4.5.09

O instante e o adeus de Nero

Não obrigo a ninguém a pensar como penso e nem a agir como ajo. No entanto concebo várias formas de viver e, geralmente, espantam-me bem menos as diferenças entre as minhas várias formas de viver do que as semelhanças entre elas. O fato de não ser um comerciante ou um escravo não me impede em por em minhas peles suas ilusões e suas conquistas para estabelecer comparações, cujo único preço é entregar-me à minha própria historiografia. Há pessoas que só aconselham aquilo que elas imaginam que possam imitar. No entanto, meus conselhos não são desta natureza. Eles são muito ínfimos aos conselhos daqueles que tentam imitar a vida. Eles são resultado do conflito entre a razão e o seu oposto; da bondade e da maldade; e da teoria e da prática. Ainda assim, os conselhos são oferecidos por alguém quem já caminha com pernas enfraquecidas pelo tempo, com apenas 32 anos, mas a vida não é justa!
O imperador romano Nero quando viu sua mãe executada, por sua própria ordem, mostrou-se comovido e cheio de piedade, quando teve que dizer a ela um simples "adeus". A vida não é justa! Nossos julgamentos estão longe de serem justos, simplesmente porque reprovamos os costumes e as regras que nos mandam o caminho certo da salvação e da bem-aventurança. Vejo esforços dos mais altos cientistas, filósofos e teólogos tentarem enobrecer argumentos éticos, munidos de virtude e fantasia, quando já não acreditamos sequer em fantasias, quanto mais em virtudes provenientes de tais mentes solitárias.
Neste instante, deixo de lado estas questões enobrecedoras e caio na vida solitária com um jeito de não me deixar conduzir por qualquer submissão às promessas que avassalam os espíritos. Solidão não é uma opção, mas sim a totalidade das virtudes e das fantasias que, um dia, nos explicaram apenas como virtudes que são: o egoísmo e a ambição. Virtudes, fantasias, egoísmos e ambições: serão estas as armadilhas da vida?
Este é o instante de Nero que julgo traduzir o que somos. Não há possibilidade de nos libertar da realidade e nos estabelecer como humanos sem retirar o egoísmo e a ambição. A vida não é justa! - é o momento do "adeus" de Nero à sua própria mãe. A finalidade da solidão é viver mais confortável, o que não a diferencia do egoísmo e da ambição. Entretanto, a solidão é um tanto mais universal, na medida em que é dela que desperta atenção e julgamentos sobre padrões e comportamentos alheios. Mas, como um médico não cuida da saúde dos outros, sem comprometer a sua própria saúde, a vida não é justa! Apenas carregamos a corrente conosco quando nos libertamos. E, provavelmente, as chagas que ela nos deixa. Não há modo de retirar a corrente que simboliza a solidão, porque não há como viver sem a solidão. Entretanto, é assim que empenhamos a luta contra nós mesmos, principalmente quando exigimos a amizade e o amor como instrumentos de crença num mundo melhor. Entretanto, são muitas as preocupações, são muitos os temores e muitas as inquietações que roem o homem solitário, porque seus caminhos confortáveis são cada vez mais luxuosos e tentadores, mas nele não há vestígio de amizade e amor. Eis toda a desconfiança sobre a possibilidade de um mundo melhor. Eis minhas dúvidas sobre o meu mundo melhor.
A caminhada é solitária. