A “Escola Nova” é uma corrente pedagógica da década de 30 do século passado e que se consolidou por um acordo político entre os defensores de uma educação tradicional devido ao apreço pela ideologia e os liberais que preferiram uma educação mais autônoma, laica e dividida em áreas do saber. Tal acordo foi encerrado pela Ditadura Militar que adotou o sistema de ensino baseando em apresentação de teorias, como era na Europa, do século XVIII, para que haja um apreço por ideologias militares, na tentativa de apaziguar os ânimos investigatórios de forma autônoma. E desde então, houve uma fobia para que algo se transformasse na educação, que ficou mal, e entrou em estado de decomposição quando as estatísticas começaram a fazer parte do cotidiano político, sobretudo quando o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) fez parte deste diagnóstico. Desse modo, a história da educação brasileira se reduziu a uma constante disputa político-partidária para que de um jeito ou de outro construir um arquétipo ideológico que forme alguma conquista pessoal ou institucional.
Examinando os apontamentos sobre tais mudanças na educação, limitei-me a condicionar minhas ponderações sob a ótica dos estudantes. E me esquivei das tradicionais teorias educacionais e dos interesses político-partidários que rondam o atual comando da educação; porém vale ressaltar que, não que tais perspectivas não sejam importantes, mas que também se deve interrogar, filosoficamente, sobre o sentido de tantas reformas educacionais e identificar os fundamentos da fragilidade vertebral que assenta a educação, para recuperarmos os aspectos culturais da nação brasileira. Portanto, tento chamar a atenção para tais mudanças radicais promovidas pelo MEC, porque percebi que a finalidade de toda esta mudança está ausente quanto à sua representação que é o próprio estudante, o principal motivo da existência dos debates pedagógicos.
As propostas de reformas na educação do MEC, infelizmente, confirmam que o estudante é todo aquele que está matriculado em qualquer estabelecimento de ensino. Tal confirmação vem quando se repete a frase de que a escola deve ser “pública, laica, gratuita e obrigatória”. E para corroborar tal ideologia se apresentou problemas, sem considerar os estudantes, em todas suas dimensões. No entanto, é falso o sentimento que tais modificações radicais iniciarão um processo social de inclusão, como querem os ideólogos de plantão. Isto porque as propostas determinadas pelo MEC não consideram os estudantes, mas as instituições de ensino, seus números, suas estatísticas, seus financiamentos e seus dividendos. Por isso, defendo que, antes de tais modificações, deve haver uma articulação entre os problemas reais do estudante e o seu cotidiano como uma necessidade e apego à realidade, e isto não se constrói com uma fórmula de aprendizagem e nem aos parâmetros institucionais totalizadores. Mas ainda assim, não vejo em tais propostas, o estudante imbuído de sua missão na escola. O estudante é uma qualidade do comportamento humano, e isto não pode ser determinado por instituições, mas pelas narrativas e símbolos que os próprios estudantes atribuem para o universo. Assim, as propostas do MEC em organizar o tempo e as disciplinas em áreas, não é todo ruim, mas isto pode evitar que uma vocação se perca em formalidades e burocracias institucionais, porque não iremos disponibilizar o contato intelectual entre professor e estudante, mas sim incentivar ainda mais a relação professor e aluno, que em sua etimologia significa “sem-luz”, gerando o crescimento de alguma ideologia político-partidária e social. Na realidade, não temos estrutura e tempo para uma mudança radical, por isso, embora eu considere a divisão de áreas essencial, não penso que ela deva ser feita de forma instantânea para fins políticos e eleitoreiros. É certo que há estudantes e alunos. Os alunos têm preferido a frágil condição pedagógica, apontada pelo MEC, para satisfazer as exigências imediatas que acreditam medir sua inteligência e sua dignidade e assim, definem seu futuro. E é certo, que a retirada das disciplinas pode transformar a “interdisciplinaridade sem disciplina”. No entanto, penso que devemos valorizar o estudante que pauta suas ações pelo convívio com o professor, e não com preocupações institucionais os transformando em alunos neste modelo proposto. Pelas modificações, o MEC substitui o estudante pelo aluno, não muito diferente do modelo americano. Ou seja, diante de tantas mudanças radicais, sem preparos fundamentais, todo o esforço será uma defesa pelo Ensino Médio teórico, universal, com verdade absoluta e nomenclaturas sem compromisso e sem a autonomia exigida pelo estudante, pois não se leva em conta a tensão, a sobrecarga e o “saber a varejo” que eles estão submetidos por causa das disputas burocráticas, de vaidade e de posicionamento político.
Portanto, o MEC cumpre sua missão em atentar para a situação política e se esforçou para um falatório em torno de mudanças institucionais da educação brasileira. Também considero apropriada a intenção do MEC em justificar a permanência de uma política sobre a educação, para que haja mais uma tentativa de algum plano miraculoso cujo objetivo é salvar a educação, recuperar a cidadania e toda esta conversa que pode desencadear dentro de um boteco. É assim que são calorosas reuniões e os inacreditáveis projetos lançados na imprensa que assusta todos interessados no ensino e na aprendizagem, sobretudo os estudantes. Mas, e agora? O que fazer? Como gerar um professor preparado para atuar numa “área do saber”, e não mais em sua disciplina? Se não houve preparação universitária, em longo prazo, de tais modificações não há como esperar que o professor seja hábil o bastante para transitar entre as variadas competências e habilidades. A educação que antes estava em cima da mesa, agora passa para dentro da gaveta, devido aos ambiciosos projetos, até que outro político surja e reforme tudo de novo.
Estas mudanças, com seus métodos radicais, servem para caricaturar a educação, sem nenhuma preocupação com os professores e com os estudantes. Não ouvi, sequer, mencionarem ou questionarem aos estudantes, que estão como cobaias em siglas e regras que só servem para os confundirem. O MEC subestima os reais protagonistas da educação que são os estudantes. Entretanto, os estudantes são capazes de se aventurarem por sua conta e risco na exploração dos obstáculos, para que intervenham com consciência o despertar científico e as formas culturais que interagem em sua formação. A defesa do aluno é aprender o que se sabe, a do estudante é investigar o que ainda não se sabe. E na vida cotidiana é claro que há professores e há estudantes!
Danilo Dornas é professor.
e-mail: danilodornas@uol.com.br
1 comentários:
muito sensata sua opiniao sbre as mod. na educação. os estudantes somos realmente cobaias
Fabíola
estudante jornalismo
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