30.9.26

RESENHA: "A conquista da Felicidade", de Bertrand Russell

 




Bertrand Arthur Millian Russell (1872-1970), filósofo e matemático inglês, escreveu dentre as suas obras, um livro intitulado A conquista da felicidade. Neste livro, o autor adianta que não visa erudição acadêmica, mas tecer algumas considerações sobre a felicidade vivenciada por sua própria experiência. O livro se divide em duas partes. A primeira intitulada As causas da infelicidade e a segunda intitulada As causas da felicidade. Neste texto, iremos enfatizar a segunda parte da obra, uma vez que em algun momentos necessitaremos explicitar algum conceito apresentado na primeira parte. Para o autor a felicidade usualmente é entendida de duas formas: na primeira a felicidade é compreendida como acessível a todos; enquanto na segunda é acessível somente àqueles que sabem ler e escrever. A tentativa do filósofo é investigar o fundamento da felicidade para construir algo que seja plicável a todos os homens. Então, verifica que os entendimentos acerca da felicidade, que usualmente são considerados, são proposições contraditórias. Na primeira, há a defesa de que todos podem ser felizes; na segunda, há a defesa que nem todos podem ser felizes, apenas os letrados. Então, o filósofo busca o fundamento da felicidade que possa ser justificável e aplicável em todos. 

A primeira causa da felicidade que possa ser buscada por todos os homens é o prazer. Por prazer, se deve entender a realização de algo que supera algum obstáculo. Russell compreende que o homem sempre almeja o prazer e ele só pode ser alcançado quando as dificuldades em buscá-lo são superadas. No entanto, o homem que se deprecia e, ainda assim, alcança a realização de algo não entende o alcance do prazer, mas da surpresa. O contrário, também pode ocorrer. O homem que se vangloria e não consegue vencer os obstáculos, se decepciona. Então, para fundar a felicidade no prazer se deve investigar alguns pontos essenciais.

O prazer é ligado às crenças. No mundo moderno, segundo Russell, a ciência ficou entendida como poderosa e progressiva e sua importância não é posta em dúvida nem pelos próprios cientistas e nem pelas pessoas leigas. Existe a crença nas ciências como o caminho que leva ao prazer, e por fim à felicidade. Para Russell, esta compreensão indica que a felicidade só pode ser realizada no cientista ou nas pessoas que, mesmo não sendo cientistas, acreditam nas leis das ciências que lhes são transmitidas. Ainda assim, verifica Russell, a crença não se liga ao prazer e muito menos à felicidade conforme tenta nos mostrar. A crença na ciência, por exemplo, nos leva a concluir que Albert Einstein (1879-1955) – cientista alemão – era extremamente feliz e que os pintores e literatos não o são. No entanto, Russell explica qual é o papel da crença para a consolidação da felicidade. Para edificar um sentido para a palavra ‘prazer’, Russell aborda superar obstáculos requer alguma perícia. A perícia é fundamental para incentivar os instintos criativos. Nesta compreensão, o prazer em sua base deve ser entendido como a realização de algo que enseja a criatividade. Nesta conceituação, o prazer pode ser alcançado tanto pelos cientistas que tentam responder os problemas por métodos rigorosos, quanto pelos pintores e literatos ao contemplarem suas obras concluídas. Portanto, Russell indica que o prazer é o caminho para a felicidade quando desperta no homem a criatividade.

É evidente que, no tempo vivido por Russell, a criatividade estava oprimida pelas máquinas. Assim, a infelicidade dos jovens de seu tempo poderia ser explicada pela substituição dos trabalhos pelas produções com recursos técnicos mecânicos. Mas, para o filósofo esta infelicidade sentida pelos jovens pode ser facilmente contornada. Basta os jovens sentirem no trabalho que desempenham a atividade por vocação. Sentir a vocação não é uma tarefa fácil, mas se for projetada ou despertada será perseguida e a vida deixa de ser monótona para ser criativa e inventiva.

Ainda neste incentivo à criação, Russel explica que fatores importantes para atingirem a felicidade são a cooperação e a associação. Isso significa que, as criações e invenções devem ser dialogadas ou comunicadas para aumentarem o incentivo entre os homens para a vocação. A associação de homens, em torno de uma crença, pode trazer questões científicas ou artísticas, de modos diversos, mas que causam o prazer. A felicidade, então, possui um caminho bem traçado que é a crença em ideais da busca pelo prazer. 

No período em que Russell vive, há explicações filosóficas que tratam o homem como um ser-para-morte ou que tratam a vida como um drama. Estas explicações muitas vezes tratam a vida sem sentido ou vazia de significados. Tais explicações são consideradas como as escolas existencialistas. Russell, não entende a vida desta forma. Para ele, quando há esta perda de sentido o homem se deixa levar por tolices ou manias que são máscaras para fuga da realidade. No livro, em questão, o filósofo dedica um capítulo específico que diverge de tais explicações existencialistas. Para ele, as pessoas desejam ser amadas e não toleradas. No entanto, pedir amor é pedir muito do que a vida pode dar e isso é o que leva alguns pensadores, literários e artistas a se sentirem melancólicos. A melancolia é a perda do gosto de viver. E Russell dedica um especial capítulo, neste livro, para tentar investigar essa perda pelo gosto de viver. Vejamos a seguir os principais argumentos que ele apresenta.

A condição para o homem se distanciar da melancolia é ter o gosto por viver. E a felicidade é a tradução deste apetite pela vida. Por apetite de viver, se deve entender o interesse pelas coisas que a vida nos apresenta. Para Russell, quanto mais objetos pelos quais o Homem se interessar mais ocasiõe ele terá para ser feliz. No entanto, o Homem para se interessar por coisas da vid deve ser atento. Por atenção, Russell explica que é o interesse pelas coisas que rodeiam a vida, mas ao perceber tais coisas muitas vezes encontramos a nós mesmos. A busca da felicidade nesta compreensão significa o Homem se interessar por maior número coisas possível. Os interesses, quando se apresentam muito restritos distanciam o Homem da felicidade porque a chance da decepção, é ainda maior. Portanto, a continuação do caminho para a felicidade é o gosto pela vida e isso implica em se surpreender com o mundo. Aqui verificamos que Russell admite que a vida intensa em uma especialização pode significar a fuga ou o esquecimento de outros aspectos da vida. Esta fuga, muitas vezes pode conduzir ao exagero. Neste caso, a fórmula grega antiga da ética parece conveniente. A fórmula da moderação. Isso porque, em nome do exagero se pode desenvolver uma grande atividade intelectual quanto também uma grande melancolia. Esta fuga ou esquecimento é sintoma da perda da liberdade que Russell parece considerar como a principal causa da falta de estima.

Para que haja um resgate do gosto de viver, o Homem precisa se sentir amado. Ao ser amado o Homem compreende a afeição como uma bondade. Deixaremos claro, que Russell quer buscar os significados básicos para que a felicidade seja resgatada por todos independentemente de sua localização ou cultura. Então, a bondade deve ser compreendida como algo universal e para isso a investigação ganha um sentido mais simples. Deve resgatar o bom “em si mesmo”.

Um aspecto importante deste “bem em si mesmo” é a afeição que devemos receber e ao mesmo tempo dar. Por afeição, o Homem deve não agir por interesse, mas visar sempre a bondade inerente ao ser humano. Portanto, a afeição é uma troca desinteressada que não deve almejar segurança, proteção ou fuga da solidão. Ao contrário, a afeição deve ser incentivada na medida em que integre o Homem numa união, numa associação que não vise nenhum interesse. Apenas a comunhão do gosto pela vida.

A afeição que o autor trata pode ser verificada na família. Os pais sentem uma afeição especial por seus filhos, diferentemente das demais crianças. Esta afeição sentida pelos pais é amplamente discutida por teólogos, psicólogos, filósofos e cientistas. No entanto, é difícil verificar a busca pela felicidade em todos os casos. Russell explica que é complicado analisar a felicidade em cada pessoa. Mas, a felicidade num sentido fundamental deve investigar o amor. O amor, entre pais e filhos, se refere aos cuidados que um tem para com o outro. E ‘cuidado’ deve ser compreendido como atenção. Portanto, a família feliz deve ser fundada no amor que traduz esta atenção especial que os pais dedicam para os filhos.

O amor, entre os pais e filhos, baseia-se nos cuidados que um mantém com o outro. Mas, este amor não pode ser aplicado às demais coisas do mundo. Russell explica que uma das causas da infelicidade é a distração que o Homem tem. Esta distração muitas vezes traduz o interesse para coisas que não possuem uma praticidade. Esses interesses são impessoais. Não há critério para determinar se os interesses são bons ou maus, então não há como investigá-los. 

No entanto, outras distrações satisfazem as condições fundamentais da felicidade. Estas condições de felicidade devem ser perseguidas por homens que procuram interesses subsidiários, além daqueles que representam o centro em volta do qual construiu sua vida. Portanto, a atenção deve ser difusa. As distrações devem ser apenas complementares para as atividades centrais. Para Russell, se isso ficar bem compreendido o Homem foge da resignação e do esforço como categoria depreciativa do viver. Ou seja, incentiva o gosto pela vida buscando a felicidade.

O texto de Russell foi escrito com uma condução ética hedonista. Isto é, a felicidade deve ser considerada sempre como um bem perseguido por todos. Para uma discussão ética, esta obra de Russell é fundamental porque se distancia dos moralismos que tentam estabelecer uma lei máxima e a partir desta, as ações. Russell não quer construir nenhuma lei ética, e muito menos verificá-la nas ações. O filósofo pretende localizar a felicidade em fundamentos simples. As categorias essenciais que procuramos demonstrar neste texto traduzem esta tentativa do filósofo. Ao contrário, as infelicidades são produzidas pela falta de amor à vida que causam a desintegração do Homem. O homem feliz, ao contrário, se considerar as categorias apresentadas para viver sentirá a unidade entre o íntimo e o mundo exterior. Tal unidade é o que o previne da compreensão sobre a vida como drama ou como melancolia. A unidade do íntimo como o externo é a causa fundamental da felicidade que é um caminho a se percorrido por qualquer discussão ética contemporânea.

 

 Danilo Dornas

Prof. Filosofia


Bibliografia

RUSSELL, Bertrand. A Conquista da Felicidade. Tradução José Antônio Machado. Lisboa: Guimarães, s/d.

A representatividade social e política das mulheres e negros


 

O filósofo espanhol José Ortega Y Gasset (1883-1955) destaca em seu livro “A Rebelião das Massas” três conceitos fundamentais para refletir sobre a realidade histórica. Tais conceitos são: circunstâncias, minorias e massas. O primeiro, o conceito da circunstância, se refere a todo o ambiente cultural, físico e de valores que influencia a vida humana. Esse conceito ultrapassa o aspecto físico, considerando também o dinamismo histórico, bem como as transformações sociais, econômicas, políticas e religiosas. Já o segundo conceito, o de minorias, trata como a qualidade, do indivíduo ou de grupos, ao relacionar com as circunstâncias como uma resposta aos desafios e obstáculos impostos pelas circunstâncias. O aparecimento das minorias, segundo o filósofo, é uma atitude vital para que o dinamismo social seja possível desde a conscientização quanto à formação da representatividade política. Já o conceito de “massa”, que é um conceito abordado por vários pensadores de sua geração, para Gasset, é um comportamento sem incômodos e angústias existenciais, pois não sentem a necessidade de alguma mudança estrutural, porque não sentem em si mesmos nada de especial.

                       Tais conceitos se tornam importantes para despertar reflexões para os dias atuais de dois grupos minoritários que são as mulheres e os negros. Embora, ambos são considerados maioria, no ponto de vista quantitativo, são fundamentalmente minorias no ponto de vista da representatividade política. Todavia, os dois segmentos edificam marcas históricas, que são as circunstâncias, trazendo à tona a discussão sobre os fundamentos, os obstáculos e os desafios que tais grupos minoritários precisam sobrepor para salvar suas próprias circunstâncias. Enquanto isso, as massas continuam em vigília e incômodo para que tais minorias não tenham o êxito em sua mobilidade social: seja de forma econômica, social e política.

             A filósofa italiana, erradicada nos Estados Unidos das Américas, Silvia Federici (nasc. 1948), em seu livro “Mulheres e caça às bruxas” discute sobre as circunstâncias do existir como mulher, com o objetivo de tornar relevante um revisionismo histórico a fim de considerar uma onda de práticas patriarcais e misóginas por iniciativa das massas sociais. Segundo a filósofa, quando uma mulher é reconhecida como um agente emancipada e livre por seu trabalho ela também fica na evidência para, possivelmente, se tornar vítima de repressões sociais. As evidências, como explica a filósofa, são circunstanciais, porque nenhum fenômeno histórico pode ser explicado sem a devida contextualização. Porém, a autora investiga o porquê as mulheres, como representatividade política, se tornaram, para milhares de outros seres humanos, como inimigas ou impostoras de uma expectativa social. A resposta, sugerida por Federici é devido à relação singular das mulheres com a reprodução, que a injeta de forma particular aos cuidados que envolvem a vida e que, num mundo civilizado a deixaria no controle apenas daquilo que se refere ao bem-estar dos filhos e do cônjuge.

             Em outro livro intitulado “O Patriarcado do Salário”, a mesma autora Silvia Federici completa que já como um fenômeno histórico o trabalho doméstico ainda é considerado uma vocação natural das mulheres. Porém, como se sabe o trabalho doméstico é uma estrutura historicamente recente que iniciou com a Revolução Industrial e reorganizou não apenas as fábricas, mas a comunidade, o lar e, antes de tudo, a posição social da mulher como “dona de casa em tempo integral”. Tal mudança retirou as mulheres, especialmente as mães, das fábricas, aumentou substancialmente os salários da mão de obra masculina o suficiente para sustentar a “dona de casa”, que “não trabalhava”, no julgamento masculino. Dessa nova perspectiva, surge a mulher que, eram operárias, mas que se fez necessário receber uma educação popular sobre as habilidades necessárias ao trabalho doméstico, bem como também regras de etiqueta para se comportar socialmente de forma adequada.

             Nesse sentido, os interesses dos homens trabalhadores e dos capitalistas coincidem, porque alcançar altos salários, numa família tradicional, e que a mulher é “apenas a dona de casa” e que sabe se comportar socialmente traz uma respeitabilidade moral e social distinta de uma classe social empobrecida pela negação de trabalho às mulheres. Além disso, as mulheres livres e recebendo salários equivalente ao homem poderia gerar um desinteresse da mulher na reprodução, consequentemente, em produzir a próxima geração de trabalhadores ou que elas usurpassem as prerrogativas masculinas, algo que, destruiria a família tradicional, na crença das massas sociais. Portanto, historicamente as mulheres se tornam minorias por não retomar sua vida de livre escolha e caso a conquistasse, receberia alguma denominação pejorativa e desrespeitosa por sua liberdade.

