Costumam-se dizer que alguém para ser notável basta atingir a popularidade. Normalmente, a mácula, o reconhecimento, o sucesso e o fracasso são apenas condições internas a um parêntese que é a vida. Isto pode significar a rotulação para uma personalidade, mas sabe-se lá, até quando pode durar um rótulo. Ao Danilo Santos Dornas, lhe interessa o mundo que está fora dos parênteses e não os rótulos existentes dentro dos parênteses. O conheci através de um texto pequeno num jornal da USP cujo título era “O mundo é todo meu” – no início do texto ela já tentava se explicar que esta frase poderia ser um plágio de Lampião; do conquistador macedônico Alexandre; ou de Mahatma Gandhi – ele mesmo “não identificaria a originalidade da frase, mas que isto não faria a menor importância já que são apenas palavras”. Desde então, acompanho os seus textos sejam textos acadêmicos, sejam para os jornais, sejam para revistas ou a internet. O seu estilo é conservar sempre a ironia e a sagacidade. Seus pretextos para construir uma boa conversa são apenas motivos para retirar qualquer experiência sobre a vida. Ele conserva o espírito jovem que espanta, admira e ironiza tudo com a mesma fluidez de uma corrente hídrica, mas não escolhe palavras certas ou erradas para disfarçar os repúdios que julga pertinente o que o faz se revelar como um sujeito que joga com seu pensamento e com as palavras. Seu temperamento inconstante se manifesta por um isolamento extremo, pois “prefere a companhia dos livros”.
Nasceu em São João del-Rei, MG, Brasil, uma cidade histórica e pequena que cultua a tradição mineira e muito apegada aos valores morais cristãos bem tradicionais que codificam comportamentos estreitos e com rara perspectiva para os jovens. Filho de um ex-jogador de futebol Geraldo Magela; e de funcionária pública Terezinha Santos Falconeri; não desejou seguir a carreira dos pais. Ele se explica dizendo que “não sentiu nenhum bom humor em partidas de futebol” e "não se vê preso em papéis, carimbos e assinaturas” – como sua mãe. Escolheu se formar em Filosofia, pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), que lhe forneceu grandes modificações: “ficou mais responsável, porque faz o que gosta!” – explica sua mãe. Seus pais ressentem por ele não comunicar a sua própria formatura e nem sequer comparecer aos festejos daquele momento, porque para ele, aquilo tudo não passava de uma “hipocrisia social”. Seu pai conta que soube da formatura de seu filho na rua através de um amigo. E sua mãe lembra que era um menino tímido. Começou a ler compulsivamente e a escrever textos, por influência de amigos. O tema preferido de seus textos juvenis era o terror. Danilo Dornas continua com a mania de escrever, porém agora sobre filosofia, política, educação e ética, que podem ser estudados em várias revistas especializadas pelo Brasil, Portugal e Espanha e na internet.
Ele não tem religiosidade. Mas, sabe defender o liberalismo. Sempre ousou falar em liberdade. Sempre exigiu a liberdade. Sua importância para a Filosofia não deixa de ser um narcisismo da atual geração. Todos, hoje em dia, querem falar de si, de suas experiências, de suas aventuras e de suas ideologias. Danilo é alguém assim, mas recolhe palavras e nos injeta, como uma penicilina. O êxtase que sentimos ao lermos seus textos é, para ele, a recompensa de um ego valorizado. Mas, ele não está errado! Ele desperta a ânsia por um mundo com auto-afirmação através de um deleite individual. Ele ensina que reconheçamos os valores da vida através de um autoconhecimento. Desta forma, nos brinda com suas manifestações de ironia e de liberdade, para vivermos com bom humor.

1. Em seus textos sempre manifesta alguma ironia ou sarcasmo. Há possibilidade em conciliar a ironia com um dos seus temas principais que é a ética?
Danilo: A ética é uma disciplina que investiga os valores morais de uma sociedade. Neste caso, a ética não se origina pelo que é verdadeiro ou falso, mas pelo que é certo ou errado. E determinar o “certo” ou o “errado” é um julgamento alimentado por referências sociais de vários níveis: família, escola, religião, meio social essas coisas. Uns preferem achar o certo como uma crença no destino, na paciência, na humildade, no prazer e etc. Eu escolhi a ironia como uma ferramenta para as minhas intervenções éticas. Não há nada de original nisto e não saberia exatamente te dizer as minhas influências, porém tenho suspeição de que sejam minhas preferências pelas expressões artísticas que traduzem o bom humor. Eu sempre leio “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes e, me parece, que é daí que tudo começa. A ironia é apenas uma ferramenta que mostra o oposto de algo que parece ser verdadeiro. Além de ser um excelente remédio para enfrentar os problemas e os obstáculos da vida. Muitos também a utilizam, eu apenas sou mais um, mas não sou humorista. Porém, a Filosofia incorpora, em seus estudos, a moral da resistência, e uma delas é o cinismo. Eu o utilizo através do lúdico e do jogo. É isto que os gregos chamavam de Paidéia que alguns preferem traduzir como educação. No entanto, parece que já deixaram de lado a capacidade de quebrar o ritmo de uma verdade através da ironia, com tantas fórmulas imediatistas e indicando uma pseudociência. Mas, a ironia é importante para identificar outras possibilidades de perceber o mundo e as falhas da pseudociência com suas fórmulas absolutas.

2. Entre os textos publicados há o destaque para seu repúdio à Filosofia Clínica. Como o senhor explica esta inovação brasileira?
Danilo: Inovação? A Filosofia Clínica é uma técnica brasileira criada por um sujeito que se afastou da atividade de psiquiatria e foi estudar Filosofia. Na verdade, não chamaria de inovação, pois os fundamentos da Filosofia Clínica estão nos manicômios dos subúrbios franceses de 1793. Aqui no Brasil apenas se desenvolveu a técnica e a sistematização, porque não se tinha profissão para os formandos em Filosofia nas décadas de 80 e 90. Ou os mesmos se mostraram sem talento ou sem vocação para sala de aula, daí a notícia de uma nova tendência seria uma luz “no fim do túnel” para o sucesso. A técnica se fundamenta em apenas buscar nos filósofos argumentos mais afetuosos para o que eles chamam de partilhantes se sentirem melhores. É aí que eu ironizo: e se eu não aceitar estes argumentos? Como faço? Será que os formados em Filosofia Clínica têm realmente toda esta competência e habilidade em montar para mim um mundo melhor, baseando em filósofos? Então, quando comecei o curso, estava interessado, mas logo percebi que aquilo era uma reação corporativista à falta de emprego dos formados em Filosofia – então abandonei. Felizmente, a Filosofia já se consolidou tanto na lei quanto nas escolas, além de outras atividades como na Comunicação Social. Inicialmente, a Filosofia Clínica explicava que o sujeito para concluir teria que ter a graduação em Filosofia e mais os dois anos na especialização, para depois apropriar da função de psicólogo. Entretanto, hoje, na prática, basta o sujeito de qualquer curso buscar a especialização em Filosofia Clínica, naturalmente, isto descaracteriza até os propósitos iniciais do seu importador. E, eu escrevi dois textos contra isto, o primeiro é mesquinho e o fiz de propósito intitulado “E a Filosofia Clínica?”– neste, por ser mais mesquinho, atraiu mais a moçada da área. Foi um jogo e eles sequer perceberam, isto para ver o quanto eles são “bons” em perspectiva. Eu não partilharia nem um cafezinho com eles, quanto mais meus problemas existenciais. Já o segundo – “Continuando sobre a Filosofia Clínica” - foi um pouco mais diplomático, porque indico que isto precisa de mais pesquisa antes de “tratar pessoas” – mas foi apenas diplomacia. Lugar de filósofo é na educação, as outras atividades são apenas conseqüências desta atividade.

3. Existe outro tema que o senhor explica que é a busca pela Felicidade, como é esta fórmula?
Danilo:
Não há fórmula para a Felicidade. Entenda a Felicidade como uma missão a ser cumprida, quando alcançada outra surgirá. E não confunda Felicidade com Alegria. É só isto! Alegria é um momento instantâneo de comemoração, uma festa, necessária para vida, mas não é Felicidade. A Felicidade é apenas o resultado de um conjunto de ações que adotamos para alcançar um objetivo. Nem sempre as ações são agradáveis, mas são necessárias para o fim que é a Felicidade.

4. Dentre os vários artigos científicos, resenhas, crônicas e artigos para jornal, há projeto para a preparação de algum livro?
Danilo: Não penso nisto. Eu não tenho muita coisa para dizer num livro. Quero morrer e acabar. Deixe isto para os bons e para aqueles que têm realmente o que dizer. Concordo com o filósofo Schopenhauer que explica da existência de três tipos de escritores: os cometas – que simplesmente passam; os planetas – que a gente admira por um determinado tempo e por causa do movimento, a gente fica debatendo sobre eles e; os estrelas – que são fixos. Eu escrevo coisas curtas, porque sei que a informação hoje é efêmera e volátil devido à rapidez da tecnologia de comunicação. Quando eu tiver algo a dizer, escrevo um livro, mas por enquanto não há nada de original no que faço.

5. Como é estudar Filosofia hoje no Brasil?
Danilo: No ensino superior é lendo os filósofos, mas com todo cuidado de não se deixar ser manipulado por ele. Nas escolas de Ensino Médio é aprendendo a ler os códigos e os significados que só o homem é capaz de construir. Eu vejo com muito otimismo, porque Filosofia é o que nos torna mais humanos.

6. As crenças e convicções, sejam religiosas ou políticas, podem atrapalhar no ensino de Filosofia?
Danilo: Depende do professor e dos estudantes. Quando a Filosofia foi transformada em disciplina obrigatória no Brasil houve medo de que os professores de Filosofia manipulassem a juventude com ideais políticos e religiosos. Na verdade, o professor que fizer isto, não é professor de Filosofia. É um enganador. Mas, para que isto não ocorra, aposto nos estudantes. Se a curiosidade deles for despertada, logo este professor sai de cena. A curiosidade incentiva a desconfiança, a investigação e aí a dialética. Por exemplo: supomos que um professor de filosofia indica um livro para ser lido, mas ele sabe que não será lido, então ele verifica a fragilidade e consegue manipular estrategicamente, tornando os estudantes como bonecos ou fantoches. Mas se o estudante ler e também ler os que criticaram tal livro indicado, este professor não conseguirá manipular ninguém quanto às convicções e as crenças, porque terá que argumentar. Só que é isto que é Filosofia para o Ensino Médio – argumentação e debate, sem banalizar a história da filosofia e os limites do pensamento. Mas, observe, depende de ambos os lados para que as aulas de Filosofia não se transformem em Ideologia. Uma vez, um professor me disse: “não acredite em nada que o seu professor fala na sala de aula, apenas observe como ele se comporta, pois isto te ensinará um pouco mais sobre a vida”. Sempre exercito esta frase enquanto sou estudante e tento passar isto para os meus alunos também. Agora, num ambiente de acomodação e apatia, o professor de Filosofia se torna um manipulador.

7. Uma aluna me disse que uma das suas frases preferidas em sala de aula é “não existe verdade absoluta”. Como o senhor explica esta lição se ao final acabamos por definir alguma verdade?
Danilo:
É, falo isto sim. É o segredo de um jogo que faço com as turmas, que ainda estou esperando alguém confrontar. No fundo é um desafio, frustradamente, acaba se tornando num diagnóstico.

8. O senhor acredita em Deus?
Danilo:
Esta resposta importa?

9. Em suas crônicas o senhor nos apresenta uma série de acontecimentos da sua infância e juventude, mas sinto que há sempre algum mistério neles. Existe alguma crônica, em especial, que o senhor se identifica e gostaria de revelar algum segredo?
Danilo: Não sei sobre os mistérios de minha infância que aparece nos textos. Talvez estejam mal escritos, por isto parece mistério. Mas, tenho vários textos preferidos e outros que eu odeio. Um dos preferidos é O jardim das certezas é a fonte das incertezas. Aquele é um texto misterioso, porque pensei como um suicida. Não que eu seja um suicida, mas tentei escrever como se eu fosse alguém que deseja morrer do que viver. Alguns acharam o texto maravilhoso, o que confirmou minhas expectativas. Poucos entenderam que “jardim da saudade” é nome de cemitério. E que o jardim da certeza é o mundo científico, mas a incerteza fica no cemitério. Portanto, o texto é isto: é fácil morrer, difícil é viver com tanta certeza sobre tudo – no fundo me revelei um suicida incompetente porque acabei falando mais da vida, porque acabo criticando nossas “certezas” do que explicar o desejo pela morte que é um vazio total de certezas – é um texto anárquico, num sentido existencial.

10. O senhor concorda com a idéia da Filosofia ser ensinada também para crianças?
Danilo: É importante popularizar a Filosofia, mas sem banalizar. É o que faz a diferença na convivência. Eu já disse que a gente só precisa saber a língua portuguesa e a matemática, o resto é apenas currículo. Mas, é isto que faz a diferença. Não sei quanto ao ensinar Filosofia para crianças, nunca estudei nada a respeito, a não ser ler algum artigo de jornal ou revista sobre o assunto. Mas, acho que nós aprendemos mais Filosofia com as crianças e não sei se conseguiríamos ensinar a elas uma coisa que elas já fazem por natureza. Acho que os pais é que deveriam aprender Filosofia para lidar com elas.

Danilo Dornas é membro do CEFA – Centro de Estudos em Filosofia Americana; colunista do Paidéia da Folha do Litoral e do Jornal das Lajes; professor de Filosofia e ministra cursos pelo Brasil ligados à Filosofia, Ética, Educação e Política.
Blog: http://paideiadigital.blogspot.com/
Email: danilodornas@uol.com.br

23.4.09

A solução para a frieza de uma vida suína

Faça de conta que você me conhece há tempos. Ou melhor, pense que você sou eu num dia frio de inverno com alguns porcos bem próximos para proteger do frio através do calor recíproco. Pense que se um porco se afastar, o frio penetra no âmago do seu ser, por isso de toda forma o melhor é ficar ali, encostado em porcos. Sem dúvida são três dificuldades que você enfrenta: a de pensar em ser eu, a de sentir frio e se aliar com porcos para evitar o frio. Isto é o que eu chamo de sociedade e suas complexidades. O sociólogo Max Weber chamaria isto de fenômeno social, caso você entenda os porcos como uma metáfora para o outro ser humano. Eu entendo que esta relação é uma manifestação monótona do íntimo em proximidade uns dos outros por causa de algum desejo impulsivo de calor. A relação, aqui desenhada seria a construção de uma tolerância do frio e dos outros porcos que está em contato. A sociedade não é diferente, pois passou a fabricar a tolerância como virtude ideal numa sociedade visivelmente suína.
A distância entre a intimidade e a sociedade é uma tênue intermediária que possibilita uma coexistência na cortesia e nas boas maneiras de outros porcos. O problema é que a natureza não passou o corte exatamente no meio da espécie humana e as outras coisas da natureza. Em constatação, homem e porcos se coincidem na natureza. E diante disto, é inacreditável como alguns homens conduzem a vida de maneira insignificante e fútil. Se sentem porcos, se protegem com os porcos e renunciam à vida humana. É a natureza social de todas suas ilusões acompanhada de uma série de leis mecânicas sobre o movimento dos corpos e suas termodinâmicas que propiciam tal preferência conveniente ao conforto e a facilidade.
A única coisa que mantém a vida suína é o egoísmo natural, porque exige não falhar e não errar nas questões fundamentais do ser humano. Tudo que se opõe a esse egoísmo lhe provoca a ira e o mau humor, e daí nasce a vontade de aniquilar quem acertou ao menos uma vez. Geralmente, quem acerta é o porco ao lado. Quanta mediocridade!
Portanto, mesmo no frio, em meio aos porcos, sugiro distância, para que haja aprendizagem sobre a coexistência com a própria intimidade. Isto porque, quem possui muito calor interno prefere renunciar ao frio, aos porcos e à sociedade de porcos. O calor interno aquece o mundo externo. Quem cumprir tal missão possui luz própria e sua coexistência permite-se tudo.

Danilo Dornas é filósofo
e-mail: danilodornas@uol.com.br
http://paideiadigital.blogspot.com

15.4.09

O vestibular unificado: o aprender a aprender!



O ministro da educação Fernando Haddad acertou ao falar do vestibular. Finalmente, não falou apenas de projetos, mas de solução. E uma solução boa, polêmica e que realmente com uma atitude simples reorganiza toda a educação brasileira. Evidente que o ENEM, em sua forma, é fraco: vamos reformar! A forma com que os vestibulares são elaborados é ruim: vamos reformar! - Encontrar um denominador comum é a solução - disse o ministro.
Mas o que isto significa? Significa o fim da educação positivista no país. Entramos agora no ritmo universal da humanização e isto é uma postura ética antiga, esquecida na Idade Média e renascida, esquecida, reformulada no século XX como humanismo. O humanismo é uma axiologia, que indica o ser-humano como valor, e não como objeto ou máquina que, simplesmente, reproduz leis científicas, mas exige raciocínio – característica humana. Agora, o aluno do Ensino Médio terá, além dos básicos português, redação e matemática, aulas de ciências humanas: Filosofia, Sociologia, História e Geografia, no modelo que exige a educação humanista. As aulas de ciências da natureza serão realmente disciplinas da vida cotidiana em detrimento à "decoreba" de nomenclaturas.
Os desesperados que esbravejam "sou contra", ainda não entenderam que esta mudança resgata um dos principais valores humanos, a cidadania, perdida pela frieza científica positivista. Se eles entendessem que tal mudança é pela democracia, cidadania e responsabilidade não esbravejariam, mas aplaudiriam, a menos que apóiem o ensino de ideologia e alienação. Então, não sabem ainda a dimensão da mudança proposta, não sabem sobre os defeitos da educação positivista e muito menos sobre os cruéis problemas dos métodos educacionais brasileiro. Finalmente, uma proposta de solução que valoriza o cérebro humano, o ser-humano e o seu valor em sociedade, originada de um cargo executivo.
Eu desconfiava que a obrigatoriedade de Filosofia e da Sociologia era apenas o primeiro passo para esta mudança, mas achava que ela ocorreria daqui uns 20 anos. Eu lia que os donos de escola, alguns funcionários do governo e até filósofos e sociólogos (FHC inclusive) eram contra a lei da obrigatoriedade de tais disciplinas porque ainda acreditavam no tradicional modelo técnico-científico, que não permitia carga horária para tais disciplinas. Por isso, falavam contra lei acusando os professores de Filosofia e de Sociologia de corporativistas - eu não vi nenhum protesto, nenhum abaixo assinado, nenhuma manifestação significativa para aprovar a lei. A aprovação da lei, simplesmente, ocorreu. Lula não assinou, pois estava viajando, mas foi o vice-presidente José Alencar que ao ver as duas páginas ali em cima da mesa, contendo a lei que tornava Filosofia e Sociologia como obrigatórias, assinou. E o ministro Haddad comemorou dizendo - a missão ainda não está cumprida!
Agora a pressa na mudança para o vestibular unificado é mais intensa do que todos imaginavam. Esta pressa se justifica devido às eleições do ano que vem e Fernando Haddad se não promover tal mudança radical na educação brasileira cairia no esquecimento como muitos outros ministros daquela pasta, e não conseguiria disputar um cargo eletivo com bons projetos e argumentos, da mesma forma que José Serra fez um dia, com os genéricos, por exemplo. Certamente, seu futuro seria se tornar consultor, palestrante ou dono de alguma Faculdade, como muitos que passaram naquela pasta e mantiveram estes métodos ruins de seleção. Haddad sempre teve uma carta na manga e quer ser político - bom político - por isso ele só mostrou sua carta após discutir muito e identificar qual o melhor momento para dar um solavanco na educação. Ele é astuto, inteligente e agora justificou seu doutorado em Filosofia.
Seus yoga e jiu-jitsu matinais combinado com sua juventude lhe deram a chance de pensar em estratégias para não cair no esquecimento. E eis a solução: vestibular unificado. O estudante faz uma prova com 200 questões e pode escolher cinco faculdades públicas (solucionando o problema de vagas ociosas e os gastos dos vestibulandos com viagens), mudaria o conteúdo e a prática educacional dividida em quatro áreas (Língua Portuguesa e Redação; Matemática; Ciências Humanas e Ciências da Natureza), além de deixar a autonomia universitária escolher o modelo da prova e a opção de manter uma segunda etapa – eis o denominador comum.
Não tenho dúvidas de que a mudança é excelente. E se um dia escutamos no programa Sai de Baixo o personagem Caco (Miguel Falabela) criar o bordão: - por favor, salvem a professorinha! Parece-me, que Haddad joga um salva-vidas para a educação. Quem diria, hein? Um sujeito que substituiu às pressas outro ministro da educação que saiu para apaziguar os ânimos do seu partido (Tarso Genro - abandonou a pasta da educação para ser presidente do PT, no escândalo mensalão) e após a confirmação presidencial que Haddad se manteria no cargo, imediatamente organizou toda a proposta de mudança e manteve setores para cada área, sendo ele o visor da unidade - isto que é político!
Só temos a ganhar com a mudança e os reitores sabem disto. Pode haver defeitos, mas podemos aparar arestas porque o retoque no vestibular exige uma mudança em tudo: nos estudantes, na arte de lecionar, nos conteúdos, na aprendizagem, nas escolas, nos cursinhos (que não deixarão de existir). Portanto, a tal mudança exige uma educação que ensina aprender a aprender. Era isto que os positivistas não ensinavam ou não queriam ensinar. Enfim, torço pela iniciativa do Haddad e o parabenizo pela valentia e pela astúcia. Sinceramente, achei que nunca iria escrever isto, mas ele me provou ao contrário apenas em dar uma entrevista coletiva e esclarecer para a sociedade suas intenções e os incansáveis projetos, que eu não entendia nunca. Agora, ele nos presenteou com a solução e entendi o motivo para tantos projetos. É um sujeito que, mesmo que algo falhe, podemos reconhecer - ele tentou certo!
Danilo Dornas é professor.
e-mail/MSN: danilodornas@uol.com.br

11.4.09

O feitiço de Áquila é uma pizza entregue por engano!

Vista panorâmica de uma forma de Pizza tamanho família

- Alô, alô, se tiver tremendo muito, não vá ao Vaticano! - meu conselho particular para todos que querem ver o Papa nesta Páscoa. Uma tragédia na Itália, sem dúvidas. Mas, ela poderia ser evitada se Deus tivesse uma fita métrica e errasse por uns 90 km. Imaginem, se o epicentro do tal terremoto fosse o Vaticano? Certamente, nossas vidas e nossos costumes morais iriam mudar para sempre: poderíamos usar camisinha sem culpa, comer carne na sexta-feira santa, não indignar com excomunhão de vítimas de estupros, principalmente crianças - a esta o Vaticano perdoou - não acharíamos engraçado um padre baloeiro tentar começar sua missa lá do alto (essa foi muito sarcástica)... Bom, enfim, teríamos uma verdadeira modificação na mesma instituição que já calou Giordano Bruno, Copérnico, Galileu Galilei e o brasileiro ainda vivo Leonardo Boff, porque finalmente veriam que Deus não poderia destruir sua própria casa com terremotos: com leis naturais e divinas. Ou seja, se Deus treme o Vaticano, é sinal de que, ele não está contente com os serviços ali prestados. Eu mesmo já fiz isso num hotel, uma vez! Portanto, precisamos de um novo João Paulo II para pedir desculpas, como ele fez aos judeus, às vítimas do Tribunal do Santo Ofício, com o apoio ao Adolf Hitler e etc...
Não entendo os terremotos como fenômeno natural, mas admito suas conseqüências para a moralidade humana. Sabemos que os cenários dos filmes "Feitiço de Áquila" e "O nome da Rosa" é palco de verdadeiro e trágico treme-treme. Mas, até agora perto de 300 mortos, e o Bento XVI se limitou a deixar que haja uma MISSA, cerimônia que não é permitida na sexta-feira santa. "É um caso extremo" - disse ele. Puxa! O Papa deixou rezar uma missa? Que evolução extraordinária! O primeiro ministro italiano, muito mais preparado para este tipo de situação, disse aos desabrigados do terremoto que "é como morar em acampamentos" - ora, será que ele passou pela experiência dos escoteiros? Se ele experimentou, deve ter esquecido o lema: "Sempre alerta".
E parece que ele, realmente, se esqueceu do lema dos escoteiros. O cientista italiano que 2 dias antes do primeiro terremoto mostrou gráficos dos abalos sísmicos na região foi preso. Isto sim é uma brilhante atitude de quem realmente aprendeu algo sobre inquisição, torturas e heresias. Afinal, lá é a terra destas coisas. Mas, por que a Itália? Será que entregaram alguma pizza fria para Deus? Ou será que Deus, finalmente, atendeu as nossas preces para conseguirmos a paz mundial, e agiu primeiro contra a máfia-italiana. Bom, se a opção divina for a segunda, já indico alguns possíveis futuros alvos: máfia-russa, máfia-chinesa, máfia-japonesa, planalto central...
Como aqui no Brasil, qualquer crise chega seis meses depois, sentiremos o terremoto um pouquinho mais tarde. E fica a pergunta: estamos preparados para um terremoto? Não. Ninguém fica preparado para um terremoto. Terremotos não são como furacões que avisam antes de destruir tudo com muita antecedência. Vi uma entrevista sobre todo este caos de um professor da USP dizendo: - “as grandes metrópoles brasileiras não estão preparadas para terremotos”. Ah! Que magnífica conclusão intelectual! Será que ele teve bolsa da CAPES ou CNPq para fazer a pesquisa que conclui isto? Ou isto é apenas um capítulo de sua tese? Ninguém falou para ele que terremotos, furacões e vulcões são fenômenos de primeiro mundo? Qualquer professor de sociologia sabe disto! Os terremotos e furacões que tivemos por aqui são tupiniquins, são apenas para demonstrar que "estamos em desenvolvimento" – uma nomenclatura para um otimismo político, em comemoração feliz pela entrada do Brasil no G-20. Quando tivermos um vulcão, chegaremos ao grupo dos G-4. Então, geólogos otimistas, mãos a obra, cacem este bendito vulcão!
Bom, terminando, eu sempre desconfiei que os macarrões, as mussarelas e as lasanhas eram realmente revolucionárias. Só não sabia que elas iriam causar tanta indigestão nos pés do Papa. Mas será que, alguém, poderia servir uma destas iguarias culinárias ao Evo Morales? Ele esta em greve de fome, porque também quer um terremoto na América Latina. Segundo ele, abaixo das placas tectônicas tem muito petróleo e isto salvaria seu mandato presidencial, sua reputação indiana e de repente, poderia até nacionalizar a Petrobrás. Não me perguntem como!
OBS: Após a divulgação deste texto recebi a informação de que existe uma parede vulcânica, sem possibilidade de atividade, na cidade carioca de Trindade - RJ, perto de Paraty.
Danilo Dornas só sente terremotos em lugares apropriados.

21.12.08

Tenham um bom dia!


Levei a mira em meter nos meus ânimos o repúdio às lições espirituais, mas não deixo de me envolver com as notícias curiosas, para que em companhia destas me sejam úteis e suaves. E, embora, estas notícias recolhidas sejam efêmeras e breves; redondas e sonoras; estou disposto a adquirir alguma luz para fundar reflexões sobre elas e levar a lugares comuns uma miscelânea de considerações sociais, mesmo que eu não seja um indicado e especialista no assunto. Portanto, escrever num jornal, em época natalina, e uma pessoa como eu que ao invés de desejar “Feliz Natal” prefere dizer “Tenha um bom dia!” É um desafio falar sobre a sociedade neste período de árvores de natais, com algodão simbolizando o gelo, em pleno país de clima tropical e, quente, no mês de dezembro.
Mas, o que eu posso fazer? Sabendo que o leitor, nesse momento, deseja alguma mensagem de paz, amor, fé e esperança. Então, ótimo, desejo essas coisas a todos que me lêem. Mas, já escrevi que o desejo é um “querer fracassado”, porque é uma ilusão. Porém, tais palavras não são sinceras! O que me causa tédio neste fim de ano são a insensatez e a insinceridade do jogo social do Monsenhor Santa Claus. Recentemente, se fala muito em “politicamente correto”, um termo obscuro, mas voilá, ele tem feito parte dos lugares mais comuns do mundo. E este termo designa, simplesmente, o cuidado de se usar palavras, frases e até gestos que possam ferir sentimentos alheios aos nossos. No fundo, é uma coisa que teve sua raiz no processo relativo da ciência e da filosofia e que hoje pode se aplicar às culturas e suas diversidades.
Mas, e eu? O que eu tenho a ver com isso tudo? Sair perguntando de qual etnia ou religião você é e me informar o que eu devo dizer neste período? “Ah, você é Judeu? - Feliz Chanukah! (festa das luzes).” Ou “Ah, você é cristão? - Feliz Natal!”. “Ah, você é ateu? - Tenha um bom dia!”. Considero ambicioso manter sinceridade nesse período do ano, que seja politicamente correto. Entretanto é, nesse ponto, que entram as incríveis capacidades humanas de empacotar suas mais belas e magníficas falsidades: em presentes. Eles já são embrulhados daquilo que não somos e não desejamos ter e desejamos que o outro tenha por necessidade nossa ou por futilidade dele, que seja! Uma vez me falaram que existem duas formas de agir diante dos presentes: a primeira é a ostentação e a segunda é a poupança. Portanto, há aqueles que ostentam e há aqueles que poupam. Mas e aqueles que não querem nem um e nem outro? Estariam eles fora do jogo social?
Um autor de comédias, certa vez, introduziu no cenário teatral, a figura do sol dando gargalhadas da humanidade. Não precisa muito esforço para saber que isto só pode ter acontecido no Renascimento. E as gargalhadas foram questionadas pelos expectadores que se sentiram chocados, humilhados e idiotas. Como pode o sol rir dos seres humanos? Isto, talvez, é o que passa atualmente neste jogo social. Acredita-se no inacreditável. Apega-se ao que não causa nenhum sustento. Não sentimos mais o choque e a humilhação que os nossos antepassados sentiram, porque não temos mais tempo para isto. Mas, mantivemos a idiotice, para nossa própria desgraça.
Tenho mantido, nesse espírito, a forma e o fim da obra, os defeitos dos cegos que não querem ver. Eu digo que neste reino são apenas três coisas que nos orientam: muita paciência, muita ciência e muita benevolência aos amigos. Então, se um dia me faltar a segunda e a terceira, por favor, emendam a primeira: a paciência.
E tenham um bom dia!
Danilo Dornas é filósofo

17.10.08

O jardim das certezas é a fonte das incertezas


Todo começo significa adquirir a consciência dos problemas. E os problemas são as dúvidas que repelem e aniquilam todas as coisas certas, mas que traçam caminhos que nos impõe o desconhecido e o fascinante. Isto me lembra um filme que um personagem suspira: - "como é interessante quando a audácia e o medo se coincidem". Uma vez, li um poeta espanhol, que dizia:

O jardim tem uma fonte
e a fonte uma quimera
e a quimera um amante
que se deixa morrer de tristeza.

Isto significaria que no mundo existem jardins, haveria também quimeras e estas seriam capazes de arrebentar qualquer transeunte do mundo, cuja fonte é o amor e ao mesmo tempo um monstro. Não por acaso que escolho a obra Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616), como aquela que arrebata toda a minha experiência de viver e de amar. A mágoa de Dom Quixote não foi por confundir os moinhos de vento com gigantes, mas a de perceber que existem gigantes! E, por isso, ele combateu sem pestanejar os tais gigantes, mesmo após do alerta de Sancho Pança que aqueles "gigantes" eram apenas os moinhos de vento de um jardim. Mas, minha pergunta diante desta aventura quixotesca seria: como é possível magoar com algo que nunca vimos? Ou seja, sempre mantive como postulado que as quimeras, os gigantes; assim como os unicórnios, os pégasos e os minotauros não existem e então eles não poderiam magoar ninguém. Entretanto, magoaram Dom Quixote! No fundo, se há problemas ou quimeras nos jardins; se um amante pode morrer de tristeza, como diz o poeta, é um indicativo de que sempre há um esforço em culpar o mundo exterior pelas decisões, pelos caminhos assumidos em vida, e talvez este seja o motivo da mágoa de Dom Quixote, pois ele escolheu o caminho de ser um cavalheiro andante após se cansar de ler as teorias dos livros medievais.
Já que a consciência dos problemas é o começo, como eu disse, a dúvida deve ser aplicada às quimeras, aos monstros e às coisas da imaginação. Só que o jardim, o poeta e o autor Miguel de Cervantes são reais. Assim como os protagonistas da vida são reais e devem sempre manter a consciência dos problemas e das mudanças, além de saber que os problemas e as mudanças são necessários para desvincularmos da rotina e do cotidiano.
Como se pode perceber, faço aqui uma advertência capital. É um tesouro para quem sabe ler e para quem ousa me interpretar. Ambos estarão motivados pela curiosidade e isto faz com que surja o afã da compreensão, desencadeando o mistério e a dúvida como instrumentos de conhecimento. É esta espécie de segurança que posso oferecer sobre a realidade. Portanto, esta segurança que eu posso oferecer é o livre acesso à minha intimidade, aos meus pensamentos e às minhas palavras. Se tais ofertas ainda constituem mistérios ou ainda contribuírem para as dúvidas, então se sintam como Dom Quixotes e combatam os gigantes, mesmo que eles sejam apenas moinhos de vento. Ao combater os problemas que apresento, volto a ser o jardim e, talvez, um jardim da saudade.

Danilo Dornas é filósofo.
e-mail: danilodornas@uol.com.br
Blog: http://paideiadigital.blogspot.com/

15.10.08

O cinza e o colorido


Ao anunciar os problemas que afligem meu espírito com a necessidade de tentar construir razões para a vida, me sinto com um determinado heroísmo intelectual a cada dia. Os problemas se tornam mais purificados em comparação com outros que já experimentei e presenciei em meus contatos com o mundo. E é isso que me leva à filosofia, pois, para mim, ela é um superlativo que não nos dá um caráter desordenado e nem nos leva ao mistério, mas é um exercício sobre o contentamento com a vida. E é sobre esta base que admito a necessidade de filosofar, mesmo admitindo também que é uma atividade supérflua e possui um caráter desportivo.
Há oito anos, eu falava com uma dor repugnante, que o descontentamento com a vida viria das frustrações certas em desejar sem poder desejar. Dizer isto é o mesmo que sentir uma dor em membros que não temos e reconhecer que possuímos um espírito amputado pela nostalgia e que o envelhecimento é meramente biológico e, por isso impossível fugir da razão e do destino. No fundo há oito anos, eu estudava o racionalismo e reconhecia a realidade como sendo única; por conseqüência só existiria um único significado para o real. Isto seria uma maneira eficaz para admitir o mundo como uma fórmula matemática, com deduções sem erros e confusões. Hoje, reconheço que tal empreendimento é reconhecer que somos incompletos e deficientes. Desta forma, permanecer num mundo racional é como caçar um unicórnio.
Não foi casual que de repente a Filosofia seguiu outro caminho quando tenta explicar o ser humano como algo infiel à racionalidade, a comprovação sensível e a verdade física. Da própria Filosofia emerge uma capacidade de não aceitar o destino científico e por isso, foi extremamente revolucionário, mas construindo um sentido de se considerar nobre quando se admite: Ser o que é.
Porém, admitir o que somos também pode instaurar uma deficiência. Além do mais, precisamos conviver e tal deficiência impediria esta nossa capacidade social. O essencial é buscar em nosso ânimo uma categoria para nos transformar e nos comportar no mundo. Isto é o que eu chamo de reconhecer na própria vitalidade aspectos que nos levam à razão. O objetivo disto é recuperar a inteligência não mais como algo profundo, mas como um aspecto externo que se surpreende com o cotidiano e a ele dedica boa parte de suas atividades. Assim, cantando Fausto, de Goethe, termino aqui: "Cinza, caro amigo, é toda teoria. E o colorido é a áurea da vida". Portanto, a tonalidade cinza é a máxima universalização que uma cor consegue adquirir quando se revela em apenas teoria e, assim, deixa de assumir o colorido da vida autêntica.

Danilo Dornas é filósofo.

12.10.08

O lúdico e a morte

O meu apego ilimitado à vida não me vem do conhecimento e da reflexão. Ao contrário, ele vem do lado que não tem objetivo e nem um projeto racional. Como diria o filósofo Voltaire (1694-1778) "On aime la vie, mais le néant ne laisse pas d' ávoir du bon"*. Eu reafirmo esta frase do filósofo Voltaire, pois parece ridículo à minha racionalidade inquietar com a vida em tão curto espaço e em tão escasso tempo que dispomos na dimensão racional. Porém, mesmo que isto possa parecer pessimismo, sinto a necessidade em esclarecer que não se trata deste tipo de julgamento que tenho sobre a vida e nem uma demonstração pela vontade de morrer.
A vida é, apenas, uma atividade lúdica que constitui o elemento essencial que unifica os desejos e a razão como orientação para percorrer o caminho incerto e inseguro que dispomos. No entanto, meu esforço é demonstrar que não há espaço para um homem lúdico que valorize o homem constituído puramente da razão. É neste estranho confronto entre o "homem sério" e o "homem brincalhão", que tento qualificar na vida, me traz o cuidado das generalizações e as conclusões precipitadas que afastam a precaução e as conseqüências de qualquer ação.
Uma vez me disseram que "a maior musa inspiradora da filosofia e das religiões é a morte". Em todo caso, a vida deve realmente ter seu fim - que é a morte - mas abordar este fim é uma conclusão precipitada e correríamos o risco de cair dum precipício e, sem perecer, continuar caindo numa dúvida interminável, invejável inclusive ao mais perspicaz dos céticos. Então, como devemos abordar a vida sem o medo da morte? Aliás, esta questão é uma das que considero mais profundas, pois para solucioná-la teríamos que discutir a morte e depois a vida, separadamente, para enfim compreendermos a cultura da morte num espaço e num tempo determinado e situado numa circunstância.
Não é nada fácil separar, conceitualmente, a vida e a morte. Então, eis a dificuldade em compreender como seguiríamos nosso desafio de viver, sem ter que morrer. Porém, em minha trajetória e experiência considerei apenas o lúdico como uma categoria que poderia separar estes estados de espírito e suas condições reais. O lúdico, o jogo, o entretenimento é a forma que podemos compreender, sem confusão, a vida e a morte. O lúdico estabelece os limites dos dois extremos que marcam nosso breve intervalo vital e é por isto que o considero fundamental para tornar-se presente à existência humana.
A vida cede ao jogo e à competição. Daí surge a alegria e a felicidade que impedem que pessoas angustiadas tenham a ousadia em interromper sua orientação aventureira. Ao abordar a vida, como um jogo, nós começamos a nos sentir com a vitalidade infantil, que não seria de todo ruim, mas que poderia ser considerado imaturo, quando não se verifica nenhuma possibilidade de renascimento. Eliminaríamos a apatia e incentivamos a expectativa através dos deslumbres com o mundo, e não mais com o espanto, como queriam alguns filósofos racionais. No jogo, também, há o desejo pela vitória; o saborear dos momentos; e o sentir dos carinhos de suas peças vitais, como os amantes. Mas também há derrotas, que podem nos levar à maturidade e à experimentação da vida ou a preferência pela morte. Assim, a vida é um emaranhado de desejos que estariam livres de julgamentos ou rótulos, mas não das regras e normas naturais, impostas pelas leis biológicas. O viver, que sai das leis biológicas, tem que encontrar uma perspectiva ou um significado que fascina a vontade e o desejo, para que se faça valer à pena e que não seja redutível às classificações enciclopédicas.
A morte surge quando pensamos. E o pensamento vem com a preocupação sobre a não-existência - o Nada. A morte é o vazio que, por carência, tentamos preencher com critérios, também culturais, quando não sentimos mais a sede de jogar. O medo de morrer não pode ser ocasionado pelo simples fato de não-existir, pois não existíamos também antes de sermos concebidos no ventre materno. O medo de morrer vem da preocupação em não poder viver mais o nosso lado lúdico ao lado da pessoa amada.
Assim, a vida é sempre a mais desejada e a mais conservada atividade que possuímos, porém conseguimos pensar que às vezes ela possa não valer a pena. A morte, ao contrário, é o nosso lado obscuro que, assim como Voltaire condiciona: "que ela não deixa de ter seu lado bom", mas que se pudermos separar da vida, o fazemos com idéias de salvação, bem-aventurança e paraíso. Eis o resultado da razão e da preocupação em preencher o nada com entidades que já não dominam os pensamentos. Eu não admito qualquer preenchimento da morte com tais entidades culturais. Eu admito que a morte seja o final. É difícil admitir que a morte seja o fim da vida. Mas, o caminho da vida será sempre a morte.

* "Amar-se a vida; mas o nada não deixa de ter o seu lado bom" (Voltaire).

Danilo Dornas é filósofo.

10.10.08

O meu muro das lamentações


Cercado de mistérios, colorido de ironia, comprometido por seus excessos, a imaginação usa trajes teatrais, que com pouca justiça se fazem à vitalidade que dispomos. É certo que os últimos séculos foram absurdamente neuróticos e não menciono apenas aos registros históricos de monstruosidades, mas também à moda grã-fina na mania que percorre salões da abundância de uma sociedade estranha e dos desequilíbrios provocados pela angústia existencial.
A condição que dispomos na vitalidade traz consigo o pensamento, que muitas vezes é abafado por heranças e condições que se afetam por problemas religiosos, éticos e sociais. É evidente que tais condições não deveriam emprestar cores à vida, mas pensar assim é como se sentir solitário, porque outras pessoas da convivência pensam que o colorido da vida está no consenso que há ao definir a diferença entre as tonalidades das cores da própria vida.
O que se esquece que a sociedade é formada pelo conjunto dos anseios, temperamentos, paixões, angústias, imperfeições, anseios, hábitos que geralmente não são consensuais. Com vistas disto, estamos acostumados a ver que as pessoas falam do amor. Talvez este seja o tema principal de várias obras, pois é o mais fecundo e interessante. Eu mesmo nunca falei sobre o amor, diretamente. Talvez por influência social que já banalizou o tema; ou mesmo por pura falta de interesse em abordar sobre o tema; e por ignorar completamente sobre este assunto. Não sei dizer, realmente, o porquê nunca quis tratar do tema, e isto não significa que eu duvide da realidade do amor e nem da sua importância, mas é que para falar do amor, necessitamos de uma experimentação sublime que nos inspire a falar dele. Pois, falar sobre o amor é sempre uma tarefa momentânea e ligada aos instintos.
No entanto, evito falar do amor por causa de minha incompreensão sobre o que ele pode construir como as lamentações, as discórdias, as infelicidades e as angústias. Não é ele tratado como o mais sublime das paixões? Afinal, não é por ele que nos desperta a vontade de viver? O fato é que, hoje, se confunde o amor com o que ele significa para a sociedade neurótica e não para o que ele significa para os amantes. Os obstáculos são sempre os outros, as condições e os hábitos dos outros e nunca dos amantes. Enfim, dizemos que amamos, mas não o encorajamos. E a coragem é a condição essencial para se abrir ao amor e ultrapassar o muro de lamentações.
No fundo, o amor é a união afetiva de duas pessoas num único ser; e num único fazer; e num único projeto. O maior desafio é tentar explicar a individualidade explícita, que é o primeiro passo da existência, mas a atração e a troca de olhares deveriam solucionar este desafio com a cumplicidade. O amor é impelido para a juventude, pois é o estágio da alma que contém a capacidade de viver. Então, o egoísmo é seu inimigo e junto com o egoísmo as condições sociais.
Talvez seja isto que faça que os amantes, quando agem, se sentem sacrificados. Este sintoma recorre à inteligência e o amor se torna incompreensível ou até ilusório. Mas, na verdade temos no amor uma paixão muito nítida, sem cores de diversas tonalidades, mas na busca zelosa pelo amor, podemos perder a dimensão do desígnio da vitalidade. Sobretudo, se a exterioridade interferir nesta busca.

Danilo Dornas.

7.10.08

O fragmento que determina a tristeza


Je n' ai plus d'espoir. Les aveugles parlent d’une issue. Moi. Je vois. - frase obscura do cineasta francês Jean-Luc Godard quando resolveu escrever os ensaios que compõe o clássico livro Introdução a uma verdadeira história do cinema. Em Brás Cubas, de Machado de Assis, me lembro das referências ao "amor das aparências rutilantes". Em ambas as expressões, há uma referência pelas formas sem conteúdo que já são manias culturais, como se fosse uma espécie de "persona coletiva". Exatamente, nesta cultura que sobrepõe qualquer feito humano das afetividades da alegria e da tristeza.
Eu não gostaria de atribuir "as formas sem conteúdo" ao subdesenvolvimento, pois tais características muitas vezes amam compensar a aparência com um jeito despojado e informal, então acabam revelando a obscuridade e a afetividade. O que eu adoraria (ou pretendo) demonstrar é como eu me tornei mais um destes “personagens coletivos” que, ao me vangloriar de feitos sociais, acabei por me expor ao ridículo e ao choro, porque não creio que se pode submeter a esta cultura maníaca e depressiva. E então, podem me perguntar se isto é bom ou ruim. Se isto é conveniente ou não. Ou se vale a pena vestir a máscara social, constituindo uma figura caricatural e se existe possibilidades de fugir de tais condições?
Claro, quando nos propomos a retirar as máscaras (as personas) nos deparamos, imediatamente, com a lira de Orfeu misturada com a saciedade de Dionísio e a vaidade de Narciso. Querem saber o que é o inferno? Eis ele descrito aí em cima. E, quando descobri que isto era o inferno, aprendi a chorar. A chorar por compreender que nós esquecemos de existir como humanos, por causa de uma celeuma de condições sociais. Este esquecimento é uma educação que ojeriza e atormenta a afetividade que são cultuados por Orfeu, Dionísio e Narciso; que nos impõe a fuga da solidão. Então, existem, para nós, duas saídas: ou representamos para fugirmos da solidão; ou permanecemos na solidão. É como existisse uma separação entre o que há em no universo do coração e do espírito e o que há no mundo do corporal e físico. Assim, esquecemos que um dia nós fomos obrigados a ler Dom Casmurro, do próprio Machado de Assis, que nos ensina que a solidão é uma força da frustração, pois é o resultado da saudade. Mas, será que é isto mesmo? Será que a origem da tristeza é a saudade? Ou será que a saudade é apenas uma figura poética da língua portuguesa como no verso seguinte:

Saudade é anseio constante
E é também doce tormento:
Sofrer por alguém distante
Que nos prende o pensamento.
(Teodoro Corrêa)


Não seria melhor se pensarmos que a tristeza tem sua origem em alguma frustração natural da fuga da solidão? Em termos psicológicos, será que a tristeza é a busca por um paraíso já perdido em sua organização e que nos mostra apenas a fachada do hospital e não os doentes? Sinceramente, não sei. Mas, sei que o remédio para a tristeza e para a saudade não é apenas o convívio ou calor humano, como querem os psicólogos. E sim, a presença involuntária do amante no nosso coração. E todos nós precisamos amar, senão sobra a aflição, a desordem mental, o egoísmo e a confusão. A verdade é que a tristeza e a saudade são componentes importantes para determinar a relação entre pessoas. Só penso que a tristeza é a cruz e a saudade é apenas um fragmento desta cruz. Quem carrega toda a cruz se diz messias e ele morre a cada instante. No entanto, o importante mesmo é suportar o fragmento da tristeza, que é a saudade. Quem nos mostra tal importância foi Simão Cirineu, que não ficou com a parte mais pesada da cruz e nem foi crucificado, mas carregou apenas parte dela e sobreviveu sob as suas chagas. Talvez, Simão Cirineu, tenha sido o Sancho Pança daquele que foi crucificado. Ele apenas levou uma parte da cruz que chamo de saudade. Assim, entendo que quanto menos a saudade for incorporada à vida, a própria vida não será tão densa e nem pesada; e nem se corre o risco de ser crucificado por causa dela. Afinal, não é da crucificação que todos nós estamos fugindo? Então, sejamos como Simão Cirineu, vamos carregar apenas um fragmento da cruz e com ela as chagas resultantes, mas viveremos! Contudo, assim como na frase de Godard – eu ainda tenho a esperança e vejo a saída que os cegos não vêem - mas será que existem muitos cegos?

Danilo Dornas sente saudades.

1.10.08

Só faltam os três pregos para me crucificarem!

Existem determinadas pessoas que se encontrarem por aí três pregos irão me crucificar, pois o calvário já está montado. O nome do calvário talvez seja esta coluna "Paidéia". Porque, os comentários dos últimos textos aqui disponíveis me despertaram um bom humor que, há tempos não o sentia. Acho que, a última vez, foi quando torci para que um dos aviões de Osama Bin Laden atingisse a Casa Branca naquele dia de 11/09/2001. No entanto, frustradamente, só morreram inocentes em outros prédios, em nome de uma Guerra Santa, cuja iniciativa foi de um pequeno grupo que fala diretamente com Deus, o que é diferente do que se acredita no Islamismo - Maomé não admitia conversões forçadas, vamos lembrar desta passagem do Alcorão.
Para entender o que foi dito aqui, ultimamente, precisa entender o que é "Paidéia". Para os desavisados, o termo é grego e significa uma educação envolvente com o cotidiano e o lúdico. E este termo significa que se pode formar e transformar um cidadão, sem fórmulas ou regras racionais. Portanto, o bom humor é um aspecto para desenvolver uma educação. Entretanto, parece que há aqui uma Guerra Santa, não muito diferente da feita por Osama Bin Laden. É só lerem os comentários dos textos Existe Luz para Dionísio e o A maldição do sol e o valor das trevas. Agora, tirando os elogios, que os agradeço, o que me deixa impressionado é com a capacidade de não entender absolutamente nada do que foi escrito em tais textos. E a mim, por ser autor dos textos, passei a ser "profeta do satanás", "homem das trevas" e agora, um mais caridoso me prometeu orações e o “caminho de Deus”. Ou seja, de repente, meu texto virou argumento para algum pastor, que não tinha mais o que fazer, como prova de que o Diabo existe. E, se o mistério é este, eu digo: - O Diabo existe e é casado, pois tem chifres!
No fundo, a missão de "Paidéia" foi cumprida, porém não como eu intencionava. Sinceramente, não sei onde é que tem mensagens satânicas nos textos indicados. E se as tivesse, qual o problema? Afinal, não foi Sócrates quem respondeu aos atenienses que seguia ao seu "daimon", que podemos entender como consciência? Então, qual o problema em seguir os desejos, uma vez que, eles são verdadeiramente humanos?
Evidente, que há uma importância na razão, que é a de medir conseqüências, mas qual o problema em mostrar que nós também como seres viventes, que somos, necessitamos da sublimação dos nossos desejos, sobretudo neste mundo agitado e burocrático? É possível viver sob regras que dizem apenas o "não faça"? Aliás, é possível viver apenas sob regras?
Na verdade, meu pai estava certo quando me disse para não escrever. Penso que ele já sabia que as palavras escritas não traduzem o pensamento em sua plenitude. Mas, como sou teimoso por natureza e escrever é uma das minhas sublimações, eu continuarei escrevendo, porque tenho quem leia meus textos. A internet é para isto. Aliás, ela é tão simples que já existe lá em cima um local que você, simplesmente, muda o endereço e segue para outro site, mas lamentavelmente não para o “caminho de Deus”.
Então, para aqueles que querem me converter ou me tornar um profeta do Diabo, a única coisa que tenho a dizer, é um sonoro “sinto muito”, não quero! Não sou um sujeito assim digno de conviver com pessoas benevolentes e cheias de boas intenções, que dizem irem para o paraíso. Se o paraíso tiver só pessoas bondosas, rapidamente, deixa de ser paraíso. Lúcifer nos provou isto! E mais: tudo que estou pedindo, ultimamente, é um pecado para viver. E nem isso, tenho conseguido! Então, se sou o “profeta do Diabo” devo ser muito incompetente, pois sequer consigo apenas um pecadinho. Bom, está dado o recado e a resposta aos que escreveram nos textos anteriores e que planejam algum ato terrorista com o instrumento da cruz, pois a Bíblia já não está mais sendo lida. Eu não poderia deixar de rir de tanta baboseira e nem deixar de lembrar que aqui o que se busca é uma "Paidéia" como discussão e não uma Guerra Santa. Agora se isto é o motivo para me crucificarem, então, por favor, antes me arrumem alguns pecados, para que eu seja crucificado com justiça, pelo menos! E sem a pretensão de salvar quem quer que seja.

Danilo Dornas, frustradamente, não é um pecador.

24.9.08

A maldição do sol e o valor das trevas


Toda guerra é arbitrária. Ela é da natureza humana e condizem com as características essenciais como o egoísmo, o orgulho e a inveja. Quem nunca já as sentiu sem culpa? Por natureza, eu também sou um batalhador movido por tais características. Não sou vingativo, pois isto seria uma fraqueza. Talvez este seja o desejo de Deus, do primeiro testamento, cuja vingança é a punição para quem segue os instintos. E punir com vingança é sintoma da fraqueza.
O desafio do filósofo é atacar, guerrear os problemas que já estão vitoriosos. Por isto, não cabe vingança e nem outro sentimento de fraqueza, que tenha punições. As estratégias de guerras devem manter a atenção somente em alvos que já são considerados vitoriosos. Assim, as coisas ficam reais e evidentes, pois assim nos comprometemos com o sabor da vida. E o que seria o viver senão houvesse alvos a serem atirados? Ou, problemas a serem desafiados?
Por isto, as minhas palavras me comprometem, pois elas revelam toda minha arrogância. E considero a arrogância um fuzil, a língua uma espada e a mente um instrumento sensorial. Sendo assim, o filósofo é um soldado. Seu inimigo: as condições históricas que formulam e impõem regras e normas de controle. Elas recebem o nome de luz, de iluminação ou esclarecimento. Mas, esquecem que, na guerra, a melhor forma de combater é na escuridão. Na obscuridade encontramos quem realmente somos. Na luz, ocultamos.
O ataque não pode vir por questões de antipatias pessoais, isto seria vingança, e voltaríamos ao período em que Deus e Moisés, um dia conversaram. De um lado as regras e de outro as punições. Podemos atacar com um simples: Por quê? É um ataque! Minha relação com tal passagem é de profunda indignação. Mas, não se consegue experimentar ressentimentos. Eles também são fraquezas, porque numa guerra o valor primordial é a gratidão. Sejamos gratos com os inimigos, eles nos mostram aquilo que está vitorioso para atacarmos.
Aventuro-me a demonstrar um dos traços do meu caráter, porque descobri que o medo nos une. E o egoísmo, o orgulho e a inveja nos afastam. Tal seria a condição essencial de se formar um exército que deve combater as ideologias, que nada mais são que instrumentos que nos condicionam contra o nosso caráter e a nossa natureza. Não tenho medo das coisas que se podem pensar disto tudo, mas tenho medo de pensarem que não estaria comprometido com as circunstâncias culturais do Ocidente. Afinal, estes sim, são os medrosos e globalizados.
Contudo, contraditoriamente ao que foi dito, não posso deixar de lado a minha solidão. Sem ela, não uso meu instrumento sensorial. E, não seria um guerrilheiro, pois não saberia discernir a intenção em postular uma regra de conduta. Pela intenção, chegamos ao problema. E a guerra começa! Mas, acham mesmo que estou falando em guerra no sentido de "briguinhas"? Não, falo da pior das guerras, aquela que não sabemos que participamos cegamente. O pior cego é aquele que não quer ver, já diz o ditado.

Danilo Dornas é enganado pelo esclarecimento.
danilodornas@uol.com.br

22.9.08

A lira da realeza


Há canções que devem ser cantadas. A minha orientação contém melodias que só podem ser ouvidas por pessoas que nem estão tão próximas, mas que me marcam com ferro e fogo. Poucos dias atrás, implorei que meu coração tivesse um discurso que não intrometesse nos assuntos fantasiosos. Contudo, o negligenciei. E os discursos viraram uma sinfonia que faculdade de música alguma ousaria estudar, pois seria tão subjetiva que não haveria como montar uma partitura. A música era de uma beleza, mas tinha chicotes. Uns golpes na corda, em instantes, soavam como uma melodia em lira.
As lágrimas das chicotadas são tristes. E mostram que a vida vale a pena ser vivida. A melodia é uma forma de superar a realeza que existe em mim e criar uma ilusão de amar a vida. Tal realeza formada com um castelo que ninguém habita. Assim, ninguém habita em mim. Da realeza, o povoado diz que sou feliz e que sei falar bem da felicidade. Mas, na realeza ainda falta o amor, pois alguém já o roubou.
Ouso por fim, escutar a melodia do amor. Inspirado e atormentado pela lira do coração. Um verso a lira que me traz o amor de lugares distantes. Assim, o mundo inteiro será pequeno e poderemos ser, um só. Sob a melodia do coração, enfim dormir num abraço dentro da realeza. Uma realeza que não tem castigo e nem prece de arrependimento. Quisera ouvir uma melodia que já caduca de amor. E, que não morra!
Danilo Dornas é o castelo

13.9.08

Existe luz para Dionísio?

Culto à Dionísio

Primeiro momento digno de mim. O presente que me deram se tornam profundo e gélido. No entanto, é sempre bom retirar desta profundeza o conjunto de valores que me fundamenta, pois adoro retirar daí a filosofia que me orienta, ainda que seja inquietante. Meus valores não são tão diferentes das outras pessoas! É a única certeza que tenho, assim como uma crença religiosa. Cega! Mas, os dois ouvidos ganham da única boca. Somos seres para ouvir mais e falar menos. Eis a minha inquietação!
Chegará um momento que os homens não deixarão de temer mais a solidão. Mesmo que os filósofos contestem esta afirmação, chegará também o instante que os homens temerão também o conhecimento. Toda a história de buscar a origem das coisas, já está superada. O desafio maior é perguntar sobre o significado das coisas que já existem. A morte? A vida? Quais das duas situações são as mais misteriosas? Não creio que seja a morte. Ela é simples de entender, pois o fim é sempre fácil de entender, ainda mais quando se trata do fim de tudo.
A vida? Um emaranhado de circunstâncias, significados e relações. Deve haver algo simples na vida, mas não é fácil encontrar coisas simples. O medo é fácil perceber, então este seria um aspecto da vida que nos une numa dimensão grandiosa. As outras coisas da vida nos separam. O medo nos fortalece, enquanto seres sociais e políticos. Não digo o medo de bichos escrotos. Mas, o medo daquele que raciocina. O único deles: o próprio ser humano.
Não há qualquer descrença nos seres humanos quando se admite o medo. Ao contrário, só admitindo isto, que se pode pensar em união: a fuga da solidão! É assim que se ganha a batalha! É assim que se vive. Eis o nosso mistério: é possível condicionar a vida nas bases do medo? Perfeitamente que sim, afinal a vida é um mistério e uma aventura. As duas coisas significam qualquer ligação ao desconhecido. Assim, o sabor da vida é estabelecer o desconhecido. E isto dá medo! Mas, também dá um desejo, que é o fracassado que sempre vence a nossa razão.
Portanto, somos todos os derrotados pelos desejos. No entanto, assumir tal fracasso não pode ser traduzido como insensibilidade, ao contrário pode ser inclusive uma temeridade. E é impossível que um insensível seja feliz, mas é possível que ele se torne solitário num mundo gélido. Não fui eu quem escolheu viver neste mundo tão frio e muito menos solitário. Os desejos não nos deixam muitas opções, este é o seu lado dionísiaco, o mesmo deus do vinho, dos desejos e... das trevas.

Danilo Dornas é filósofo.

24.7.08

O Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo - revelações humanas sobre o monoteísmo.

Peregrinação à Meca (Hajj)

Eu penso que devemos compreender os conceitos comuns entre as principais religiões monoteístas do mundo – o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Para tal tentei resgatar alguns dos principais argumentos retirados dos livros sagrados e de documentos históricos e filosóficos sobre o assunto.
O livro sagrado dos mulçumanos possui a mesma tradicional ordem das demais religiões: de Adão a Maomé. Por isso, destacamos a aproximação entre Judeus, Cristãos e Mulçumanos sob o manto de um Deus único. O que difere o Islã das demais religiões pode ser explicado pela dificuldade da língua árabe ou a pela essência do Islamismo que destaca as diferenças das demais religiões monoteístas do que ressaltar o que há de comum entre elas. No entanto, o mais importante se destaca quando, apesar das incompreensões, o Islã não despreza jamais os profetas das outras religiões como: Noé, Abraão, José, Jacó, Moisés, Jesus. Certamente, o que difere os mulçumanos seria a crença na última revelação dada pelo sétimo profeta Maomé, que é inaceitável para os cristãos e para os judeus. O que para mim chama atenção no Islã é que ao mesmo tempo em que repelem judeus e cristãos, ele acolhe o Judaísmo e o Cristianismo. Para muitos uma contradição do texto do Alcorão, para mim é o que em religião poderíamos chamar de Mistério. Por que a repulsa chama mais atenção do que o acolhimento é algo que podemos debitar à nossa natureza humana.
Ainda assim, não podemos confundir o Islã como uma religião violenta. Apesar, da ênfase nas diferenças, os mulçumanos, em sua essência, não são violentos. A violência que por ora aparece na mídia é de responsabilidade de grupos minoritários que confundem certas passagens do Alcorão. Para demonstrar isto, devemos nos remeter à história do Islã. E, verificando a própria história do Islamismo nos deparamos com uma religião que foi criada de forma conturbada.
Porém, isto não difere o Islã das demais religiões monoteístas. Lembramos que o Catolicismo, em sua implantação, teve seis papas assassinados, 35 foram martirizados, quatro morreram no exílio, dois foram mortos em decorrência de ferimentos em motins, dois morreram na prisão e oito foram depostos. E ninguém pode negar que a mensagem original de Cristo foi a de amor ao próximo e a paz. A origem do Islamismo é semelhante. No entanto, a confusão em torno do Islã é que após sua criação, no século VI, o seu crescimento foi extraordinário colocando sob a tutela os judeus e os cristãos, que passaram a disputar territórios santos. E ninguém pode negar que este crescimento e esta disputa ocorreram pela espada. Ainda que, para os mulçumanos, a expansão pela espada não fazia sentido, uma vez que o Alcorão proíbe conversões forçadas. E se observarmos a história das outras religiões – judaísmo e cristianismo – também houve violência na expansão. Basta lembrar que a pena de morte está presente no Êxodo, Levítico e Números – que pertencem ao Pentateuco e os cristãos não descartam. Ao todo, são 15 os crimes punidos com a morte: adultério, sexo com animais, blasfêmia, falso testemunho, falsos profetas, idolatria, incesto, insubordinação às decisões dos juízes ou sacerdotes, estupro de mulher prometida em casamento, bater ou amaldiçoar pai ou mãe, não respeitar o sabat, feitiçaria e adivinhação, assassinato.
Entretanto, concluir que o judaísmo, o cristianismo e o islamismo são religiões violentas é uma leviandade. Nas três religiões, as situações de violência são decorrentes de momentos históricos específicos e eternizar estes momentos seria um erro exegético. Não há sequer um mandamento que mande alguém praticar violência, embora alguns grupos desejassem interpretar desta forma.
Então, se o Islã não é uma religião violenta, por que lhe são atribuídos atos terroristas? Osama Bin Laden, um herdeiro milionário, teria dito ao assumir os atentados de 11/09 que nós, ocidentais, pensamos na vida, enquanto eles pensam na morte. Bom, vejamos, há de fato terrorista entre os mulçumanos. São grupos pequenos, mas existem. E eles existem graças a um filósofo mulçumano do século XIII chamado Ibn Taymiyya e outro do século XVIII chamado Al-Wahhab que formam a base deste pensamento chamado salafi. A palavra árabe salafi significa os tempos pioneiros do Islã. Ou seja, são fundamentalistas mulçumanos, os mesmos responsáveis pelos atos de terrorismo, que desejam adorar apenas o Deus único. Acontece que tais fundamentalistas não querem intermediários para se chegar a Deus (inclusive limitam Maomé). Até aí são apenas fundamentalistas, normal em qualquer religião, e querem buscar os fundamentos da fé, que também é normal em qualquer religião. O problema passa a existir quando estes fundamentalistas se mostram totalitários. E esta passagem significa o desejo deles de forçar o mundo a uma conversão mundial. Daí, quando um grupo minoritário passa a entender que todos devem se converter e empregam a força, nasce o terrorismo.
Os objetivos dos terroristas é espalhar o jihad, que significa uma missão pessoal de buscar e conquistar a fé. Uma espécie de guerra santa, porém com aspectos altamente individuais. Os cinco objetivos da jihad são: Deus é o nosso objetivo, o Mensageiro é nosso exemplo, o Alcorão é a nossa Constituição, o jihad é o nosso método e o martírio é o nosso desejo. Tais objetivos são repetidos pela chamada Irmandade Mulçumana, que são grupos que influenciam pequenas células – Al Qaeda, inclusive, cujo significado é A Base – para livrar o mundo da jahilliyyah (a ignorância da humanidade antes que o Alcorão fosse revelado). Para este grupo o mundo que não conhece o Alcorão está num período de ignorância e por isso, merece a chance de converterem, se houver alguma resistência, devem ser combatidos. Portanto, o jihad é um mandamento de Deus para espalhar o Islã por toda a Terra e é isto que move um mulçumano que queira se tornar mártir – e não suicida – a se tornar um homem-bomba.
Portanto, qualquer semelhança que tentar impor ao Islã com atos terroristas não passa de uma leviandade. Isto ocorre, sobretudo, por causa da confusão e da incompreensão sobre a religião Islã. E mais, as religiões sempre têm pessoas que se sentem na obrigação de buscar os fundamentos da fé, o que é aceitável. Mas, neste fundamentalismo pode residir alguma vontade de impor, o que é inaceitável. A solução poderia ser a busca pela liberdade. Porém, isto soa de uma forma tão distante, sobretudo, se considerarmos os governos ditatoriais que ainda insistem em existir por ali. O futuro é incerto. Ainda mais quando grupos totalitários acreditam que falam com Deus.

Danilo Dornas é filósofo
Membro do Centro de Estudos em Filosofia Americana.
e-mail: danilodornas@uol.com.br

10.7.08

Sobre o suposto direito à Felicidade


Numa recente discussão sobre Filosofia de boteco alguém balbuciou que "o ser humano busca mesmo é ser feliz". Antes mesmo de tentar compreender o que esta frase tem de importância para a construção de uma filosofia tupiniquim, alguém dizia, do outro lado da mesa, que "a filosofia é a busca por motivos". A princípio, escutando essas duas sabedorias, simultaneamente, me senti num reduto que dali ou solucionaríamos, a partir das próximas palavras, os principais problemas do homem e do mundo ou seríamos mais um grupo de conspiradores e charlatães que, não encontrando mais o que fazer, ficaríamos ali discutindo questões metafísicas a la Hegel.
Ora, num boteco, a Filosofia pode ser entendida como uma simples busca por motivos. Aliás, num boteco muitas coisas são permitidas. Então, numa síntese e em meio à moda em falar sobre a Felicidade, que tal unirmos a conversa daquele boteco e conseguir o nosso Tratado sobre os Motivos da Felicidade dentro de um boteco.
No fundo, um filósofo mais perspicaz, diria que a pretensão é enorme. Concordo! Principalmente, porque a Felicidade, em muitos casos, é facilmente definida por dois dos principais verbos que existem em praticamente todos os idiomas do mundo, inclusive no bom português: o ser e o ter. Em solo tupiniquim, a regra de ouro da Felicidade, seria "a felicidade é o estado do sujeito que é e tem tudo para garantir o seu estado". Nesta rica definição brasileira, toda a fórmula para ser feliz é apenas completar as frases que se iniciam por "eu sou" e "eu tenho". Logo, se conseguir completar estas duas frases, ao mesmo tempo, se pode auferir a Felicidade.
Mas é só isso? Para uma conversa de boteco, não precisa mais que isso. Afinal, existem mais vodkas para serem tomadas, do que predisposição para continuar a referida reflexão metafísica. Não há muito que dizer quando a vida noturna já começa a dar sinal de angústia e sofrimento. Entretanto, o sofrimento da vida noturna é, sem dúvida, uma escola para quem deseja ser feliz apenas conjugando dois verbos na primeira pessoa do singular. É uma fórmula interessante para quem, realmente, acredita nos manuais de sobrevivência do século XXI ou nos encantos espirituais ao estilo do mago Paulo Coelho.
E, indiretamente, aí que está o problema. Compreender a Felicidade apenas conjugando o "ser" e o "ter", simultaneamente, é compreendê-la como uma simples alegria. Se a Filosofia de boteco fora antes definida como "busca de motivos", então por qual motivo, no Brasil, a alegria é axiologicamente sinônima de felicidade? Um psiquiatra talvez responda que é porque ser alegre produz substâncias químicas no cérebro que impedem a depressão, a tristeza e a falta de atenção no mundo. Mas, em Filosofia não é assim. Sobretudo a de boteco, pois o referido recinto é, justamente, onde existe fartas substâncias químicas e ficam atrás de um balcão esperando o tradicional comando ao garçom.
Que tal aprimorar a discussão e compreender que a Felicidade é uma via chamada vida, cuja busca constante se chama viver. Assim, podemos arrombar a porta da jaula que as definições nos impõe e, filosoficamente, extrapolar a Felicidade como uma missão, um projeto e uma vocação que seriam perseguidas com muito entusiasmo. Afinal, não é o entusiasmo que faz parte do espírito do brasileiro? O brasileiro não é o torcedor por excelência? Então, é só aplicar este entusiasmo na própria vida. Entretanto, o entusiasmo para viver significa, também, perceber que não há garantias de sucesso. Ou seja, as tristezas e as derrotas fazem parte do caminho rumo à Felicidade. O importante é não perder o entusiasmo.
Portanto, como disse Aristóteles, a felicidade é uma atividade da alma. Então, sugiro que a Felicidade seja uma ação em busca de uma meta. Compreendendo assim, concluímos que não há fórmula para ser feliz e que a Felicidade nunca será total, pois outras atitudes serão exigidas. Isto se quiser viver!
Danilo Dornas busca a felicidade.

26.4.08

A socialização do curso de Filosofia da UFSJ

Mafalda


Recentemente, acompanho alguns comentários de colegas do curso de Filosofia da própria Universidade que eu me formei e dediquei parte de minha vida, a Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Mas, logo me deparei com ataques verbais e pessoais, que em sua essência, não passam de reclamações sobre a insatisfação e o descontentamento com a relação pedagógica da referida faculdade. E eu, atrevido que sou, tentei interferir na discussão, porque percebi que as reclamações não são novas, pois elas já eram presentes desde o tempo que eu me ingressei lá, no ano de 1999. Acontece que a nossa diferença era que, mesmo com as reclamações, nós alunos daquela época encontramos uma fórmula para melhorar a situação. Tentei passar a fórmula, mas acho que eles já se encontram vencidos por uma situação caótica que chegou ao curso e se esforçaram em direcionar o ataque a mim, que não estou mais lá e nem tenho o que fazer a não ser usar a argumentação e o debate.
Quando ingressamos numa faculdade, possuímos uma ideologia; temos sonhos e desejamos mudar o mundo. Acredito que este seja o impulso de todo recém-universitário, sobretudo àqueles que se propõem aos cursos de humanidades. Ainda bem que é assim! Porém, ao longo dos semestres nossas desilusões vão ocorrendo, gradativamente, e é aí que está o desespero de muitos e o amparo de poucos estudantes. Os muitos se perdem e os poucos se encontram. Eis a diferença! Interessante, que entre os muitos se esforçam em procurar alvos para o ataque. E os poucos, quando não viram o próprio alvo, simplesmente se calam e deixam a caravana passar.
O primeiro alvo eleito a ser atacado é a crítica que se faz ao saber acadêmico. Bom, eis a minha primeira dúvida: ao entrar na faculdade, não seria uma vida acadêmica que todos deveriam buscar? Contradição ou não, a faculdade é lugar de “academicismo”! Caso contrário, não precisaríamos de Universidade, bastaria nos encontrar num boteco da esquina e balbuciar frases desconexas e sem sentido, permanecendo no mundo da ilusão e da opinião. Ou mesmo que haja alguma sabedoria numa conversa de boteco, ela não pode ser confundida com o que se faz na Universidade: ela pode até basear alguma coisa, mas nunca confundir com referências e compromissos históricos. A Academia é o instrumento universitário que impede a permanência na ilusão e isto foi descoberto há séculos. É a busca científica: é o caminho para o mundo inteligível ou da teoria. Esta é a diferença de uma conversa de boteco para um diálogo universitário. Aos universitários se espera o mínimo, a pesquisa, o discernimento e a sabedoria (sabedoria no sentido latim, de saborear) do conhecimento. Então, numa Universidade, o mínimo que esperamos são critérios, métodos e aplicação da teoria. Não quero entrar no mérito dos métodos, sei que este mérito é abordado por vários pensadores e são muitos diferentes entre si. Entretanto, o fundamental no processo é a identificação com o pensador e uma conexão entre as convicções pessoais, os argumentos apresentados e a teoria. Assim, não perdemos a dimensão do espírito universitário.
No entanto, partiremos, para um segundo alvo de ataque: “a irrelevância da pesquisa”. Ora, vejamos: um determinado aluno de Filosofia diz "que os professores fazem pesquisas irrelevantes e publicam em revistas que ninguém lê". Bom, vamos por partes: o que ele chama de irrelevante? Será que se não houver alguma conexão pessoal dele com os argumentos e a teoria abordada por algum professor, torna a pesquisa irrelevante? Ora, se ele não se interessa pela pesquisa, ele que não a leia. Este é o princípio básico para a sabedoria. Se lembra, que eu disse que sabedoria vem de saborear? Pois bem, saborear é eleger o que é doce e o que é amargo. Se for amargo, porque continuar saboreando? A segunda parte que me intriga é: "revista que ninguém lê". Bom, como assim? Partindo do básico, o sujeito que afirma isto tem que ser, no mínimo, onipresente. O que eu duvido! Além do mais, o significado de “publicação” é "tornar algo público", uma das formas é publicando em revistas. Ou seja, o que adianta pesquisar e guardar na gaveta? É assim que se constrói a dialética? Se há algo de errado com a pesquisa, não seria mais adequado ler, estudar e contrapor? Ou simplesmente, rotular de irrelevante, caso não haja a conexão entre convicção pessoal, os argumentos e a teoria?
Por outro lado, outra coisa me chamou a atenção na discussão. O ataque à Academia e a pesquisa se iniciam num momento que o sentimento de ambas as partes: professor e aluno andam abalados por questões burocráticas. O abalo, não me cabe explicar, pois a perda de um projeto foi o assunto muito comentado por ambos os lados. Então, se perdeu o entusiasmo em consolidar o curso e isso trouxe a desarmonia entre professor e aluno. A própria instituição, com a burocracia que lhe é inerente, se tornou frágil ao se revelar uma acolhedora para todos e qualquer pessoa que se tenha diploma e se diz “filósofo”. Há tempos venho percebendo que bastava qualquer pessoa se dizer "filósofa" que a instituição acolheria com louvores e honras. E aluno não é idiota. Com a pouca prática que tenho como professor de Filosofia já percebi que o aluno confia no professor até certo limite, depois, para seu próprio crescimento ele começa a exigir algo além, que muitas vezes o professor e a instituição não conseguem acompanhar. Isto é o famoso aluno superando professor e eu considero plenamente saudável, desde que não seja interferida pela instituição ou pelos cargos exercidos pelos próprios professores. Muitas vezes, a instituição serve para esconder o mau feito e dificultar as coisas com protocolos. A instituição é o mecanismo de “colocar a culpa no outro”. Ou de “guardar segredos”. Eis o princípio da corrupção, no sentido clássico de romper o que se diz e o que se faz. Para mim, professor não deveria ocupar cargos administrativos. Lugar de professor é na sala de aula, com os alunos. Enquanto professor ocupar cargo administrativo, o marasmo vai reinar nas Universidades, sem contar os acordos, a troca de favores e por aí vai...
A saída é simples: conviver. E isto não é tolerância e nem romper limites. É cada um discutindo o que deseja com o próximo para edificar um projeto. Como diz o filósofo: o homem é um animal político. Vamos entender o "político" nesta frase como "sociável". Não é disto que estamos precisando na faculdade neste momento? Um pouquinho de socialização? Se não houver tal socialização, não há como romper a atual crise e a atual troca de ataques pessoais. E socialização não exige fé, esperança, caridade e humildade. Ao contrário: o império romano só conseguiu se expandir com coragem, força, determinação e acima de tudo: vaidade. É este o meu conselho. Sejam vaidosos, mas não num sentido egoísta, mas num sentido de amor-próprio. Esta é a saída para recuperarmos o orgulho de um dia anunciar que nos formamos na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de São João del-Rei e fugir da burocracia institucional, sem agressões ou sentimentos de derrotas.
Danilo Dornas é formado em Filosofia pela UFSJ.

14.4.08

Uma dualidade entre convivência e tolerância


Eu gostaria de abordar sobre dois valores morais aqui: a convivência e a tolerância. Minha intenção é porque me sinto triste em ver que no Brasil a convivência é uma dádiva para poucos. Eu sinto tristeza, porque o brasileiro é um criador imbatível nas artes, nas ciências e pasmem, até no futebol. Mas, como eu disse, é sempre uma minoria. Certamente, alguém de plantão deveria investigar o porquê desta minoria, de uma forma diferente. Mas, por favor, sem Karl Marx, sem Pierre Bourdieu e similares. Não me venha com essa de economia, nem de capital cultural e fatos sociais. Estes assuntos são confusos até para os sociólogos e creio que eles estão ocupados demais tentando esclarecer estas coisas. Vamos falar de criatividade, certo?
O que ocorreu, nos últimos tempos, foi que os criadores brasileiros, simplesmente, não criaram. Ou, não tiveram a chance de criarem. Eles, definitivamente, não se instalaram e nem se integraram à nação, como esperaríamos que eles o fizessem. Na verdade, nos últimos anos, eles simplesmente se isolaram e foram aproveitar outras freguesias. E eu duvido que seja apenas pelo simples fato de ser lucrativo, mas penso que foi também pela falta de interesse dos brasileiros com suas criações. Assim, a nação brasileira não só permitiu como incentivou a saída de pessoas que faziam a diferença. Com isso, o Brasil se suicidou. Eu temo que uma nação não ressuscite ao terceiro dia. Talvez leve uma geração, algo em torno a 30 anos, que é tempo que julgam ser o de uma geração. Mas, se porventura a nação conseguir ressuscitar, como Cristo conseguiu, poderíamos falar primeiro de convivência, a introduzindo como uma integração social e revitalizante. Ah! Os cristãos devem se sentir orgulhosos agora, eles já fizeram isto antes quando as nações eram apenas diferenças culturais, e não delimitações geográficas! Afinal, Cristo, como conta a piada, até escolheu as mulheres para que a notícia de sua ressurreição se espalhe mais rápido. Por que nós brasileiros, não seguimos este caminho? Por que não falar aos artistas, cientistas e jogadores de futebol que queremos uma integração e uma revitalização de nossa nação?
A nação é o seio cultural de um povo. E o que falta à nossa nação é a convivência. Eu confesso que me sinto inquieto quando falo sobre isto. Ou estou completamente equivocado, ou isto serve para que outras nações também se convivam. Pode parecer absurdo, mas a nossa falta de convivência é aliada à nossa falta de perspectiva histórica e cultural. Estamos sempre no negativo quando o assunto se refere às humanidades. O resultado disto é o elevado número de brasileiros que não sabem de onde vêm e nem qual projeto escolher para seguir adiante. Tudo é mandado por alguma instituição fajuta, coordenadas por imbecis e que nos julgam imbecis. Eu gosto do Foucault quando ele diz que as instituições não passam de exercício do poder. Para falar a verdade, às vezes acho que é meio anarquista. Porém, por enquanto, um país, que não é nação, como o nosso precisa é de sentir na pele um pouquinho de anarquia.
E esta anarquia faz imperar a tal vida bovina sobre os brasileiros. E o boi não convive. Isto é para o ser-humano que têm objetivos. Quando eu assinalo a convivência como um projeto para renascer, me refiro à generosidade com a cultura. Não há criação e nem cultura se não houver ciência, talento, esforço e entusiasmo. Perceberam? Tudo isto é relativo ao homem e que o brasileiro desperdiça porque não aprendeu que somos uma herança do nosso passado. Tudo que está ao nosso redor foi herdado daqueles que nos antecederam. Em suma, meu raciocínio é o seguinte: num país, que não é nação, portanto não se interessa pela cultura que a fundamenta, não tem possibilidade para que haja a convivência.
Entretanto, ao invés de convivência, falamos demasiadamente, em tolerância. Como se fosse a maior virtude que uma nação pode conseguir construir para sua moralidade! Ora, tolerar é a mesma coisa que legalizar a arma de combate e corroborar com uma individualidade e a falta de convivência. Quando se diz, "eu tolero", queremos reconhecer a falta de talento, a preguiça e a incultura de outra pessoa. Como se pode conviver, mediante um sentimento de tolerância? Isto, concretamente, só pode atrapalhar a convivência. Portanto, a tolerância não poderia ser compreendida como virtude moral para uma nação, para mim ela deveria ser evitada ou entendida como algo vicioso.
Quando eu fiz aquela entrevista sobre a Felicidade, eu tinha a clareza de que não há fórmulas para ser feliz. Ser feliz é uma questão de consolidar um projeto vital. E agora eu completo que um projeto para a nação brasileira poderia ser a busca pela convivência. Esta convivência é uma questão de iniciativa. A convivência não se resigna à passividade e nem à tolerância. A convivência é uma decisão nacional em desejar ser, o que sente que teria de ser, e não o que lhe imponham, pela força, por artúcias ou por tolerância.
Danilo Dornas é filósofo.

