6.11.11

Ossos e Carnes

(Foto: Danilo Dornas)

Na condição de professor de filosofia estou disposto a levar um tiro pelos meus alunos, mas vão custar dois mil reais a hora-aula, mais as despesas adicionais, o que em geral significam todas as doses de vodka que conseguirem injetar em meu corpo. Porém, quando uma aluna resolve respingar em mim seus feromônios e requer meus serviços de forma particular e anônima, o meu trabalho pode magistralmente ser feito de graça.

E isso acontece quando a dita aluna possuir lindos cabelos vermelhos, lábios almofadados e dois dirigíveis gêmeos que esticam a blusa de seda até beirar o ponto de rompimento e apresenta o estado de medo, o ofício de professor se torna a dádiva dos deuses. É assim que eu faço valer o diploma conseguido com muito suor, o que para mim soa com certa ironia sexual. A linda mulher trouxe em suas mãos a obra Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant. Quando eu vi, senti um calafrio. O único caso anterior que me envolvi com algo assim era uma aluna que queria desvendar a Genealogia da Moral, de Friedrich Nietzsche, o que me trouxe um alto custo. Nesse caso, houve críticas de um aspirante a professor, mas logo revelaram acusações infundadas. Decerto, ninguém corrompe quem já está corrompida, sobretudo quando o suicídio dessa nietzscheana fora consumado com sucesso.

Agora, corromper uma estudiosa de Kant é motivo de orgulho para qualquer professor de filosofia. Coloquei a moça sentada, de modo que ela cruze as pernas e exponha os seus contornos, de forma que ela denuncie suas reais intenções e já segurando um copo de vodka, ofertado por mim, ela relaxou. Disparei um sorriso duro, última coisa que me lembro, antes das luzes se apagarem, para acrescentar a pimenta no ambiente. As dúvidas da garota eram expostas de forma que se assemelhava a um caminhão de tijolos despencando em minha cabeça. E eu comecei a respondê-la:

- Nunca ouvi falar disso. Ah, espere... Aquele playboy só não foi surrado até a morte porque resistiu às tentações da carne. Portanto, para ele se tornou fácil falar de Imperativo Categórico. Não acredito que ele tenha pagado alguma conta na vida. Não dá para se divertir assim. Além do mais, tudo que ele conseguiria é vender todas suas ideias num leilão, o que hoje chamamos de universidade.

A moça resistiu: - Mas ele foi criticado por causa disso? – Não. Respondi, com uma paciência estóica. E continuei: - Mas foi ele quem riu por último. Sua obra se tornou uma ameaça, pelo simples gesto de amor à humanidade. Dizem alguns que Kant ficou tão empolgado com a coisa, que recomendou a leitura ao Conde Drácula com um prefácio sugestivo, eu li para a moça: “De nossa pessoa silenciamos. Quanto ao assunto deste livro, porém, de que se trata aqui, pedimos que os homens o considerassem não uma simples opinião, mas, de fato, uma obra; e que tenham certeza de que não se trata da fundação de uma seita ou da justificação de uma ideia, mas de fundamentação da utilidade e da grandeza humana.” A partir daí, o que se ouviu falar do Conde Drácula foi que ele habitava numa cidadezinha procurando alguma sopinha em lixeiras de banheiros do público feminino.

Daí ela remexeu na bolsa e eu não ficaria surpreso se ela retirasse dali algum afrodisíaco ou algum alucinógeno. Eu queria fazer uma fuga, mas ela tinha outras ideias. Ela me perguntou se eu tinha algum problema com o mercado de ações. Daí, ela retira da bolsa algo que parecia ser um par de algemas e com certa expressão no rosto veio em minha direção. E eu apavorado digo: - A integridade é um conceito relativo, é melhor deixar para Jean-Paul Sartre ou Hannah Arendt. A realidade é que, quando os ventos uivam, os princípios e ideais sublimes têm a tendência de sumir num redemoinho pelo ralo do banheiro. Foi aí que rilhei os dentes e fui vencido pela minha musa ruiva. Durante os próximos instantes, devo confessar, tive um chorrilho daqueles apelos de intervenção divina. A última prece que fiz em minha vida, até aquele instante, tinha sido: meu adorado Senhor, já estou com 30 anos e estou ficando careca... Mas agora minhas preces seriam para impedir aquela devassa de devolver minhas partes pelo correio, para quatro endereços diferentes.

Depois de satisfeita, ela deitou exausta ao meu lado e, eu, num momento de prazer, peguei o livro que estava nas mãos dela e o título me pareceu conveniente para aquela situação: Da ilusão transcendental. E lá balbuciei: verdade ou ilusão não estão no objeto, enquanto é em verdade dizer corretamente que os sentidos não erram, não porque eles julguem corretamente, mas porque eles não julgam de modo algum.

Isso acarretou uma discussão violenta. Falei que não queria mais vê-la e que queria a custódia daquele livro de Immanuel Kant, vontade que ela me cedeu sem maiores delongas. Desde daquele dia, não sei qual foi o rumo daquela mulher, mas posso dizer que, enquanto não existirem muitos trabalhos para um professor de filosofia aqui na Terra, os meus ossos e carnes permanecerão inteiros.

Danilo Dornas é professor de Filosofia.

email/MSN: danilodornas@hotmail.com

http://paideiadigital.blogspot.com

1 comentários:

Anônimo disse...

"A realidade é que, quando os ventos uivam, os princípios e ideais sublimes têm a tendência de sumir num redemoinho pelo ralo do banheiro."
Ahhhh vdd!!!! concordo...
Todo seu texto foi definido nesta frase rsrsrs
No fim o que prevalece são nossos instintos o único responsável pela não extinção de nossa raça. rsrs

Abraços
Si