             A relação do trabalho com a vida social não só condiciona o exame sobre as circunstâncias das mulheres num ambiente histórico, como também se pode examinar com atenção o mundo circundante dos negros. O historiador guianês Walter Rodney (1942-1980), em seu livro “Como a Europa subdesenvolveu a África”, explica que discutir as circunstâncias que transformaram os negros em minoria é, na prática, discutir o comércio escravista. Assim, um poder europeu construído pela perspectiva de civilização dos próprios europeus e ir até a África para embarcar os cativos da África para várias partes do mundo, nas quais eles deveriam viver e trabalhar como propriedades dos europeus denomina escravização, porque não deram a escolha ou a liberdade, mas atenderam aos requisitos básicos do capitalismo. E, nessa circunstância, ao negro foi deixado a um estado de injúria, num mundo de horrores, crueldade e profanidade intensos. O filósofo camaronês Achille Mbembe (nasc. 1957), em seu livro “Necropolítica”, explica que a relação de liberdade quando se refere aos negros impõe uma relação desigual, porque não se sabe se trata de uma liberdade da pessoa ou uma liberdade de propriedade, o que aspira um conflito existencial que marca profundamente as discussões sobre os movimentos abolicionistas. Tal conflito surge devido à análise sobre a participação dos negros no poder político. Segundo Mbembe, as relações de poder político, quando se refere aos negros, assume uma forma de dissolução da humanidade como propriedade de seu senhor. Dado que a vida de um escravizado é como uma coisa possuída por outra pessoa e sua existência é meramente figurativa e simbólica do seu dono. Mbembe considera que a participação política dos negros nos sistemas representativos se torna irrisório também pela imposição de um poder civilizatório que surge em paradigmas políticos europeus, ainda dos períodos coloniais, sobretudo quando a racionalização impõe o conceito racial superior, em que os Estados Nacionais são formados e organizados, numa perspectiva europeia, enquanto aos africanos as perspectivas dos europeus eram de uma vida selvagem, portanto primitivos.

             O sociólogo brasileiro Florestan Fernandes (1920-1995), em seu livro “A integração do negro na sociedade de classes”, explica que tal passado colonial sofrido pelos escravizados trouxe uma dívida social de larga escala para o negro, mesmo após o abolicionismo. Para Fernandes, após a abolição, o negro teve que se reeducar para corresponder aos novos padrões de homem civilizado criados pela noção de trabalho livre, capitalista e republicana. Esse novo padrão, para quem estava escravizado, foi um abandono à própria sorte, porque eram preparados para serviços que não encontrava agentes brancos, e quando o encontrava tais agentes, como por exemplo imigrantes europeus, eram facilmente discriminados e substituídos pelos imigrantes. Então, o racismo brasileiro é oculto, o que dificulta, mas não impede uma análise e uma contestação seja em questão ética e psicológica, mas principalmente em questões jurídicas.

             As mulheres e os negros são minoria por seu passado histórico. Seja pelo desempenho de uma mesma função que um homem, mas com salário inferior, como é o caso de muitas mulheres. Ou pela dificuldade de incentivos ao trabalho empreendedor, como encontram a maioria dos negros, os obstáculos convergem para uma mesma direção: as noções de trabalho, civilização e poder adquiridas desde os períodos da colonização e industrialização. Tanto as mulheres como os negros devem conscientizar das próprias circunstâncias para salvar a própria existência. Entretanto, a conscientização é importante, mas por si só não basta. É preciso também que haja políticas públicas afirmativas e inclusivas como forma de diminuir os obstáculos existentes na própria sociedade. As políticas públicas afirmativas é um dos instrumentos que pode facilitar a aplicação dos princípios dos Direitos Humanos (1948), cujo Brasil é signatário.

 Danilo Dornas

Professor de Filosofia

´danisdor@gmail.com

 

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

FEDERICI, Silvia. Mulheres e caça às bruxas. Boitempo: São Paulo, 2019.

FEDERICI, Silvia. O Patriarcado do Salário. Boitempo: São Paulo, 2021.

FERNANDES, Florestan. A integração do negro nas sociedades de classes. São Paulo: Biblioteca Azul, 2008.

            GASSET, José Ortega y. A Rebelião das Massas. Martins Fontes: São Paulo, 1987.

            MBEMBE, Achille. Necropolítica. N-1: São Paulo, 2018.

            RODNEY, Walter. Como a Europa subdesenvolveu a África. Boitempo: São Paulo, 2022.

A intolerância religiosa e o racismo no Brasil



O filósofo romeno, naturalizado estadunidense, Mircea Elíade (1907-1986), em seu livro “O sagrado e o profano” enfatizava que os estudos sobre as religiões se concentra nos símbolos sagrados, pois é o que mantém o conjunto de relações sociais e nutre o pensamento humano com várias expectativas e possibilidades. Entretanto, seus estudos sobre os símbolos sagrados não teve uma fácil aceitação devido as heranças de uma antropologia racionalista em que manifestava todo interesse sobre o sagrado seria um retorno ao homem primitivo, arcaico ou mesmo populações infantis.

 

Uma destas críticas ao pensamento religioso que considera um pensamento infantil se encontra na obra “Catecismo Positivista”, do filósofo francês Auguste Comte (1798-1857), representante da corrente filosófica positivista e que destaca os estágios deterministas que uma sociedade evolui a saber: a) o Estado Teológico: marcado por explicações religiosas acerca da humanidade e que configura uma fase primitiva da humanidade; b) o Estado Filosófico: marcado por ser uma fase de transição devido ao nascimento da Filosofia, mas que se perde em especulações e falta de provas acerca da realidade; e c) o Estado Positivo: marcado pelo avanço da humanidade, porque se concentra a verdade em torno das ciências específicas. O Positivismo sugere ainda o despertar de uma ciência, a física social, que teria por método a observação e a experimentação das ciências naturais, e que também abordaria uma investigação social a partir de um padrão comportamental. E nas leis sugere o Direito Positivo, que se opõe, ao Direito Natural, mas rege os comportamentos sociais e as instituições com características de subordinação às Constituições, e que são mutáveis de acordo com o tempo e espaço. Também chamado de Juspositivista possui uma interpretação metodológica que interessa apenas à validade do direito.

 

A ênfase positivista em considerar as religiões como um fundamento primitivo transformou-se em argumento factível com os ideais de progresso e evolução. Ou seja, progresso e evolução se tornaria elementos básicos para uma sociedade perfeita, evoluída e que contempla a Humanidade. E tal argumento se apoia nos avanços científicos que traz melhoras significativas na vida das pessoas através da tecnologia em vários setores. Porém, os valores morais como a dignidade humana, a liberdade e a igualdade são inferiores às preocupações evolutivas e do progresso. Esta observação foi indicada pelo pensador espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), sobretudo no seu livro “O Homem e a Gente”. Ortega y Gasset critica os rumos que foram dados ao pensamento humano quando se declara efetivamente que as religiões bem como seus valores são de ordem primitiva, porém atrasada, e que as ciências específicas são dotadas de verdade, que representa avanços tecnológicos e a contemplação de uma humanidade perfeita.

 

É importante comentar que o pensador Ortega y Gasset viveu, historicamente, um momento de crises extremas: as guerras mundiais, a gripe (chamada de espanhola), os regimes totalitários internacionais e as crises econômicas. Porém, Ortega y Gasset sugere uma reflexão nos valores morais que ficaram perdidos pela ânsia no desenvolvimento tecnológico e abandono por valores morais fundamentais que resgatam a humanidade de si mesmo, pois para ele as crises históricas são causadas pela incapacidade do ser humano pensar em projetos significativos para a humanidade. Projetos estes, que Ortega y Gasset, lembra que foi orientado pelas obras do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) que formula o seu imperativo categórico: “Aja de tal modo que tua ação seja sempre universal de conduta”, o que identifica a humanidade sempre como um objetivo moral último como um compromisso ético.