3.4.08

Evite acidentes. Faça de propósito!


Minha mãe sempre se perguntou quem foi que eu puxei da família. Acredito que esta seja a dúvida mais metafísica que ela pode fazer em sua vida. Ela não cansa de se perguntar isto! Eu escuto isto desde que eu era criança e nunca entendi o motivo para tanta incomodação materna. As outras coisas da vida, para ela não têm tanta importância quanto a herança de minha personalidade. Sua vida de burocrata e funcionária pública federal lhe rendeu boas recompensas para se dedicar, agora, a Deus e isto fez com que ela tenha a resposta para todas as outras coisas do universo. Mas, Deus, ainda não lhe revelou de onde veio tamanha teimosia em seu filho e isto a irritava bastante.
A princípio, a dúvida da minha mãe não têm motivos aparentes. Eu sempre fiz coisas que todas as outras crianças de minha idade faziam na infância, sem resistências. Mas, com um detalhe: eu era péssimo em tudo! O cerol nas linhas que eu usava nas pipas sempre era os piores; eu nunca conseguia vencer um pique-esconde; eu nunca soube jogar bolinha de gude; no futebol de rua, quando me permitiam jogar, era sempre no gol; eu tinha os apelidos mais ridículos da escola; eu acredito que já fraturei todos os ossos dos membros. Enfim, não tinha nada de especial.
E para piorar, eu tinha que conviver com as queixas de minha mãe sobre minha teimosia. E era sempre a mesma ladainha. Tudo girava em torno da minha falta de talento para tudo. E o que a irritava era a minha insistência em não desistir. Mesmo sendo um fracassado, eu continuava até o fim. Mesmo que o fim fosse num hospital levando pontos na testa ou engessando alguma parte do corpo e sendo xingado por algum vizinho por causa da bola, skate e outras arruaças. As reclamações, estranhamente, sempre chegaram até a minha mãe.
Hoje, para consolar a minha mãe, eu tenho uma pequena explicação sobre a minha teimosia. Só espero que eu a convença. Por favor, torçam por mim! Ela costuma ler os textos aqui e os acha lindos. Coisas de mãe!
Um dia eu descobri um filósofo que disse que o "homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe". Então, na verdade, seguindo esta frase, explico a origem da minha teimosia. Uma possível explicação para a minha teimosia é a de que eu não dava atenção para as coisas que os outros diziam. Principalmente, nas coisas em que eu era ruim. Talvez, eu não dava atenção ao que os outros diziam, porque era a sociedade que me achava ruim. Não eu! Eu me achava o máximo diante a tantos desastres. Daí, veio a minha teimosia.
Eu descobri que a teimosia é um adjetivo que só se aplica ao ser-humano. Se não houver teimosia, tudo aquilo que os outros pensam sobre você, se torna verdade. Inclusive se eles passam a lhe rotular como fracassado! Eu, apenas não deixava isso acontecer, pois poderia ser um fracassado para os outros, mas não para mim. Desde cedo, percebi que a vida precisa de um pouco de subjetividade, senão os outros te comandam e impedem que você tenha a própria experiência e, assim, de seguir a própria vida.
Eis a explicação para tanta teimosia. A teimosia é um elemento de autoconfiança. E é exatamente isto que me motiva a continuar vivendo. Talvez, hoje eu agradeça tanto por ter sido tão teimoso e por não ter dado tanta atenção para que os outros falaram. Não posso me queixar! A minha vida é hoje a conseqüência de tanta teimosia. E, ainda hoje, minha mãe se queixa de minha teimosia. Outras pessoas também, não é Denise? Mas, mesmo assim continuo evitando acidentes e fazendo de propósito. Eis o lema de um teimoso!

Danilo Dornas é teimoso.

7.2.08

Razões para chorar

Mistérios da Vida e da Morte
Li nestes atigos de internet que a coisa mais maravilhosa que se descobriu na face da Terra foi a Vida. E a segunda coisa, evidentemente, foi a Morte. Grande descoberta! É possível que as descobertas tenham ocorrido quase que concomitantemente. Assim, diante das duas primeiras maravilhas eu só posso acrescentar que o significado da morte é de colocar um fim na vida. Então, todos nós já sabemos sobre o significado da morte e, assim, ela não possui mais nenhum mistério. Entretanto, o grande mistério ainda persiste em descobrir qual é o significado da vida.
Um dia, alguém disse que, viver é ir em direção à morte. Sendo assim, o indivíduo começa a morrer no primeiro dia que ele nasce. Acho que foram Jean Paul-Sartre e Martin Heidegger que falam sobre isso. E olha que ambos possuem um alto nível para afirmar estas coisas sem serem chamados de malucos. Mas, será assim mesmo? Será que a vida é apenas um intervalo entre dois períodos de não-existência? Vai brincando com este papo para ver onde é que você vai parar! Eu as vezes me rendo a esses papos cabeças. É divertido brincar de intelectual.
Eu só soube o que é morte quando perdi um amigo, que era disfarçado de primo. Foi neste instante da vida que percebi que a vida nos ensaia para sua ausência. Nós morremos quando perdemos alguém por perto, mas renascemos para seguirmos na vida. Construímos, movimentamos e reproduzimos. Isto tudo para, enfim, morrer.
A morte é, portanto, o fim de tudo. Até da alma, creio eu. Então, não há razão para chorar quando perdemos alguém. Deixe-o morrer! Descansar! Só podemos chorar pelos que ficam e por nós mesmos. Estes, talvez, são os motivos que temos para chorar! Não há outro. O mistério é somente a vida e não a morte. Talvez, com os choros pela vida é que conseguimos seguir vivendo.
Danilo Dornas é filósofo.

16.1.08

Vou ser feliz e já volto!

Ainda não havia essa tal máquina que automatiza todas as nossas idéias. Usávamos papel, giz de cera, caneta hidrocor e tinta. Pintávamos o sete. Criávamos com o próprio punho casinhas, gramas, árvores e o sol risonho em meio a traços coloridos. Às vezes usávamos cartolina, mas a maioria das vezes era papel em branco mesmo, sem medida A4. Não tínhamos papel colorido e nem corretivo. Não tínhamos tantas regras para criar, pois o ser humano primeiro cria para depois descobrir a necessidade.
As caixas de sapato eram muito bem usadas. Se cortar uma porta e uma janela e depois cobrir com papel colorido tínhamos uma casa sem telhado. O telhado era fácil conseguir. Bastava conseguir o papelão que enrola embalagens que ainda tem por aí. Não era tão comum o tal plástico bolha. O lado inverso do papelão têm umas saliências, igual a um telhado de verdade. Depois era só pintar de vermelho ou marrom.
Se repetir o procedimento várias vezes, temos uma cidadezinha. As ruas poderiam ser feitas com cartolinas, os postes com palitos, os carrinhos com caixas de fósforo e não cabe aqui a quantidade de sugestões simples para começar a brincar. Inclusive de política. Me lembro uma vez construir uma cidade assim com as casas da favela no centro da cidade e o centro da cidade nos arredores. Não era nenhum plano ideológico lá nos meus 4 anos de idade. Era apenas uma cidade invertida.
As pedras eram de papel, pintadas de cinza e amassadas até ficarem bem duras. As gramas eram de feltro verde e a gruta, feita com papel maché, era o oratório da cidade. Os bois nunca ficavam como eu queria e os burrinhos pareciam cachorros gigantes. Mas, tinha que ter animais. Eu não fazia muito questões das pessoas, mas quando tinha era sempre alguém que trabalhava e tinha família. E depois sobravam histórias! Brincávamos de todos os jeitos naquela cidadezinha de papel. O que mais gostávamos era de polícia e ladrão por causa das perseguições de carro que criávamos. Era o vrummm feito com a boca. Um dia incrementamos a brincadeira usando lanternas para parecer faróis acesos.
Não vou dizer aqui que eu era feliz naquela época. Não vou dizer que bons tempos eram aqueles. Não vou dizer tais coisas saudosistas, porque acredito que a felicidade sempre será plena se a infância for bem vivida. A humilhação e a miséria não podem ser ofertadas a qualquer ser humano. Se assim for, pode-se desistir de viver.
Danilo Dornas é filósofo.

22.9.07

Quanta gentileza!



Uma das grandes mentiras contadas pelos brasileiros é sobre sua própria gentileza. Na verdade, os brasileiros são os profissionais da grosseria. E esta grosseria é bem evidenciada em frases rotineiras que não passam nem perto de qualquer forma polida da boa educação, mas se ditas com certa entonação de voz ficam um tanto brandas ou até mesmo imperceptíveis. Acredito que tanta grosseria se deve à imaturidade cognitiva e a completa falta de bom senso que assolam a cultura brasileira. Porém, uma simples análise sobre suas entrelinhas, pode nos revelar grandes e maldosas intenções. Então, num tom de desabafo, vamos listar algumas destas grosserias que, disfarçadas de pura gentileza, são cometidas no dia-a-dia.

Um dia, eu liguei para o consultório do meu médico apenas para esclarecer a sua ilegível receita. Quem atendeu foi sua gentil secretária que, imagino, após escutar o meu desejo de falar com o doutor deve ter aberto um sorriso diante do fone e num tom de voz aveludada perguntou: “- Quem gostaria?” – Notem que ela me perguntou no condicional. Ou seja, ela disse nas entrelinhas que o doutor só estaria se eu fosse alguém realmente importante. Foi isso mesmo que eu entendi? BEM, o médico não me atendeu e deve ter feito algum gesto com a cabeça ao ouvir meu nome dito em voz alta pela secretária. Portanto, não é nada gentil ouvir – Quem gostaria? – num telefonema.

Já outro dia, eu entrei em uma loja para comprar uma simples borracha. Não escolhi muito, mas já havia notado que a vendedora estava impaciente. Quando finalizei a minha escolha ela, gentilmente, me indaga: - Só isso mesmo? - E eu retruquei: - Como só isso mesmo? Eu não comprei o suficiente para você? - Óbvio, ela esboçou um sorriso sem graça. Aquele típico sorriso de brasileiro quando se depara com situações embaraçosas. E ela tentou consertar dizendo: - Deseja mais alguma coisa? - e eu de forma atrevida disse: - sim, desejo sair contigo para ver a lua e deslumbrar uma noite romântica, que tal? - Claro que eu fiquei apenas no desejo, mas acho que fui bem mais gentil do que sua capacidade de atender as necessidades da clientela. Talvez, algumas palavras podem fazer diferença no atendimento ao cliente.

No entanto, minha maior decepção com grosserias veio de uma amiga, que um dia, sem ter alguma coisa significativa para dizer, ousou resmungar: - Gosto de você do jeito que você é! - Juro que fiquei magoado. Como assim gostar do jeito que eu sou? Então, é só isso? Você gosta de mim deste jeito mesmo? Jura que eu não tenho uma qualidadezinha sequer que seja importante para nossa amizade? Acredito que seria mais gentil saber se eu tenho um algo mais que diferencie em nossa amizade. A gentileza na amizade é observar as falhas e as qualidades do outro. Portanto, se você gosta de mim do jeito que eu sou, então, não deve haver muita amizade. Certo?

E há aquelas grosserias que ocorrem em eventos sociais. Como, por exemplo, quando presenciei em uma festa um sujeito chegar para o anfitrião e com um sorriso no rosto dizer: - Vim aqui só para te prestigiar. - Vamos pensar: quanta pretensão do sujeito, não é? Será que o sujeito está realmente convicto que a presença dele é mesmo a mais importante da festa? Quanta Gentileza!

Bom, seguiremos com nossa lista. Acho que todos nós já tomamos fora de alguém. E o considerado fora mais comum é: "Você é uma pessoa legal e vai achar alguém especial". Mas, vejam quanta contradição numa só frase! Quando se diz isto, se quer dizer que você é legal, mas não o bastante para ser um companheiro (a). Então, você, no fundo, é uma péssima pessoa. Podem se deprimir à vontade se escutar isso! E tem aquela clássica: "Seremos apenas bons amigos!" No fundo, isto quer dizer que não há menor possibilidade de ter sexo entre vocês. E tem aquela: "Deixa acontecer naturalmente". Ao falar em deixar acontecer naturalmente significa dizer que: "vamos ver se encontro alguém melhor que você neste período". Então, meu conselho é quando for dar um fora, em alguém, não tentem ser gentis, nunca dá certo.

Tudo que eu disse talvez seja uma nostalgia de bons modos que eu tive na infância. E um pouco de bom senso também. Contudo, eu digo que ser gentil é uma dádiva para poucos. É uma artimanha para fugir de clichês e cuidar bem das palavras. Às vezes estas pseudo-gentilezas são para puxar assunto ou, simplesmente, para preencher algum vazio da educação social. Mas, se for apenas para puxar assunto, sugiro falar de meteorologia, mesmo que de forma amadora. É mais simples, educado e gentil.

Danilo Dornas é brasileiro e tenta ser gentil
e-mail:
danilodornas@uol.com.br

18.9.07

Um editorial regado a inseticida

Entre idas e vindas já são 2 anos que assino a coluna Paidéia. O tempo passa rápido! Quando recebi a proposta da coluna, tinha uma clareza e evidência cartesiana que não iria tratar só de abobrinhas. O objetivo do espaço seria em abordar assuntos inquietantes. Que doce pretensão! Com pouca experiência, por livre espontânea pressão e minha incapacidade mental, o objetivo deste espaço se tornou uma diversão para pessoas quietinhas. Evidentemente que, às vezes, aparece um espírito inquietante e resolve repudiar, detonar e sacramentar os textos aqui escritos. E foram muitos os comentários recebidos. Desde os altamentes qualificados até os minimamentes desprezíveis e ambos respeitáveis. É uma sina manter algo dentro do entretenimento em meio ao excesso das informações do mundo contemporâneo. Porém, os textos aqui são narrativas. Apenas narrativas de entretenimento. Não são para serem levados a sério. São para colaborar com o ócio. São para divertir. Não desejo ser um cientista quando escrevo nesta coluna. Não confundam uma simples sagacidade com a rigidez, necessária, do espaço acadêmico. Aqui é apenas para ler, refletir, rir e esquecer. Existem coisas mais importantes num jornal que devem ser levadas mais a sério.
Quem convive comigo sabe que tento ser uma pessoa carinhosa. Confesso que reconhecer isto não é uma atitude modesta. Porém, tal reconhecimento deveria vir de fora para dentro. Aliás, acho que todas as qualidades e defeitos devem ser reconhecidos pela exterioridade. É um ato de sinceridade. Portanto, este reconhecimento na maioria das vezes se transforma numa fofoca. E eu não sou contra a fofoca, pois ela é externa e sincera. Mas explico que entendo por fofoca apenas um desabafo. O que não é algo condenável se observarmos que sempre precisamos nos desabafar. E eu fiz deste espaço um desabafo sobre o mundo. Eis um lugar que o ato de fofocar é permitido. Fofocaremos, então...
A Paidéia foi inspirado na arte lúdica que os gregos tinham para ensinar os seus jovens. Vamos falar dos gregos. Ou melhor, vamos fofocar sobre os gregos? Eles queriam a felicidade, como nós. Eles tinham a política, como nós. Eles usavam a razão, como nós. E eles tinham a Filosofia, como nós. E fofocavam, como nós. Não sei se é bom ou ruim, fofocar. A melhor fofoca é sempre sobre a vida alheia. Não falar da vida alheia é sintoma da chatice. O ato de fofocar é uma arte, um entretenimento. Então, a fofoca pode perfeitamente ser um instrumento para a nossa Paidéia, como simples atividade lúdica e sem o menor rigor científico. Portanto, aprendemos mais sobre com a fofoca do que qualquer pensamento abstrato.
Mas, mesmo assim, a fofoca, para ser boa, tem que obedecer duas regrinhas: a) não mexam com pessoas vivas, pois elas podem te processar e geralmente terão razão na justiça; b) usem a fofoca apenas sobre pessoas conhecidas e que fizeram algo excêntrico. Ou seja, a fofoca deve ser apenas ilustrativa e educativa. É como contar um mito ao estilo do filósofo grego Platão, que se refugiava neste método para explicar suas teorias sobre a inteligibilidade. Então, ao fofocar, aconselho usar os clássicos da ciência, da literatura, da filosofia e das artes.
Então, meus caros, peço licença para usar um autor que considero excepcional da literatura do século XX. Eu me refiro ao escritor Franz Kafka. E me divirto bastante com os burbúrios sobre a vida dele. Ah! Para quem não sabe, Kafka é o autor dos livros Metamorfose, O Processo, O Castelo e alguns contos que foram salvos. Os outros contos ele mesmo os queimou. Calma! Não o diagnosticaremos como um maluco. Afinal, o que é que tem demais queimar os próprios livros? Porém, o que mais me diverte em Kafka foi sua proeza em transformar, no livro Metamorfose, um inseto nojento numa celebridade literária.
Desde criança eu era impressionado com o Franz Kafka. Eu me lembro que comecei estranhando a grafia do nome dele (FRANZ KAFKA). Estranho! Depois, comecei estranhando com o modo que ele inicia seus livros, porque é sempre já um impacto na primeira frase. Por fim, o Kafka virou um personagem para mim e tentei compreender as suas angústias. Vi que este não era o caminho apropriado, porque absorvi algumas de suas angústias e minha cura foi demorada (se é que houve uma cura!). Então, pensei em entendê-lo com maior interesse depois que assumi o papel do inseto nojento.
O mundo ficou cada vez maior. E eu cada vez menor. Inicialmente, me senti como um mero mosaico de um desenho branco num quadrilátero ladrilho. Eu me tornei um inseto. Me vi estático, defronte ao ser humano, que movido pelo arrepio enrijece os músculos e com um objeto perfeitamente plano enquadra paralelamente ao meu frágil corpo. A morte não seria a solução, pois eu espirraria uma gosma branca o que faria jus ao meu título de nojento. Porém, em minha tecnológica aerodinâmica correria com maior facilidade até encontrar um fogão ou geladeira para me proteger do intrépido humano que, não sei porquê, mas vive me perseguindo. Assim, o impaciente não vai para cama sem ver meu corpo morto depositado numa lata de lixo. É uma dignidade para ele ver o meu tarso e metatarso com pequenos movimentos sombrios. Então, mesmo sem ter feito nada, a não ser simplesmente existir e ser nojento, Pá! Eis-me morto!
Nestes 2 anos de Paidéia vivi muitas destas situações. E morri também várias vezes. Eu confesso que, muitas vezes, tentei escrever com alguma proeza literária. Porém, nunca me encorajei tanto como agora. Eis porque escrever é excitante! Ao escrever somos envoltos pelo mundo gigantesco e nos situamos apenas num quadrilátero de palavras que tentamos exprimir nossa observação, nossa fofoca e nosso desabafo. Porém, o mundo é sempre maior que as palavras e as perseguições são sempre viáveis. Talvez, os problemas seriam todos solucionados se tivéssemos palavras suficientes para descrevê-los. Como é impossível, corremos para um abrigo, assim como um inseto nojento. Porém, ás vezes somos pegos por alguém que não permite sequer usar sua estreita cerca de palavras ao tamanho de um ladrilho. A coluna Paidéia é apenas a pontinha de um dos ladrilhos.
Danilo Dornas é colunista do Paidéia.

26.8.07

A degustação de livros


Eu sempre sonhei ter uma grande biblioteca. E assim estou vivendo, comprando os livros que posso. Tive de desenvolver métodos para controlar minha voracidade, porque o dinheiro e o tempo são desproporcionais à minha vontade de ler. Entrava na livraria, separava todos os livros que desejava comprar e, ao me aproximar do caixa, colocava-os sobre o balcão e me perguntava diante de cada um: “ Tenho necessidade imediata desse livro? Tenho outros, em casa, ainda não lidos? Posso esperar?” E assim ia pegando cada um deles e os devolvendo às prateleiras. A respeito desse método de controle cheguei a ter uma biblioteca significativa, mais do que suficiente para as minhas necessidades. Notei a mudança nas minhas preferências: passei a ter mais prazer na seção dos livros de metafísica nas livrarias. Os livros de política e de ciência a gente lê uma vez, fica sabendo e não tem necessidade de ler de novo. Com os livros de metafísica acontece diferente. Cada vez que os abrimos é um encantamento novo! Creio que meu amor pelos livros tem a ver com experiências infantis. Talvez que os psicanalistas interpretem esse amor como uma manifestação neurótica de regressão. Não me incomodo. Pois, em oposição à psicanálise que considera a infância como um período de imaturidade que deve ser ultrapassado para que nos tornemos adultos, eu, inspirado por teólogos e poetas, considero a maturidade como uma doença a ser curada. Ortega y Gasset, um filósofo inteligente e com senso de humor, definiu “maturidade”, essa qualidade tão valorizada, como “ um estado de mente que se acomodou e abandonou os sonhos selvagens de aventura e realização...” O fato é que comecei a mudar os meus gostos e chegou um momento em que, olhando para aquelas estantes cheias de livros, eu me perguntei: “Terei tempo de ler todos esses livros? Eu quero ler todos esses livros?” Não, nem tenho tempo e nem quero. Então, por que guardá-los? Resolvi dar os livros que eu não amava. Compreendi, então, que não se pode falar em amor pelos livros, em geral. Um homem que diz amar todas as mulheres na verdade não ama nenhuma. Nunca se apaixonará. O mesmo vale para os livros. Assim, fui aos meus livros com a pergunta: “Você me ama?” Há muitos livros que dão provas de que me odeiam. Outros me ignoram totalmente, nada querem de mim... “Vou querer ler você de novo?” Se as respostas eram negativas o livro era separado para ser dado. Uma biblioteca, sem esse refinamento de gosto, precipita-se sobre tudo o que é possível saber, na cega avidez de querer conhecer a qualquer preço; enquanto o pensar filosófico está sempre no rastro das coisas dignas de serem sabidas...” É o Martin Heidegger quem comenta que o "saber" é saborear e reconhecer as diferenças, mas o Ortega y Gasset ironicamente comenta que após saborear você corre o risco de mastigar e digerir tudo - de uma maneira extremamente bovina. O fato é que muitos estudantes são obrigados a ler à maneira bovina, mastigando e engolindo o que não desejam. Depois, é claro, vomitam tudo... Como eu já passei dessa fase, posso me entregar ao prazer de ler os livros à maneira canina. Nenhum cachorro abocanha a comida. Primeiro ele cheira. Se o nariz não disser “sim” ele não come. Faço o mesmo com os livros. Primeiro cheiro. O que procuro? O cheiro do escritor. Se não tem cheiro humano, não como. Ortega y Gasset também cheirava primeiro. Dizia só amar os livros que eram escritos com vitalidade, pois é ela quem identifica o nosso lado humano.

Danilo Dornas é membro do Centro de Estudos de Filosofia Americana

18.8.07

O grito dos intelectuais

O Grito
Edvard Munch (1863-1944)

Você já participou de um papo-cabeça? Para quem não sabe o que é um papo-cabeça, vou explicar: por papo-cabeça se entende a reunião de pessoas que se auto consideram perfeitamente capazes de emitir opiniões sobre qualquer assunto. E as opiniões utilizadas são severamente inspiradas em outras pessoas que de uma forma ou de outra se destacaram por algum feito prodigioso e, em alguns casos, até martirizados. Hoje em dia, não precisa se inspirar em muitas figuras. Um bom papo-cabeça tem que apresentar no mínimo o nome de Friedrich Nietzsche ou de Jean-Paul Sartre, de preferência regado a whiskey ou champagne safra de 1949. Um papo-cabeça mais modesto se restringe a citar Sigmund Freud, no mínimo 3 vezes, durante uma partida de baralho, principalmente durante um jogo de poker, regado a vodka ou rum. Já o papo-cabeça em sua versão light cabe em qualquer ambiente, inclusive durante a cachaça e o torresmo no buteco mais próximo e serve citar qualquer um que venha a ser reconhecido.

A receita do papo-cabeça é simples para todas as suas versões. Tudo o que se precisa saber é no mínimo daquilo que se quer discutir. Eu disse o mínimo! E também o mínimo daquele pensador que quer invocar. Eu disse, de novo, o mínimo! Sempre saber o mínimo dos dois, pois se souber muito de um ou de outro você se tornará um chato e não terá com quem conversar depois de 5 minutos. E papo, para ser cabeça, tem que durar mais de 1 hora. E não precisa de nenhum conhecimento histórico. Se alguém ousar colocar a história no meio da conversa, já não é mais papo-cabeça e sim, pesquisa científica. A outra coisa que precisa é ter alguém disposto a discordar de você. Mas não é aquele que discorda como princípio de investigação. É aquele que discorda, porque simplesmente é prazeroso discordar. O inimigo do papo-cabeça é a concordância sobre qualquer ponto discutido. Se houver concordância, não é papo-cabeça, é discurso ideológico. E tem também o pseudo-papo-cabeça que é a reunião com um doutor no meio cercado por pessoas que não fazem a menor idéia do que está sendo falado e nem discutido por todos os lados. Neste caso, temos uma palestra.

Os temas para o papo-cabeça são vários. Pode falar de tudo que não tenha conclusão alguma. Então, me perdoem, mas quando iniciei esta coluna eu não tinha a menor idéia do que iria escrever. Então, fiquei aqui conversando comigo mesmo, me perguntando sobre o que eu iria escrever. Daí, voilá! Melhor falar sobre os papos-cabeça. E já escutei papos-cabeça sobre tudo: aquecimento global, reforma política, economia e por aí vai. São bem interessantes todos os temas e, além disso, são todos cheios de opiniões. Já ouvi até chamarem o Saint-Exupéry para justificarem a legalização da maconha ou o jogador Garrincha para falar sobre alcoolismo.

Então, o que inspira os papos-cabeça são sempre intuições repentinas. É tudo uma fantasia da realidade. Quando queremos vestir a carapuça de intelectuais jogamos conversa boas ou ruins, mas o julgamento cabe ao espectador, que altamente aguçado e exercitado, deve rejeitar, selecionar e combinar os assuntos tratados. O espectador deve estar onde começam os papos-cabeça, para coletar o maior número de informações. Só depois ser criativo o bastante para conseguir aparecer. E todo grande aparecimento é seguido pela degeneração, sobretudo no campo das opiniões. Porém, os verdadeiros gênios das opiniões, os intelectuais, devem se manter em certos limites, para que pessoas cuja natureza é mais fraca também recebam ar e luz.

O que consiste em confusão é saber que ter opinião não significa conhecer alguma coisa. A opinião é o combustível dos papos-cabeça, porém ela jamais pode ser confundida com a verdade científica. Uma opinião é sempre subjetiva. É sempre parcial. Há opinião sempre que se quer implantar as próprias convicções, assim como num gesto de conquistar o poder e o controle sobre outrem. A opinião é necessária, mas pode ser entendida como uma erva daninha, principalmente se for considerada como uma verdade. Ela é objeto apenas de papos-cabeça.

Talvez este seja o problema dos intelectuais que ousam discutir sobre aquilo que não fazem a menor idéia. Mas, por serem intelectuais se sentem obrigados a não ficarem calados e falam qualquer bobagem ou qualquer asneira com boas bases filosóficas. Então, sejamos práticos e se não quisermos cairmos num papo-cabeça e disputar opiniões como um leão faminto disputando um pedaço de carne, deixemos nos permitir a dialética. O diálogo! E diálogo não é uma disputa de opiniões, mas uma permissão sobre a apresentação de outras perspectivas. Talvez esta seja a saída para deixar as opiniões e conseguir o mínimo de coerência com os problemas a serem enfrentados. Talvez esta seja a saída para que não seja banalizado assuntos sérios. Aliás, por tanta opinião um certo presidente francês nos acusou de não sermos sérios. O Brasil não é um país sério! E não mandei me levarem a sério!

Danilo Dornas é professor de Filosofia

28.7.07

A síndome da pedagogia do amor

É curioso como se inventa conceitos para situações adversas. Inclusive, muitas vezes para coisas que dificultam nossa compreensão. Tal compreensão que já apresenta alguma resistência para questões puramente abstratas, talvez causada pelo imediatismo e pelo excesso de informação, agora encontra como principal desafio as novas concepções messiânicas para salvar a educação. Não pretendo fazer nenhuma alusão aos meios acadêmicos e nem fazer nenhuma crítica aos estudiosos de plantão. Mas, algo me salta aos olhos quando aprecio as discussões sobre educação nesse país. E o que mais me angustia são as novas conclusões que ouço nas principais discussões acalouradas dos digníssimos profissionais da área.
Infelizmente, surgiu uma divisão entre os profissionais da área educacional que são: aqueles que gostam de coisas novas, aqueles que gostam de criar e aqueles que duvidam de tudo. Todos merecem respeito e aplausos pelo simples fato de se tornar professor. Porém, isto não significa que estão todos com a razão. Eu gostaria de começar este texto de uma forma mais agradável, mas não me foi possível, uma vez que vejo crescer uma coisa chamada pedagogia do amor. É uma criação! É coisa nova! Mas temos que duvidar disto. Portanto, alguém criou alguma coisa, a outra turma gostou da coisa nova e eu farei o papel de duvidar disto.
Eu sinto que isto tudo não passa de mais uma síndrome. Síndrome é uma palavra de origem grega para designar sintomas que não possuem quaisquer relação com alguma doença já reconhecida e catalogada pela medicina. A palavra síndrome foi utilizada, primeiramente, por médicos gregos com a finalidade de estudar alguma enfermidade nova. E o termo mereceu toda discussão sobre o uso restrito à medicina. Desde então, a medicina trabalha com este termo para cada nova anormalidade até surgir a conclusão e o possível tratamento. Portanto, falar de síndromes era falar apenas das hipóteses de algo estranho.
E a hipótese agora é conquistar o aluno afetivamente ou melhor a pedagogia agora está com a síndrome do amor. E o que define este amor, pela pedagogia do amor, é a liberdade, é a afeição, ou seja um carinho. Quando eu digo que estamos imaturos cognitivamente, me referia exatamente a isto. Alguém poderia me explicar o que é o amor? Ou o que é a liberdade? Ou o que é afeto? O filósofo grego Sócrates perguntava isto para os seus concidadãos e não se satisfazia com nenhuma resposta, porque as respostas que lhes eram fornecidas seriam advindas das aparências. E as aparências enganam! Então, como a vã filosofia socrática iria lidar com esta tal pedagogia do amor? Certamente, ele reagiria com sua peculiar ironia.
Aliás, sejamos mais práticos. O que é mais surpreendente na filosofia platônica é que ali há abstração, mas que surge com o mundo das aparências. O mundo inteligível não é desconectado do mundo sensível. Eis o básico de sua educação que alimentada pelo Eros deve aguçar a curiosidade do educando com um choque sobrecarregado de realidade aparente.
No entanto, retiraram o mundo sensível e o mundo inteligível e ficaram apenas com o Eros ou o Amor. Talvez, por não sentirem a necessidade de ter alunos questionadores. E a pedagogia do amor surge como algo místico que deve orientar seguidores e conquistar o estudante. Resolveremos os problemos educacionais com mais misticismo? O que me incomoda é que este misticismo é um modelo construído por uma instituição que, no momento, sem muitas almas para salvar tenta abraçar culturas que não lhe pertence com um discurso de paz e amor. E nesta instituição sobram valores para serem introduzidos como uma nova forma de domínio como a humildade, crença, esperança e caridade.
Tais valores execrados por vários filósofos por serem considerados vícios, novamente se transformam em virtudes a serem incentivadas. E a tal pedagogia do amor vai por esse caminho e já conta com cantadores desta estirpe para nos apregoar o que é melhor e passar a mão na cabeça do educando, pois o mundo lá fora é constituído por seres bonzinhos, solidários e que estarão dispostos a absolutamente tudo para a complacência. - Quanta inocência!
Esta é a nova síndrome da educação. Agora, os professores têm que se enquadrarem em rótulos para conseguir educar alguém. E o pior é que não há a percepção que valores éticos não se aprende como um passo de mágica, e sim devem serem exercitados por ser uma admissão pessoal. Não ao acaso que, entre os gregos, esta ciência foi chamada de ethos (ética) ou moradia. O caráter é nossa a moradia e ele tem que se manter livre de qualquer contato externo, inclusive de qualquer manifestação emotiva de um professor. O professor não possui o direito de invadir a moradia (ethos) de ninguém com discursos fascinantes e sedutores. O professor apenas cuida do caminho e das ruas para que o educando se conduza e tenha autonomia. O papel do professor é informar e formar o mundo externo de seu aluno, respeitando a sua individualidade e sua forma de agir. Por isto, vejo a tal pedagogia amorosa como uma doença a ser tratada e que este tratamento seja o mais rápido possível, antes que o amor vire obsessão e ocorra alguma fatalidade.

Danilo Dornas é professor.

25.7.07

Arrume seu quarto e salvará o mundo!

Los Politicos
Me lembro que uma vez, num almoço familiar e com apenas 8 anos de idade, soltei uma frase inesperada. Eu disse: - Quando eu crescer serei político! - E meu pai astuto logo me retrucou: - Você nem arruma o seu quarto! - e com essa ligeira frase ele interrompeu meus sonhos de salvar o mundo com uma caneta. Fui obediente e preferi continuar não arrumando o meu quarto.
O tempo foi passando, até que já aos 13 anos, na sétima série do Ensino Fundamental, estudamos no Capítulo 2 de Geografia: o Socialismo. E no dia seguinte da aula de Geografia, lancei a minha segunda frase de efeito no mesmo almoço familiar: - Pai, escrevi uma redação mostrando as vantagens do mundo socialista - E meu pai, de novo, interrompe meus sonhos de salvar o mundo com sua outra frase de efeito: - Filho fale qualquer bobagem, mas não as escreva! - Curiosamente, naquele mesmo ano, em 1991, ocorreu o fim da União Soviética e a derrocada do Socialismo. Era o fim da Guerra Fria. Aquele meu livro didático de Geografia, com 2 ou 3 páginas (apenas) sobre o socialismo já não era mais tão atual. A minha redação teórica já não tinha valor algum: era uma bobagem! Então, senti uma angústia existencial e num gesto inconsciente arranquei as páginas do livro de Geografia. Essa atitude me conferiu uma advertência por indisciplina e foi devidamente registrada na tal ficha do aluno e assinada pelos meus pais - Eu fui considerado um subversivo? - Eis a dúvida.
Bom, o muro caiu e com ele a minha moral na sala de aula. E também caiu o meu desejo de salvar o mundo com uma caneta e com uma teoria. Até que entrei em contato com campanha política. Fui trabalhar para um candidato a deputado federal. Fiquei 2 dias. Não admitia distribuir fotos, papéis sem proposta política impressa. Eu ficava me perguntando - O que este sujeito vai fazer se ganhar? - No entanto, as pessoas já sabiam que iriam ter uma carinha conhecida por lá. Era isso! O desejo simples de uma cara conhecida. Aliás, esse era o slogan de campanha: Cara nova! Eis a minha terceira decepção com a política.
Em 1994, o mundo foi salvo. Tínhamos um dinheiro de maior valor que o Dólar e o Brasil foi Tetracampeão. Eu comprei meu primeiro carro 1.6, um Del Rey a álcool, uma cor horrível. E nem tinha carteira! Deixei a política de lado e só queria dirigir meu carrão a álcool. Nessa época lia a Revista Veja nas aulas de História, adorava as frases improvisadas do FHC. Mas, estava feliz: namoradinhas aqui, festinhas ali e muito carnaval. Virei um brasileiro.
Em 1998, em plena ressaca sobre uma desvalorização do dinheiro, comecei a assistir a TV Senado. Não parei mais. Minha política agora era saber os nomes e projetos dos excelentíssimos representantes. Quando digo isto, sempre sou questionado se é verdade que eu assisto a TV Senado. Sim, é verdade! Eu assisto. E aconselho todos a assistirem. Acompanhei os principais escândalos e as principais manobras políticas. Tudo, ao vivo! E ainda dizem que o Brasil não é um país sério. Qual país mostra ao vivo o próprio parlamento? Eu desconheço...
Bom, politicagem, nem pensar. Só tive momentos ruins. Até que, um dia, entrei nela de gaiato. Claro, nos bastidores. Fui prestar consultoria e tudo que eu tive que fazer era aconselhar, ensinar retórica e argumentar. Eu me vi fazendo politicagem! Vencemos! Mas, me desiludia quando ia me deitar num quarto escuro. Foi então que me lembrei do velho conselho do meu pai: a política se faz pelo quarto! Tem ensinamento melhor que este? Não adianta, salvar o mundo, sem começar pelo próprio quarto. Uma atitude de organização, disciplina e honestidade, além de conscientização do espaço que se ocupa. Depois, após as disputas retóricas coloquei em prática o segundo ensinamento: O bom político é aquele que fala, mas não as escreve e o péssimo político é aquele que escreve, mas não fala. No fundo vence sempre as negociações políticas: uma concessão aqui, um apoio ali e pronto. E ao relatar essa experiência para meu pai, eis que ele ainda solta uma outra frase de efeito: - com amigos você discute onde vai ser a festa, com adversários você discute política - Daí concluí que, meu pai sempre foi o grande amigo e um grande político da minha vida. Nos almoços familiares é um amigo. Nas conversas políticas é um adversário. Mas, em ambos casos se privilegia a discussão. E ele me ensinou a ser professor, pois é o incentivador de discussões!
Quer tarefa política mais exemplar do que ser professor? Então, recebendo a missão de professor me confiro o direito de falar sobre política, livremente e honestamente. Não entrei para a política partidária, mas faço política no meu canto, adequando discussões sobre a própria política. Assim, fico satisfeito em participar da política arrumando meu quarto e incentivando mais pessoas a arrumarem também. Tudo isto, dedicado ao meu grande pai.
Danilo Dornas é filho do Geraldo Magela.

