por Juliana Soares
Costumam-se dizer que alguém para ser notável basta atingir a popularidade. Normalmente, a mácula, o reconhecimento, o sucesso e o fracasso são apenas condições internas a um parêntese que é a vida. Isto pode significar a rotulação para uma personalidade, mas sabe-se lá, até quando pode durar um rótulo. Ao Danilo Santos Dornas, lhe interessa o mundo que está fora dos parênteses e não os rótulos existentes dentro dos parênteses. O conheci através de um texto pequeno num jornal da USP cujo título era “O mundo é todo meu” – no início do texto ela já tentava se explicar que esta frase poderia ser um plágio de Lampião; do conquistador macedônico Alexandre; ou de Mahatma Gandhi – ele mesmo “não identificaria a originalidade da frase, mas que isto não faria a menor importância já que são apenas palavras”. Desde então, acompanho os seus textos sejam textos acadêmicos, sejam para os jornais, sejam para revistas ou a internet. O seu estilo é conservar sempre a ironia e a sagacidade. Seus pretextos para construir uma boa conversa são apenas motivos para retirar qualquer experiência sobre a vida. Ele conserva o espírito jovem que espanta, admira e ironiza tudo com a mesma fluidez de uma corrente hídrica, mas não escolhe palavras certas ou erradas para disfarçar os repúdios que julga pertinente o que o faz se revelar como um sujeito que joga com seu pensamento e com as palavras. Seu temperamento inconstante se manifesta por um isolamento extremo, pois “prefere a companhia dos livros”.
Nasceu em São João del-Rei, MG, Brasil, uma cidade histórica e pequena que cultua a tradição mineira e muito apegada aos valores morais cristãos bem tradicionais que codificam comportamentos estreitos e com rara perspectiva para os jovens. Filho de um ex-jogador de futebol Geraldo Magela; e de funcionária pública Terezinha Santos Falconeri; não desejou seguir a carreira dos pais. Ele se explica dizendo que “não sentiu nenhum bom humor em partidas de futebol” e "não se vê preso em papéis, carimbos e assinaturas” – como sua mãe. Escolheu se formar em Filosofia, pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), que lhe forneceu grandes modificações: “ficou mais responsável, porque faz o que gosta!” – explica sua mãe. Seus pais ressentem por ele não comunicar a sua própria formatura e nem sequer comparecer aos festejos daquele momento, porque para ele, aquilo tudo não passava de uma “hipocrisia social”. Seu pai conta que soube da formatura de seu filho na rua através de um amigo. E sua mãe lembra que era um menino tímido. Começou a ler compulsivamente e a escrever textos, por influência de amigos. O tema preferido de seus textos juvenis era o terror. Danilo Dornas continua com a mania de escrever, porém agora sobre filosofia, política, educação e ética, que podem ser estudados em várias revistas especializadas pelo Brasil, Portugal e Espanha e na internet.
Ele não tem religiosidade. Mas, sabe defender o liberalismo. Sempre ousou falar em liberdade. Sempre exigiu a liberdade. Sua importância para a Filosofia não deixa de ser um narcisismo da atual geração. Todos, hoje em dia, querem falar de si, de suas experiências, de suas aventuras e de suas ideologias. Danilo é alguém assim, mas recolhe palavras e nos injeta, como uma penicilina. O êxtase que sentimos ao lermos seus textos é, para ele, a recompensa de um ego valorizado. Mas, ele não está errado! Ele desperta a ânsia por um mundo com auto-afirmação através de um deleite individual. Ele ensina que reconheçamos os valores da vida através de um autoconhecimento. Desta forma, nos brinda com suas manifestações de ironia e de liberdade, para vivermos com bom humor.
1. Em seus textos sempre manifesta alguma ironia ou sarcasmo. Há possibilidade em conciliar a ironia com um dos seus temas principais que é a ética?
Danilo: A ética é uma disciplina que investiga os valores morais de uma sociedade. Neste caso, a ética não se origina pelo que é verdadeiro ou falso, mas pelo que é certo ou errado. E determinar o “certo” ou o “errado” é um julgamento alimentado por referências sociais de vários níveis: família, escola, religião, meio social essas coisas. Uns preferem achar o certo como uma crença no destino, na paciência, na humildade, no prazer e etc. Eu escolhi a ironia como uma ferramenta para as minhas intervenções éticas. Não há nada de original nisto e não saberia exatamente te dizer as minhas influências, porém tenho suspeição de que sejam minhas preferências pelas expressões artísticas que traduzem o bom humor. Eu sempre leio “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes e, me parece, que é daí que tudo começa. A ironia é apenas uma ferramenta que mostra o oposto de algo que parece ser verdadeiro. Além de ser um excelente remédio para enfrentar os problemas e os obstáculos da vida. Muitos também a utilizam, eu apenas sou mais um, mas não sou humorista. Porém, a Filosofia incorpora, em seus estudos, a moral da resistência, e uma delas é o cinismo. Eu o utilizo através do lúdico e do jogo. É isto que os gregos chamavam de Paidéia que alguns preferem traduzir como educação. No entanto, parece que já deixaram de lado a capacidade de quebrar o ritmo de uma verdade através da ironia, com tantas fórmulas imediatistas e indicando uma pseudociência. Mas, a ironia é importante para identificar outras possibilidades de perceber o mundo e as falhas da pseudociência com suas fórmulas absolutas.
2. Entre os textos publicados há o destaque para seu repúdio à Filosofia Clínica. Como o senhor explica esta inovação brasileira?Danilo: Inovação? A Filosofia Clínica é uma técnica brasileira criada por um sujeito que se afastou da atividade de psiquiatria e foi estudar Filosofia. Na verdade, não chamaria de inovação, pois os fundamentos da Filosofia Clínica estão nos manicômios dos subúrbios franceses de 1793. Aqui no Brasil apenas se desenvolveu a técnica e a sistematização, porque não se tinha profissão para os formandos em Filosofia nas décadas de 80 e 90. Ou os mesmos se mostraram sem talento ou sem vocação para sala de aula, daí a notícia de uma nova tendência seria uma luz “no fim do túnel” para o sucesso. A técnica se fundamenta em apenas buscar nos filósofos argumentos mais afetuosos para o que eles chamam de partilhantes se sentirem melhores. É aí que eu ironizo: e se eu não aceitar estes argumentos? Como faço? Será que os formados em Filosofia Clínica têm realmente toda esta competência e habilidade em montar para mim um mundo melhor, baseando em filósofos? Então, quando comecei o curso, estava interessado, mas logo percebi que aquilo era uma reação corporativista à falta de emprego dos formados em Filosofia – então abandonei. Felizmente, a Filosofia já se consolidou tanto na lei quanto nas escolas, além de outras atividades como na Comunicação Social. Inicialmente, a Filosofia Clínica explicava que o sujeito para concluir teria que ter a graduação em Filosofia e mais os dois anos na especialização, para depois apropriar da função de psicólogo. Entretanto, hoje, na prática, basta o sujeito de qualquer curso buscar a especialização em Filosofia Clínica, naturalmente, isto descaracteriza até os propósitos iniciais do seu importador. E, eu escrevi dois textos contra isto, o primeiro é mesquinho e o fiz de propósito intitulado
“E a Filosofia Clínica?”– neste, por ser mais mesquinho, atraiu mais a moçada da área. Foi um jogo e eles sequer perceberam, isto para ver o quanto eles são “bons” em perspectiva. Eu não partilharia nem um cafezinho com eles, quanto mais meus problemas existenciais. Já o segundo – “
Continuando sobre a Filosofia Clínica” - foi um pouco mais diplomático, porque indico que isto precisa de mais pesquisa antes de “tratar pessoas” – mas foi apenas diplomacia. Lugar de filósofo é na educação, as outras atividades são apenas conseqüências desta atividade.
3. Existe outro tema que o senhor explica que é a busca pela Felicidade, como é esta fórmula?
Danilo: Não há fórmula para a Felicidade. Entenda a Felicidade como uma missão a ser cumprida, quando alcançada outra surgirá. E não confunda Felicidade com Alegria. É só isto! Alegria é um momento instantâneo de comemoração, uma festa, necessária para vida, mas não é Felicidade. A Felicidade é apenas o resultado de um conjunto de ações que adotamos para alcançar um objetivo. Nem sempre as ações são agradáveis, mas são necessárias para o fim que é a Felicidade.
4. Dentre os vários artigos científicos, resenhas, crônicas e artigos para jornal, há projeto para a preparação de algum livro?
Danilo: Não penso nisto. Eu não tenho muita coisa para dizer num livro. Quero morrer e acabar. Deixe isto para os bons e para aqueles que têm realmente o que dizer. Concordo com o filósofo Schopenhauer que explica da existência de três tipos de escritores: os cometas – que simplesmente passam; os planetas – que a gente admira por um determinado tempo e por causa do movimento, a gente fica debatendo sobre eles e; os estrelas – que são fixos. Eu escrevo coisas curtas, porque sei que a informação hoje é efêmera e volátil devido à rapidez da tecnologia de comunicação. Quando eu tiver algo a dizer, escrevo um livro, mas por enquanto não há nada de original no que faço.
5. Como é estudar Filosofia hoje no Brasil?
Danilo: No ensino superior é lendo os filósofos, mas com todo cuidado de não se deixar ser manipulado por ele. Nas escolas de Ensino Médio é aprendendo a ler os códigos e os significados que só o homem é capaz de construir. Eu vejo com muito otimismo, porque Filosofia é o que nos torna mais humanos.
6. As crenças e convicções, sejam religiosas ou políticas, podem atrapalhar no ensino de Filosofia?
Danilo: Depende do professor e dos estudantes. Quando a Filosofia foi transformada em disciplina obrigatória no Brasil houve medo de que os professores de Filosofia manipulassem a juventude com ideais políticos e religiosos. Na verdade, o professor que fizer isto, não é professor de Filosofia. É um enganador. Mas, para que isto não ocorra, aposto nos estudantes. Se a curiosidade deles for despertada, logo este professor sai de cena. A curiosidade incentiva a desconfiança, a investigação e aí a dialética. Por exemplo: supomos que um professor de filosofia indica um livro para ser lido, mas ele sabe que não será lido, então ele verifica a fragilidade e consegue manipular estrategicamente, tornando os estudantes como bonecos ou fantoches. Mas se o estudante ler e também ler os que criticaram tal livro indicado, este professor não conseguirá manipular ninguém quanto às convicções e as crenças, porque terá que argumentar. Só que é isto que é Filosofia para o Ensino Médio – argumentação e debate, sem banalizar a história da filosofia e os limites do pensamento. Mas, observe, depende de ambos os lados para que as aulas de Filosofia não se transformem em Ideologia. Uma vez, um professor me disse: “não acredite em nada que o seu professor fala na sala de aula, apenas observe como ele se comporta, pois isto te ensinará um pouco mais sobre a vida”. Sempre exercito esta frase enquanto sou estudante e tento passar isto para os meus alunos também. Agora, num ambiente de acomodação e apatia, o professor de Filosofia se torna um manipulador.
7. Uma aluna me disse que uma das suas frases preferidas em sala de aula é “não existe verdade absoluta”. Como o senhor explica esta lição se ao final acabamos por definir alguma verdade?
Danilo: É, falo isto sim. É o segredo de um jogo que faço com as turmas, que ainda estou esperando alguém confrontar. No fundo é um desafio, frustradamente, acaba se tornando num diagnóstico.
8. O senhor acredita em Deus?
Danilo: Esta resposta importa?
9. Em suas crônicas o senhor nos apresenta uma série de acontecimentos da sua infância e juventude, mas sinto que há sempre algum mistério neles. Existe alguma crônica, em especial, que o senhor se identifica e gostaria de revelar algum segredo?Danilo: Não sei sobre os mistérios de minha infância que aparece nos textos. Talvez estejam mal escritos, por isto parece mistério. Mas, tenho vários textos preferidos e outros que eu odeio. Um dos preferidos é
O jardim das certezas é a fonte das incertezas. Aquele é um texto misterioso, porque pensei como um suicida. Não que eu seja um suicida, mas tentei escrever como se eu fosse alguém que deseja morrer do que viver. Alguns acharam o texto maravilhoso, o que confirmou minhas expectativas. Poucos entenderam que “jardim da saudade” é nome de cemitério. E que o jardim da certeza é o mundo científico, mas a incerteza fica no cemitério. Portanto, o texto é isto: é fácil morrer, difícil é viver com tanta certeza sobre tudo – no fundo me revelei um suicida incompetente porque acabei falando mais da vida, porque acabo criticando nossas “certezas” do que explicar o desejo pela morte que é um vazio total de certezas – é um texto anárquico, num sentido existencial.
10. O senhor concorda com a idéia da Filosofia ser ensinada também para crianças?
Danilo: É importante popularizar a Filosofia, mas sem banalizar. É o que faz a diferença na convivência. Eu já disse que a gente só precisa saber a língua portuguesa e a matemática, o resto é apenas currículo. Mas, é isto que faz a diferença. Não sei quanto ao ensinar Filosofia para crianças, nunca estudei nada a respeito, a não ser ler algum artigo de jornal ou revista sobre o assunto. Mas, acho que nós aprendemos mais Filosofia com as crianças e não sei se conseguiríamos ensinar a elas uma coisa que elas já fazem por natureza. Acho que os pais é que deveriam aprender Filosofia para lidar com elas.
Danilo Dornas é membro do CEFA – Centro de Estudos em Filosofia Americana; colunista do
Paidéia da Folha do Litoral e do Jornal das Lajes; professor de Filosofia e ministra cursos pelo Brasil ligados à Filosofia, Ética, Educação e Política.
Blog:
http://paideiadigital.blogspot.com/Email: danilodornas@uol.com.br