 

Durante a Segunda Grande Guerra, pouco se sabia dos experimentos que eram feitos por cientistas dos regimes totalitários. Entretanto, tal desconhecimento termina quando a Segunda Guerra acabou e se verificou os laboratórios científicos em que se utilizava humanos como cobaias: desde experiências com o frio até experiências com gases tóxicos. Tais cobaias pertenciam a grupos étnicos considerados, pelos regimes totalitários, inferiores. Dentre os grupos como ciganos, homoafetivos, negros, poloneses e também os judeus eram colocados em prisões ou serviriam de cobaias por manter símbolos e rituais, pela sexualidade, pelas características físicas, pela sua nacionalidade ou por sua fé. A intolerância e o racismo às diversidades se tornou explícitas e daí resultou uma investigação sobre a retomada aos valores humanos.

 

Como resposta ao genocídio da Segunda Grande Guerra, em outubro de 1945, surge a Organização das Nações Unidas (ONU) com objetivos em manter a segurança e a paz mundial, auxiliar no desenvolvimento econômico, proteger o meio ambiente, e promover ajuda humanitária em casos de fome, desastres naturais e conflitos armados. Assim, em dezembro de 1948, foi proclamada, pelas Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, como uma orientação à preservação da dignidade humana, bem como a direitos como a liberdade e a igualdade, à saúde e à educação. Entretanto, sendo uma orientação se esperou que outros documentos de vários países contemplassem as orientações deixadas pelos Direitos Humanos, com objetivo que as nações a reconhecesse e introduzisse em suas Constituições.

 

A Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, destaca já nos Princípios Fundamentais, em seu 4º artigo, inciso II – a prevalência dos Direitos Humanos. Sendo assim, o Brasil é signatário dos Direitos Humanos, em forma de lei fundamental para se firmar como um Estado Democrático de Direito. Entretanto, o sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) já destacava para as práticas de um racismo mitigado no Brasil desde a formação colonial, em seu livro “Casa Grande e Senzala”. Para ele, havia no Brasil um racismo velado pelo argumento que a miscigenação impediria o racismo no Brasil – tal discurso ficou conhecido como Democracia Racial. Porém, Freyre em suas declarações e entrevistas compreendia que, no Brasil, o que existia era um mito da Democracia Racial – o que despertaria uma desigualdade social pela existência de um racismo velado.

 

Ao se referir a religiosidade, Freyre destaca a metáfora do “Casa Grande” como o homem branco, patriarca e católico e que por essas características reunia o poder sobre outros membros da família nuclear: mulher e filhos; além de exercer também o poder sobre seus escravizados, que viviam na “Senzala” e tinham práticas diversas do padrão estabelecido pelo “Casa Grande”. Porém, mesmo os escravizados mantinham as práticas de sua fé em religiões com matrizes africanas. Nesta fase, os símbolos sagrados das matrizes africanas eram assimilados aos símbolos sagrados dos católicos, fazendo surgir comparações entre os orixás das matrizes africanas com o correspondente entre os santos católicos. Não apenas orixás e santos, mas também rituais foram assimilados, como uma forma de adequação. Porém, essa adequação entre os símbolos deixava claro que as religiões de matriz africanas eram submetidas à religião católica, que por sua característica de poder relacionado com o Estado, era dominante.

 

Nesse ponto, a intolerância e o racismo religioso convergem para a ocupação do poder político. A intolerância religiosa se torna uma prática mental em não reconhecer, por arbitrariedade, práticas e crenças de outros seres humanos. Já o racismo religioso se torna uma associação discriminatória que pela violência e ódio aos adeptos, aos territórios sagrados, às tradições e culturas tentam submeter e isolar os praticantes de uma determinada religião, por exemplo as religiões de matrizes africanas. Esse dualismo é resultado pela busca de poder político-social. E não por acaso, que tal busca pelo poder, não restringe ao catolicismo. Com o avanço histórico, no Brasil, grupos de religiões seja católica, seja outras denominações com características pentecostal ou neopentecostal ainda abordam as religiões de matrizes africanas com desinformação, preconceito, intolerância, ódio, violência e racismo.  