22.7.07

A Filosofia não é o ópio do povo

Reunião sobre Ensino de Filosofia
A gente só precisa saber algumas coisas básicas e obrigatórias: a leitura, a escrita, a tabuada e noções de tempo e espaço. O resto não é obrigatório. É apenas currículo! Ao montar o currículo temos que fazer a diferença. E para fazer um bom currículo é preciso ser, acima de tudo, perspicaz. Esta é a virtude essencial para quem quer obter qualquer sucesso na vida. O ato de estudar é coisa de escola, o que não significa que seja um imperativo para o sucesso ou o insucesso. O ensino já é algo mais complexo, porque depende das disciplinas obrigatórias e são determinadas por pessoas que podem não fazer a menor idéia do tempo e do espaço, arriscando transformar o ensino em ideologia. O currículo é formado pela educação, que foge de qualquer parâmetro, porque mexe com a relação entre o caráter individual e o mundo exterior e está em constante movimento. E só se consegue mediar esta relação através da perspicácia, porque através dela que se exercita o autoconhecimento e o amor próprio, que são fundamentais para a compreensão da dimensão dos problemas vivenciados.
Por perspicácia se entende a agudeza do espírito ou sagacidade que só mesmo num processo educacional pode conferir ao indivíduo. Por educação compreendo o tradicional "conduzir para", ou seja, receber alguém em determinada circunstância e fazê-lo migrar para outra circunstância, a fim de transformar a paisagem. Desta forma, em cada circunstância se tem uma paisagem que é o resultado do somatório de vários outros fatores na vida do educando, como por exemplo: o social, a moral, a política e o psicológico. Ao compreender a paisagem, o educando percebe suas deficiências e exige a criação de uma nova paisagem. Portanto, desta forma constrói suas paisagens e segue a linha da vida.
O processo de construção das paisagens ocorre pela desilusão. Assim, educação ocorre quando desiludimos de algo e, então, o processo cognitivo age com mais eficácia, porque fica mais desperto e atento ao mundo. Então, para desiludir é preciso saber as reais necessidades e os desafios da época histórica. E aí entra o professor. Ele é o agente que deve identificar a necessidade de cada aluno e, assim, conseguir apresentar novas paisagens para que os educandos saibam se adequar às suas deficiências. Ou seja, se aprende com a desilusão, com as necessidades e com a criação de uma nova paisagem que está sempre ensejando transformações.
Um instrumento interessante para as transformações é incentivando a leitura e a escrita. Tal é meu objetivo em sala de aula! Não há sequer outra fórmula educacional que me convença em substituir os livros e a oficina de textos. E sou ainda mais radical: sou adepto da leitura dos clássicos e da escrita objetiva. A leitura dos clássicos se compara ao beber água na fonte por ser mais pura, enriquece o vocabulário e nos coloca diante de vários problemas históricos, que podem serem relatados. E nisto é essencial o ensino de Filosofia nas escolas. Longe de ser pedante, a Filosofia só faz sentido se for com leitura e discussão. Senão for assim, corre-se o risco de virar um falatório propiciando uma banalização.
As conseqüências do filosofar é aguçar a sagacidade, despertar a ironia, confrontar com argumentos e construir indagações. É a ciência que ousa possuir uma linguagem universal e transita bem em qualquer outro conteúdo como física, química, matemática, biologia, literatura e letras. Não foi ao acaso que a Filosofia foi banida da ditadura militar e nem é o acaso que hoje é o conteúdo mais discutido por quem quer que seja. Não sejamos ingênuos, a Filosofia realmente cuida da perspicácia.
E, lembre-se que, ser perspicaz não é obrigatório. É uma decisão! Agora sim, se você chegou até aqui, entende o que quero dizer, certo? Até há pouco tempo, não se incentivava a perspicácia, porque era melhor o ensino de automação. Era isto que se exigia, antigamente, porque aliena e anestesia o sujeito para questões políticas e facilitava o controle por parte de quem possuía algum poder. Hoje, a automação não está mais "na moda", pois o homem se reduziu à máquina, quando não foi excluído por ela. Claro, que esta discussão é pertinente, uma vez que se exige do homem o fazer novas máquinas e desenvolver novas técnicas, pela criatividade. Mas, enquanto isto, fazer novas máquinas e novas técnicas demora algum tempo que ultrapassa qualquer expectativa de vida. Então, a solução foi mesmo encontrar no humanismo uma axiologia fundamental para o mundo. Eis a Filosofia, como uma tarefa de inclusão!
E o que tem a Filosofia para oferecer? Bom, há os que defendem que ela pode oferecer a discussão sobre a ética e o conhecimento. Estou entre estes que discutem temas pragmáticos. O conteúdo filosófico não pode ser complicado. E nem pode subestimar seus alunos. Sim, apostar na leitura, porque incentiva a perspicácia. E, o mais agradável é que a leitura pode ser também num filme, num site da internet, em jornais, em revistas e outros instrumentos.
O ensino de Filosofia tem também a missão de exercitar a liberdade, a autenticidade e a responsabilidade, pois ela não deve consistir num ópio do povo, mas um palco de provocação para a desilusão. A liberdade significa conseguir tomar as decisões sem interferências externas, talvez essa seja o conceito mais perseguido pelos filósofos. O ser autêntico é conseguir conciliar as necessidades com o mundo para se afirmar como alguém que reconhece as deficiências, mas precisa se firmar como humano. E, ser responsável, é assumir as conseqüências sociais provindas da liberdade e da autenticidade. Tudo muito prático!
Engraçado que eu já escrevi isto tudo, antes, num trabalho acadêmico. Agora, só dei um tom menos acadêmico e mais dinâmico e me perdoem se eu não consegui o mínimo de êxito. Entretanto, a Filosofia agora como exigência nos currículos escolares deve ser algo bem exercitado para o pensar e para argumentar. Desta forma, embora cativando o respeito pela diversidade cultural, se tenta investigar algo consensual para termos a universalidade dos conceitos. E o que vai determinar esta relação entre diversidade cultural e a universalidade é o currículo. O fazer currículo não é obrigatório, mas se não houver este compromisso filosófico não haverá quem faça a diferença e isto, engessa a criatividade. Então, fazer currículo é fazer Filosofia. E estudar Filosofia, hoje, é fazer a diferença.
PS. Fazer currículo, nesse texto, não é algo burocrático! É uma atitude pessoal.

Danilo Dornas é membro do Centro de Estudos em Filosofia Americana – CEFA
e-mail: danilodornas@uol.com.br

14.7.07

Um Prozac para Dom Quixote!


Já tomou seu Prozac hoje?
Slogan do comercial americano do Prozac

Aqui estou eu adiantando um artigo por motivos de mais uma viagem, movido pelo anti-depressivo mais conhecido do século XX: o Prozac, que como diz minha amiga Dânia: é um medicamento desnecessário, intrépido, fútil, barato, vicioso e genérico. É a melhor identificação da minha fase prozaquiana, pois é bem ao contrário dos demais medicamentos. Antes, eu confessava que eu era um "ser colonizado por lactobacilos vivos". Eu continuo assim, colonizado pelos mesmos lactobacilos vivos, mas agora com Prozac, que é a arma de um anti-herói.
Estou indignado em ter que viajar amanhã, ficar uma semana fora, sem gastar nenhum tostão e conhecer lugares gélidos e belos. Mas, entrei nisto de gaiato e também pelo cano. O motivo de minha viagem é discutir sobre os problemas educacionais em Filosofia com uma turminha meio barra pesada. Meu discurso na reunião já está intitulado e será: "Tomem Prozac!" Não há um discurso de Filosofia melhor que ensinar a tomar Prozac, porque o problema educacional independe de fórmulas, papéis, rubricas e carimbos. Isto apenas nos deprime! Só que, como um livro aí diz: mais Platão e menos Prozac, então eu fico logo ansioso para alguém bancar minhas passagens aéreas, meus hotéis, minhas comidas para falar da Filosofia. Só assim encontro motivos para montar argumentos que demonstrem como o mundo seria melhor sem ideologias e com criatividade.
Eu já disse, em outro texto, que meu personagem favorito se chama Ironia. E tudo começou quando li Miguel de Cervantes em sua fundamental obra Dom Quixote de La Mancha. Não leiam este livro, tomem Prozac, é melhor. Através desta aventura você fica sonhador, irreal, maluco.... "doido varrido", porque nosso herói ali pretende ser um modelo e faz como os racionalistas de plantão que querem nos convencer de que sua visão de mundo é a melhor de todas as outras porque foram descobertas em livros. Então, o livro de Cervantes, assim como o livro Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam ou na magistral obra Utopia, de Thomas More nos apresentam a quebra com fórmulas medievais. Os escritores renascentistas são assim!
O Prozac já assumiu o papel da renascença de nossos dias. Uma forma niilista de sair do racionalismo iluminista, de fórmulas, de estatísticas e até da rotina. Dom Quixote, se tomasse Prozac, não vestiria a armadura enferrujada que pertenceu a seu bisavô, não lutaria com moinhos de vento pensando que eram gigantes, não imaginaria uma princesa chamada Dulcinéia, não prometeria uma ilha ao seu amigo Sancho Pança, não confundiria um rebanho de carneiros com soldados inimigos, não libertaria criminosos pensando que eram escravos e nem confundiria um repolho com um anel enfeitiçado. Este é o heroísmo que ele aprendeu em livros de Cavalarias. Este é a mesma tarefa dos nossos profissionais que ousam falar de educação, se baseando em apenas livros. Um bando de quixotes.
E, assim, com toda Ironia, assumo o papel de Sancho Pança, o anti-herói. E anti-herói é aquele que quebra as regras, as fórmulas e a rotina. É aquele que se manifesta como um espectador do próximo capítulo de novela e da próxima solução milagrosa, do próximo projeto pedagógico, do próximo alguma coisa... Sancho Pança é o verdadeiro espectador, o verdadeiro filósofo, que ironiza as loucuras, as insanidades e apesar, de tentar alertar que o problema é sempre individual, sabe que não será escutado, pois é um servo. Mas, o segredo é que ele tomou Prozac e via a realidade, e não sonhava e não se deprimia.
Ele tomou Prozac para se libertar da depressão causada por atos heróicos de Quixote. A dose da realidade é o que um anti-herói precisa! E lá vou eu, como anti-herói, montado num burrico aéreo e me esforçando a não ser um modelo a não ser seguido, falar de educação e falar de ensino de filosofia. Lá vou eu, com o Prozac na necessaire, além do meu perfume Malbec, das coisas para fazer a barba, escova de dente e de alguns remédios para enxaqueca, que certamente terei! Assumirei o papel do Sancho Pança, o tomador de Prozac! Prometo relatar todas as conversas quixotescas que ouvirei por lá. Irei fazer a minha proposta, de doar caixas de Prozac para os professores enxergarem o desafio de frente, sem ilusões. Acredito que só assim conseguiremos assumir as falhas dos modelos educacionais vigentes, sem choradeiras e sem lamentações. Portanto, tomaremos Prozac: a dose da realidade!
PS. A automedicação é uma burrice!
Danilo Dornas não é mais deprimido.

10.7.07

Um conjunto radical chamado vida

"O sonho da razão produz monstros"
Francisco Goya y Lucientes

É fácil falar de nossa sociedade. É fácil falar de nossa pessoa (persona). O difícil é falar de nós mesmos, até porque não sabemos quem somos. E como falar daquilo que não se sabe? A dificuldade de nós, filósofos, é fazer a ciência de nós mesmos. O perseguido autoconhecimento, indicado por Sócrates. Com toda a riqueza contida na filosofia socrática, me atenho a esta missão: Quem somos? Seríamos um poço de racionalidade, uma consciência voadora, uma irracionalidade absoluta ou o inconsciente? Quem somos? Somos quem podemos ser? Ou somos quem podemos ter? Somos a nossa experiência? Ou somos a experiência alheia? Afinal, o eixo existencial a tal pergunta nos responde sobre o nosso fim: a morte. Assim, sobre o caminho entre o início da vida e o seu fim não sabemos muita coisa, a não ser que deste caminho não há garantia de sucesso.
Sou prático e evitarei exemplos, para não subjetivar demais. Não se trata de uma autobiografia o que colocarei aqui. Quem ousar interpretar este texto com pretensões psicológicas, filosóficas, fenomenológicas ou aquela lorota da filosofia clínica: serei irônico! Nem eles sabem o que falam, afirmo. Porém, uma coisa todos têm razão: não sabemos de nada! Doce descoberta de Sócrates. Oh Sócrates! Por que não seguiu os conselhos de seus amigos e fugiu? Você disse que não seria digno com as leis da cidade, eu sei, mas você foi egoísta demais ao guardar para si a fórmula do autoconhecimento. Sua ironia nos revela que você sabia tudo sobre esta fórmula. Platão, Aristóteles ficaram insatisfeitos em não saber sobre tal fórmula e tentaram personificá-la na ciência. Santo Agostinho e São Tomás de Aquino evocaram a Deus, porque também não sabiam qual era a fórmula certa. Deus, o mistério, talvez seja a melhor solução, mas não para mim. Deixei-o, faz tempo, desculpem! Também racionalistas, empiristas, criticistas, idealistas, iluministas, positivistas, istas, istas e mais istas fizeram de tudo para o autoconhecimento, porém nada para mim, pois apenas levantaram métodos para distinguir os problemas sociais, políticos, morais e até mesmo existenciais. É rico, genial, porém são legisladores do caráter, mas não do "quem sou".
Um deles, quando ousou falar do autoconhecimento, morreu louco e roubado pela própria irmã. O outro ficou triste e até adotou um cachorro. Ah! E teve aquele que começou a dizer que a proximidade do autoconhecimento é que somos apenas um fantoche, uma marionete nas mãos das instituições. Ele foi mais sincero e, depois, pegou a doença do ismo e se tornou um ista. Não somos autênticos e quando o somos, nos isolamos. Eis o preço de tentar a tarefa iniciada por Sócrates. Todos se tornam céticos!
Nos esforçamos em ser personagens (pessoas, personas). Esforçamos em sermos sociais. Entretanto, evitamos sermos quem somos. Falamos com clareza dos personagens. Falamos com clareza dos sociais. Falamos! Mas não falamos de nós mesmos. Desta tarefa, temos medo! O pior dos medos. O medo de nós mesmos que aparece nas autocríticas que são sempre limitadas pela vaidade. Logo, somos medrosos e vaidosos.
Então, somos a negação? Algo de ruim. A imagem divina que se coloca ao contrário do próprio Deus: Ele diz isto: "o homem é a imagem e semelhança". Então, somos mesmos o oposto, o contrário?. A física responde: imagem e semelhança é sempre o inverso do real. E se Deus é o bom, nos sobra sermos o inverso: os maus, os escrotos, os impostores, os ruins e ervas daninhas. Ah, o Diabo é mais sincero, ele é mau e nunca falou que era bom. Nós somos piores, calçamos a máscara da bondade, uma persona. Uma personagem é o que assumimos na sociedade.
Disso tudo concluo que apenas vivemos. Somos a vida que não despreza nem personagens, nem sociedade e nem o eu. Somos tudo isto ao mesmo tempo! Assim, sigamos sem ismos. Adeus única versão sobre quem somos. Adeus Razão! Adeus Deus! Adeus Consciência! Adeus Irracionalidade! Adeus Inconsciência! Agora, sou vida. A soma de todos vocês ao mesmo tempo num único eu. Ironia será o nome da minha personagem. Ceticismo do meu vínculo social. E o medo, será o eu. Agora sim, sou eu sou! Eis a fórmula do ser radical. Escolha com quem você quer falar, como num telefonema! Sayonara.

Danilo Dornas é um ser circunstacial.

22.6.07

Deixa eu falar...


Depois de ler a notícia que um anão vestido de palhaço mata oito pessoas, após contabilizar junto com os matemáticos da Universidade de Michigan que descobriram o número primo com nove milhões de dígitos, parabenizar os astronômos que descobriram a estrela mais gorda do universo, me solidarizar com o jovem que foi atingido com uma jaca na cabeça ao procurar emprego e rir do rinoceronte míope e ninfomaníaco que tentou fazer sexo com um carro de uma família inglesa. Me pergunto, onde estão as notícias que são notícias?
Todas as notícias acima são verdadeiras e saíram em vários jornais. Porém, o que me espanta não é o conteúdo das notícias (as manchetes já falam por si), mas com a atenção dos jornalistas pela falta de notícia. É isso mesmo, aquela velha discussão filosófica e física sobre o "nada" foi desvendada pelos jornalistas: "nada é tudo aquilo que é alguma coisa, mas não é nada". Acham estranho? Recebi esta definição de um amigo jornalista que deseja se especializar em sensacionalismo e que, segundo ele, rende muito dinheiro no Brasil porque o público se interessa muito mais por crimes, futebol e o absolutamente nada, como nos exemplos acima ou em coisas um pouco mais sérias como por exemplo: teria sido mesmo a Luana Piovani inspirado Caetano Veloso a escrever a música "Um Sonho"? Qual foi a nova confusão de Daniella Cicarelli? Ou questões ainda mais metafísicas como: por que Gisele Bündchen não gosta de homens britânicos?
Eu gostaria que meu amigo, futuro sensacionalista, estivesse errado. Mas, acho que ele não está, para nossa infelicidade. Então, comecei a investigar o conceito de "notícia". Pelo que entendi, "notícia" é uma informação a respeito de um acontecimento novo, de mudanças recentes em alguma situação ou de estado que algo se encontrava. Vejo que esta definição não se encaixa em nenhuma das notícias acima, pois nada modifica na vida social com as manchetes citadas. Mas, isto não significa que elas não podem serem vinculadas, divulgadas e panfletadas. E muito menos, que não sejam lidas, pois onde têm letras servem para serem lidas.
Mas, algo me chama a atenção. Quando eu disse que a democracia está em seus graus de enfermidade, em outro texto, eu me referia a exatamente isto: a liberdade de expressão. Liberdade é um grau de independência legítima que uma sociedade elege como um ideal. Expressão é a manifestação do pensamento por meio da palavra ou de gesto. Assim, liberdade seria uma independência dentro de uma sociedade e expressão é manifestar esta independência. Logo, liberdade de expressão significa manifestar socialmente, com independência, a própria legitimidade. O filósofo François-Marie Arouet (1694-1778), conhecido como Voltaire, certa vez escreveu que se pode até não concordar com nenhuma das palavras que alguém diz, mas que defende até a morte o direito deste alguém dizê-las. Eis, a manifestação de defesa da liberdade de expressão naquele período históricamente conhecido como Iluminismo.
Existem formas para acabar com a liberdade de expressão. A primeira delas é fruto do rigor científico que são representadas em gráficos, números e estatísticas. Esta é a forma mais comum de provar que você não pode discordar, pois o número é sinônimo de verdade absoluta (doce ilusão). A segunda delas, é aquela de "intelectualóide enganjado" que diz que se deve conhecer algo a fundo para depois criticar, se quiser merecer respeito intelectual. Ora, para mim, basta conhecer os princípios de algo, se eles já são contraditórios, para que vou querer conhecer este algo a fundo? A última é de ordem moral que defende a idéia que "eu estou certo e você está errado", esta última é a síndrome do autoritarismo.
O meu conterrâneo, presidente-eleito Tancredo Neves (1910-1985), justificava a liberdade de expressão como um ideal científico que valorizava o indivíduo e a liberdade tal como na era moderna, período o qual tais questões foram amplamente discutidas por filósofos. No entanto, Tancredo Neves justificava que tais valores não poderiam ofuscar a religiosidade (a católica). Sim, isto soa uma espécie de liberalismo católico, que é difícil de engolir. Tancredo está enterrado num cemitério católico, que não enterrava negros, mas já enterrou um cachorro.
Porém, na constituição de 1988, esta idéia de Tancredo passou pelos excelentíssimos políticos constituintes que elaboraram leis que garantiriam a liberdade individual, inclusive a de expressão artística, científica e cultural. Se não fosse esta lei, não teríamos uma marca nesta constituição, pois se tratava de um dos elementos fundamentais da saída à repressão. Então, o indivíduo é livre. E por ser indivíduo se deve entender responsável de sua vida e de sua sociedade. Ele não pertence às massas sociais, e sim é um ser humano que pensa e se manifesta da maneira que lhe convir. Não deseja seguir exemplos e toma decisões sobre os rumos de sua vida. Isto é democracia!
Qualquer outra coisa que contradiz esta tese, é censura. Encher textos com números e construir argumentos de probabilidades, é censura. Exigir que a outra pessoa leia o que você quer que ela leia, é censura. Dizer o que é bom para outra pessoa, é censura. Em todos casos, há o veto da decisão. E quando isto acontece, adeus liberdade de expressão.
Não estou com a pretensão de criticar a classe do jornalismo. Eu não faria isto, nem por brincadeira. Ao contrário, como filósofo, o meu trabalho é avaliar as tendências do jornalismo. E o que vejo é a montagem de um esquema típico, por parte do Estado, em limitar as ações dos próprios jornalistas e, conseqüentemente, as informações. Este esquema é o de identificar no Estado uma soberania perante o indivíduo. O que na verdade, deveria ser ao contrário. O indivíduo é que deve ser soberano ao seu Estado e se manifestar de forma livre, legítima e independente.
Entretanto, a doença já se espalha! Começamos com o classificatório etário nos programas, agora já temos conselheiros, nomeados pelo ministro da justiça, que sabem o que deve ou não ser apresentados. Existe uma turminha do abafa o caso aqui, abafa o caso ali e notícia sobre corrupção nem pensar. Falar de empreiteiras? Falar da família do presidente e seus caça níqueis? Falar dos contratos fraudulentos e do balcão de negócios sujos? Ah, isto tudo é invenção dos jornalistas. Na verdade, a ordem (governamental) é vamos desqualificar os jornalistas, pois são todos adeptos ao golpe. E eu pergunto: que golpe? As lambanças são feitas pelos próprios que estão comando. Pobre jornalistas agora terão que se contentar com notícias efêmeras!
Em breve, na primeira página de um jornal surgirão tais notícias como a do anão assassino vestido de palhaço, o gingatesco número primo, a estrela gorda, o desempregado e a jaca voadora e o rinoceronte míope e ninfomaníaco. Até que desta vez será mais engraçado e criativo do que receita de bolo ou previsão do tempo. Não perderemos o bom humor, por enquanto! Afinal, ainda tenho uma dúvida, teria o rinoceronte tarado sentido alguma atração sexual pelo escapamento do automóvel?
Danilo Dornas é filósofo.