 

Tal procedimento se fez presente quando as religiões de matrizes africanas se tornaram minorias tanto em quantidade, quanto em direitos. Assim, se tornaram ridicularizadas em paradigmas considerados, por uma maioria, religiões antissociais ou com símbolos sagrados invertidos para uma crença contrária à crença dominante. Tendo seus símbolos sagrados, indumentárias e rituais, hostilizados tanto de forma jocosa quanto em agressões às pessoas, aos templos e aos símbolos sagrados. Em muitos casos, inclusive, pelas décadas 80 e 90, do século XX, no Brasil, as religiões de matrizes africanas eram associadas em programas de comunicação sob vários aspectos: comédia, tragédia e violência. Entretanto, com sociólogos e políticos como Florestan Fernandes (1920-1995) e Fernando Henrique Cardoso (nasc. 1931) essa realidade ganha novos contornos.

 

O sociólogo e político Florestan Fernandes sugere que as heranças coloniais brasileiras deveriam ser reconsideradas com políticas afirmativas, para redimir o longo passado e a dívida com os povos escravizados. Fernando Henrique Cardoso, sociólogo e presidente da República Federativa do Brasil, remodela o dia da consciência negra (20 de novembro) e determina a obrigatoriedade em se ensinar a História da África nas escolas e Universidades. Também se instituiu a política de cotas nas Universidades, o que criou alguma oportunidade que aos povos negros era um sonho distante de se realizar. Tais iniciativas foram fundamentais para que se lute contra o racismo no Brasil de forma, não mais apenas pelo academicismo, mas também com políticas públicas de inclusão social e com medidas afirmativas. Entretanto, mesmo com um Estado Brasileiro com características laicas que garante a igualdade e liberdade de expressão religiosa, não discriminando seus cidadãos por razão de suas crenças, o Brasil carece o desafio em implementar políticas públicas de inclusão.

 

A essas políticas públicas afirmativas somou-se, já no governo Luiz Inácio Lula da Silva (nasc. 1945) o Estatuto da Igualdade Racial (2010), que é destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e ás demais formas de intolerância étnica. Portanto, os símbolos das religiões de matrizes africanas são valorizados em suas manifestações sagradas. Por lei, pela discussão e pela orientação dos Direitos Humanos segue uma linha consciete e respeito ao ser humano de forma universalista. Entretanto, pela desinformação ou pelas mensagens instântaneas e imediatas, por busca de apoio e poder, de um grupo, ainda se verifica a intolerância e o racismo religioso na sociedade brasileira. Isto porque, no Brasil em que, apesar de laico, há grupos religiosos dominantes que enfatiza o desrespeito à consciência, aos direitos e às leis de uma religião minoritária.

Danilo Dornas

Prof. Filosofia

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

BOBBIO, N. O Terceiro Ausente: ensaios e discursos sobre a paz e a guerra. Editora Manole, 2009.

COMTE, Auguste. O catecismo positivista. São Paulo: Vitor Civita, 1983.

Constituição da República Federativa do Brasil.

Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm Acesso em 20 de setembro de 2024.


ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

Estatuto da Igualdade Racial. Palácio do Planalto da Presidência do Brasil

Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12288.htm Acesso em 20 de setembro de 2024.

 FERNANDES, Florestan. Entrevista Roda Viva. TV Cultura. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=MQe35fx66lU Acesso em 20 de setembro de 2024.

FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. Rio de Janeiro: Record, 2001.

FREYRE, Gilberto. Uma Entrevista com Gilberto Freyre. Isso Compensa. Disponível em: http://issocompensa.com/academia/entrevista-gilberto-freyre acesso em 20 de setembro de 2024.

GASSET, José Ortega y. O Homem e a Gente. Rio de Janeiro: Ibero-Americano, 1973.

KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução Paulo Quintela.     Lisboa: Edições 70, 2002.