14.6.07

A autocrítica nos contos de fadas


Quem não se lembra ou já ouviu falar do cacique Juruna? Um indígena da tribo Xavante, situada no Estado do Mato Grosso e que ficou mundialmente conhecido por representar o Brasil no Quarto Tribunal Bertrand Russell, realizado na Holanda, em 1980 e também foi deputado federal pelo PDT entre 1983-1987. A sua excentricidade era andar com um gravador em punho registrando as falas dos políticos, seja na tribuna, corredores e em confidências. Segundo ele, aquele gravador revelaria mentiras, falcatruas e negociações políticas republicanas e não-republicanas. Juruna faleceu em 2002, com 58 anos, e deixou saudades em suas declarações polêmicas e em suas defesas a favor dos índios.
Juruna era excêntrico e pitoresco. E esta excentricidade deixou herdeiros, principalmente alguns que não sabem o que é "deputado", mas sabem chamar a atenção. Um deles, da atual legislatura, é Clodovil (PTC-SP). Clodovil veio do entretenimento. Venceu muito bem as últimas eleições e sua marca é o que ele acha ser sincero. Suas falas são sempre polêmicas: até mesmo quando ele dá bom dia. Já fez coisas ao seu estilo na câmara: decorou seu gabinete com uma cobra naja que assenta sua mesa de vidro e recebeu o nome de "Marta", contratou segurança na porta para evitar assédio dos fãs, disse que não tem projeto mas sabe avaliar se a lei é "boa" e chamou a deputada Cida Diogo (PT-RJ) de feia, após falar que "as mulheres trabalham deitadas e descansam em pé". Até suas viagens cotidianas causam polêmicas. Ele mesmo já pensa em processar uma empresa aérea após ser solicitado, pelo comandante, em trocar de lugar com um outro passageiro. Neste episódio, Clodovil foi ouvido na polícia federal que era velho e precisava de respeito, após liberado embarcou em outra empresa aérea, mas exigiu que a empresa anterior lhe emprestasse um jatinho particular como indenização. Claro, a exigência foi negada pela empresa, que não tinha nenhum parecer jurídico sobre a situação.
Além do Clodovil, temos o "cãozinho dos teclados", Frank Aguiar (PTB-SP), que também foi eleito para deputado federAAAUUU!!!! (seu slogan de campanha). O deputado Frank Aguiar promete "olhar para a educação e para cultura". Ele não quer o rótulo de exótico, disse que se preparou para a legislatura (concluiu o curso de Direito) e vai conseguir consciliar bem a vida artística e a vida política. Prometeu ser assíduo no Congresso ao menos para gritar AAAUUU, quando ver o mensalão. Sem contar ainda com um tal deputado Mão Branca (PV-BA) que chegou pedir ao Supremo Tribunal Federal o direito de usar um chapéu de couro ao estilo sertanejo na Câmara e quando sobe à tribuna grita, grita e ninguém ouve.
Não só as figuras do parlamento, mas também alguns dos projetos bem curiosos já foram confeccionados, apresentados e esperam votação como por exemplo: a proibição que bichos de estimação recebam nomes de gente; a eliminação do uso da crase; obrigação que pilotos falem toda a verdade sobre extraterrestres; distribuição de Viagras para impotentes e por aí vai. Isto para falar só os que tramitam na Câmara Federal, porque no Senado não é tão diferente como a tal lei Rouanet, que destina verbas da cultura para templos e aquele que diz que o pescador deve trabalhar com barcos fabricados após 2002.
Agora a pergunta: precisamos de uma Reforma Política?
Bom, o que a discussão sobre lista fechada e lista aberta, sobre voto distrital, contribuição pública ou privada de campanha, a filiação partidária e cláusula de barreira faria diferença a estas coisas? Em nada. A discussão deveria seguir, primeiramente, pelo conceito de democracia adotado no Brasil. Ao ler a obra Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, alguma coisa nos esclarece sobre esta discussão. Esta obra apresenta um fidalgo D. Quixote, que cansado de ler romances de cavalarias, procura escrever a sua própria aventura. Como? Ele mesmo se lança ao mundo e espera adquirir dele a experiência necessária! Assim, ele se empreende numa aventura e procura enxergar o mundo tal como ele desejasse. E ele viaja e "viaja". Vive num mundo inteiramente seu e acredita num reino fantasioso. Seu fiel e escudeiro Sancho Pança que, mais realista, procura alertá-lo a todo instante sobre suas fantasias e orientá-lo, mas sua condição de "servo" não faz dele alguém capaz de aconselhar. O efeito é sempre humorístico.
Assim vejo a política brasileira. Um monte de Quixotes e sempre poucos Sanchos Pança. Não só entre os eleitos, mas também entre os eleitores. É mais fácil ser Dom Quixote, basta imaginar e ter audácia. Duas categorias que fogem da razão. Já para Sancho Pança, embora mais simples e com seu burrico, é sempre uma tarefa mais difícil: aquele de ver o mundo como de fato é. Entender a verdade! Nobre Sancho Pança! A ele ficou a missão de desvelar a verdade e esperar que Dom Quixote faça um pouco de autocrítica. É tudo que ele espera com extrema paciência e bom humor!
E é o que a democracia espera também. A autocrítica! Não há democracia se não houver autocrítica. E autocrítica significa verificar os erros, para não fazê-los mais. A autocrítica é um exercício da razão e é primordial para a ciência e para qualquer profissional. Assim, ensinou Sócrates. Assim, esperou Sancho Pança. Assim, espera os democratas que entende o homem como valor, e não como vontade da maioria. Esta é a diferença do termo democracia nos dias de hoje. Curiosamente, explicar a democracia como vontade da maioria é também uma ditadura da maioria. Mera contradição! Eis a política da América Latina.
Então, sigamos o bom exemplo deixado por aqueles que tentam compreender os problemas, e não nos deixemos nos levar por aqueles que já compreendem os problemas. A diferença é que no primeiro caso há sempre o cuidado da autocrítica, já no segundo não há este cuidado. Não havendo este cuidado, sobra o autoritarismo, mascarando nossa realidade de pseudo-democracia. A pseudo-democracia é a desculpa para estabelecer um projeto de poder. Uma estratégia de mentir, de iludir e fantasiar com medidas imediatistas e populistas. Este é o problema da falta de autocrítica: a certeza que está certo! Ao possuir esta certeza não resta mais nada, só mesmo o desejo de dominar o mundo, de forma messiânica e fanática. Tais são os perigos da falta de autocrítica. Tal é o risco da nossa democracia que já começa a dar sinal de enfermidade.
Danilo Dornas é filósofo e democrata.

11.6.07

O asteróide Pallas e a campanha publicitária

Pallas-Athená, deus(a) mitologia grega
A semana começou bem. Eu praticamente sem sono, às 3h da manhã, resolvo ir para internet. Então, me deparo com a notícia que o mundo não será mais o mesmo após a segunda quinzena de julho, 2007. A causa seria o choque de um asteróide descoberto por William Olbers, em 1802, e chamado de Pallas.
Pallas é um nome unissex. Há dúvidas sobre isto porque tanto existe um deus Pallas como também a própria Athená também recebe este nome nos textos mitológicos. No entanto, em suma, seu significado masculino indica que é filho de Gaia (Terra) e gera filhos poderosos como Kratos (Poder), Bia (Violência) e a Niké (Vitória). O seu lado feminino é a própria Diké ou justiça.
O astrônomo que descobriu este asteróide parece que escolheu bem o nome. O asteróide não é mitológico. Há mesmo um que recebeu o nome de Pallas que se situa no cinturão entre Marte e Júpiter e é considerado o segundo maior asteróide já descoberto. Este asteróide, segundo o noticiário de cientistas amadores, saiu da rota e vem em direção a terra, com chances de colisão, mas as autoridades se calaram para não haver um pânico global. Calma, não pretendo dar um tom profético ao texto. Apenas, considerar que isto seria mesmo um momento oportuno para pensarmos em nossos últimos dias. Mas, não. Eu lhes convido para pensar nas crenças. Nunca acreditei em mundanças vindas do céu e sempre mantive as minhas crenças terrenas. Não sou ingênuo em acreditar em notícias vinculados na internet, ainda mais quando a fonte desta notícia é de um site especializado em publicidade da fábrica de automóveis da marca francesa Citroën.
Segundo a notícia, o mundo poderá ter o mapa alterado nos próximos meses. Uma coisa um tanto interessante e curioso para nós, filósofos. Entretanto, com a astronomia eu já me decepcionei com a passagem do cometa Halley, em 1985. Não vi nada! Depois, com a espera de outros asteróides que passariam pela Terra ou mesmo com eventuais proximidades a outros objetos interestrelares, também me decepcionei. Eu fiquei mesmo com as notícias normais: eclipses, descoberta de supernovas e por aí vai. Mas, me senti privilegiado por ver a virada do milênio de 1000 para 2000. Isto é, se considerarmos o calendário romano. Com certeza, foi a maior glória que um leigo em astronomia poderia sentir. Ou isto é astrologia? Sei lá, é tudo uma questão de crença. Nem Copérnico, nem Galileu Galilei, nem Isaac Newton tiveram esta chance de ver a virada do milênio e acredito que morreram frustrados por não verem a troca do algarismo 1 pelo 2, na casa do milhar.
Não conseguimos nos libertar totalmente das crenças. Para Platão, filósofo grego, as crenças é um enunciado que acreditamos nele e por isso, então é a parte subjetiva do conhecimento. A ela emitimos apenas opiniões porque são recolhidas apenas das aparências. Ela possui dois valores: ou é verdadeira ou é falsa. Para se opor a este conhecimento subjetivo (e as opiniões), o mesmo Platão nos aconselha a "sair da caverna" ou buscar o conhecimento objetivo, a epistemologia, que seria a linguagem universal, a científica, aquela saboreia a vida com investigação. Para Ortega y Gasset, a crença é o fundamento, o alicerce para instaurar um projeto avaliando o que nos rodeia, as nossas circunstâncias. Mas, sair das circunstâncias é contribuir para uma vida autêntica, uma vida saborosa e cheia de aventuras. E este abandono de circunstâncias é a nossa realidade radical, pois consiste no viver.
O nome do asteróide parece conter exatamente alguns dos significados vitais que o homem aprendeu a banalizar: poder, violência, vitória e a justiça. A vida humana desprezou a terra e o meio ambiente, desejou o poder e conseguiu o manter com violência. E por fim, a Niké e a Diké parecem vir dos céus, embutido num asteróide desgovernado com o firme propósito de aniquilar nosso egocentrismo. Tomara que os cientistas amadores, como diz a notícia, seja um daqueles estudantes de panfletagem. E estou certo! Os cientistas em questão são publicitários da Citroën, sobre o novo carro Pallas. A publicidade agora está em catástrofes! Claro, não restou muito que chame atenção para os publicitários nos últimos tempos, em meio a tanta informação. Me parece assaz oportuno lembrar que algo assim já aconteceu na sociedade americana, em 1938, quando no Dia das Bruxas, o locutor da Rádio Mercury, Orson Welles, narrou a invasão de alienígenas, conforme a narrativa de ficção-científica do livro Guerra dos Mundos, de Herbert George Wells. No entanto, este livro serviu para atentar a sociedade americana sobre os rumos da política e os avanços científicos da época. Naquela ocasião era um alerta! Agora, é só publicidade. Ou seja, o objetivo de divulgar uma suposta colisão de um asteróide com a terra é o de tornar público um automóvel chamado Pallas. No entanto, em meia a tanta publicidade, a morte da humanidade seria algo que realmente chame atenção, talvez seja isto que pensaram os publicitários da marca Citroën.
Para nós filósofos, nos resta a ironia. A própria natureza nos mostrando o quanto somos idiotas ao falar tanto de ética e, muitas vezes, jogar a natureza em segundo plano. Acreditar em algo é também algo natural e não devemos desprezar, porém sair das crenças é uma atitude filosófica. Conforme Ortega y Gasset, a crença não é algo que podemos escolher, mas o objeto da crença sim, é algo que escolhemos através da inteligência. Assim, a verdade é objetiva, porém sua crença é subjetiva. E não há hierarquia entre crença e razão. As duas categorias afirmam o homem autêntico, constitui sua presença no mundo, pois transitar entre as duas instaura a dialética.
Acreditar se este asteróide destruirá ou não a Terra, é subjetivo. Acreditar que este automóvel é mesmo um asteróide, também é subjetivo. Mas, sentir o sabor da vida em cada instante que nos resta é objetivo. E para sentirmos melhor este sabor vital nada melhor que tentar solucionar os problemas diários. Aqueles problemas que realmente nos tira da órbita e nos distancia do nosso projeto vital. Acreditar em algo é uma lei natural, tudo que temos a fazer é descobrir o que é este algo, para nos tornarmos mais sensatos e éticos. Após descoberto, que venha o asteróide Pallas ou qualquer outro que exista com nome de automóvel.
Portanto, o sonho de qualquer publicidade é manter o público na crença. O melhor publicitário é aquele que se assemelha a um sacerdote e que atribui à crença o fundamento único de sua profissão. A crença é jogar com a opinião baseando apenas nas aparências. Este automóvel da Citroën, com o nome de Pallas, poderá ser sim um asteróide se acreditarmos assim. Ou podemos acreditar em outro automóvel que não possua o nome de algo que mude facilmente de rota e colide com outro objeto mudando para sempre a História. Mera contradição publicitária! Tudo não passa de publicidade! Vou dormir depois desta...
PS. Após as 17h o portal UOL lançou a seguinte notícia:
Danilo Dornas é filósofo.

7.6.07

Continuando sobre Filosofia Clínica...

Recebi vários e-mails. Alguns respondi, outros não. O texto neste blog sobre a Filosofia Clínica tem se destacado bastante. Uns dizem que eu me empenhei em criticar o guru desta seita, outros que estou desinformado sobre a Filosofia Clínica. Um chegou ao ponto de me enviar um e-mail me apoiando, mas depois ele mesmo me mandou outro e-mail dizendo que na verdade é um dos portadores do diploma e queria ver qual seria a minha postura. Eu mantive a minha postura diante de tal cancro se produziu nos últimos anos. Qual é a minha postura? Bom, a Filosofia Clínica é um erro. Até mesmo conceitual. No dicionário Houaiss a palavra 'clínica' deriva do grego klinikê que significa "cuidados médicos a um doente acamado" e do latim clinice que significa "medicina racional". O mesmo dicionário registra a palavra 'filosofia' como "amizade pela sabedoria". Então vejamos: "amizade pela sabedoria de um doente acamado". Pelo menos acho que ficou bem poético. Mas, vamos agora ao que diz a nossa Filosofia Clínica.
No livro introdutório Propedêutica de Lúcio Pakter ele diz: "A primeira lição fundamental na Filosofia Clínica é que aquilo que uma pessoa sente, vive, afirma, imagina, faz - isso é assim para ela -, independente de ser compartilhado com as outras pessoas, de ser aceito, criticado, ironizado, proibido e assim por diante". Algo bem parecido com a fenomenologia, pois a cada experiência há sempre algo de bastante subjetivo. Sim, ele tem razão. No entanto, como compartilhar isto, pois haverá a subjetividade? A própria ação de compartilhar também pode ser subjetiva e o pior, o ouvinte (no caso o clínico) também terá uma experiência subjetiva desta relação. Eis a minha questão: é possível clinicar alguém a partir apenas da subjetividade?
Imaginem! Poderia haver ciência com subjetividade? Evidentemente que não. A ciência precisa de uma linguagem universal. Nisto concordaram, Platão, Aristóteles e os filósofos que se seguiram. Tal linguagem universal, a científica, seria eficaz para o desenvolvimento cultural. Nisto, há algo que os participantes de tal seita ainda não perceberam ou, se perceberam, esconderam, pois se isto for admitido não haveria mais o pagamento das mensalidades e das consultas.
Vejamos outro problema. Afirmação do guru: "não há patologias, em Filosofia Clínica". Ah! se não há doenças na filosofia clínica, então podemos chamar de clínica? O próprio nome ja nos diz que não. Basta rever a etimologia da palavra clínica que escrevi já no primeiro parágrafo. Talvez, seja o nome ideal como "Aconselhamento Subjetivo" ou seja, "trocar palpites". Isto já foi condenado por Sócrates, pois este odiava as opiniões e desejaria que as pessoas buscassem o universal, a ciência. Portanto, podemos falar que é filosofia? Claro que não. Então, é válido o dilploma de alguém formado neste troço? Para pendurar na parede talvez, mas como cientistas ou filósofos é difícil dizer. A missão do filósofo é se preocupar com os problemas do seu tempo, com responsabilidade, com atenção e curiosidade. E isto exige ciência, prudência e objetividade.
Como diz meu amigo Wilson Coelho "se não há médicos, não há doentes". A Filosofia deve ser melhor divulgada no Brasil em tantos meios, mas não vejo sentido em difundi-la num consultório pretendendo tratar pessoas de forma individual. Por isso, sou a favor da pesquisa na área, pois isso sim seria filosofia. No entanto, acho ainda muito imaturo e irresponsável receber pessoas com problemas para serem tratadas por outras pessoas que podem ter também problemas. Não é incomum os dois caírem aos prantos ao final de cada sessão. É isto que eles chamam de compartilhar.
Danilo Dornas

5.6.07

A hiperdemocracia epidêmica

Resisti até o último minuto. Eu não quis falar de política aqui. Logo eu, que sou politizado desde os meus 9 anos quando assisti o enterro do presidente eleito Tancredo Neves, em minha terra natal. Desde então, eu quis ser liberal. Estudei o liberalismo até mesmo na faculdade de Filosofia discutindo com o pessoal que só aprende a falar mal do liberalismo. Certamente, pessoas contra a liberdade e também sonhadores incontestáveis. O conselho do embaixador J.O.Meira Penna, quando nos encontramos, foi o seguinte: "Deixe-os de lado. Não vale a pena! Só converse sobre aquilo que nos aproxima, mas rejeite a conversa que nos separe" um ensinamento bem diplomático. Segui direitinho o conselho do J.O. Meira Penna. Respeitei. Exercitei a tolerância e a paciência. Quase me tornei um monge de tanta passividade. Nas eleições, viajei e justifiquei meu voto. A minha opção foi a de não assinar nenhum atestado de burro, pois inteligente mesmo é justificar o voto. Hoje, me pergunto, por que sinto isso? Fácil... se você tiver paciência, te convido a entender-me...
Sócrates quando entrou na política, se decepcionou. Tantas contradições lhe foram reveladas que ele mesmo se sentiu na obrigação de definir os termos usados. Não foram muitos os filósofos que ficaram felizes com a política. Acredito que por isto, todos eles verificavam erros e tentavam solucioná-los. Ah, não é difícil se decepcionar com a política. Basta ter esperança nela, que você se decepciona.
Eu já não tenho esperança nenhuma. Meira Penna me ensinou isto em poucas palavras, mas também em seus livros. Deles concluí que, a esperança não faz parte da linguagem filosófica. É muito mais teológica. Esperar. Esperar e nunca alcançar! Ou, alcançar na morte, para quem acredita na vida eterna. O curioso é que esta foi a palavra escolhida pelos marketeiros da última eleição. A Esperança! Oh! Esperança... Palavra muito significante para religiosos que esperam a vida eterna. Eis novamente, a influência da religião na condução política. Estamos no Brasil, aqui são 100 anos de atraso.
Se escutássemos os filósofos, aprenderíamos que Spinoza dizia que a esperança é um vício. Ou mesmo o desiludido e sempre em forma física Aristóteles, a política e a ética é sempre um exercício. Ah! Mas, e a esperança? Bom, a esperança é ficar parado, passivo, possuir uma vida bovina, ruminante e se conformar com tudo. Isto é esperança. A condição epidêmica da hiperdemocracia. E claro, do domínio. O stalinismo, o nazismo, o franquismo, o salazarismo, o getulismo e todos os ditadores do século XX sabiam que para dominar teriam que se mostrarem messiânicos. Como? Dando esperança ao povo. Criando condições para o povo esperar, esperar e esperar...
Eu diria que esta doença é a acomodação. A grande doença do século XX diagnosticada por filósofos (não clínicos, ainda bem!) como: Ortega y Gasset, Hannah Arendt, Sartre e alguns outros... A acomodação é um mal do homem-massa. Por homem-massa se entende exatamente aquele que não tem vida autêntica, não sabe de nada, acredita na inocência da humanidade e repete os exemplos que acha conveniente. Sem projeto de vida, não sente necessidade de viver. Muito menos de pensar. Prefere que outro decida por ele. Entrega ao outro o poder de delegar sobre seu próprio futuro. Nos lembra alguem bem familiar, certo? O nosso presidente, talvez...
Taí, um tema bacana para falar da política. Falar sobre o "homem-massa". Ali se entende algumas coisas da sociedade contemporânea. Eu já falei demais sobre isto, só procurar no google, meu nome (Danilo Santos Dornas, Danilo Dornas) que garanto, verão sempre meu nome associado a estes temas. Por enquanto, não verão meu nome associado à delegacia de polícia, nem pensão alimentícia. Mas, o tema "homem-massa" já falei bastante e ele ainda é pertinente no século XXI. É que no Brasil sofremos o mal dos 100 anos de atraso. Talvez em 2017 faremos nossa revolução socialista... Espero que não!
Danilo Dornas é filósofo.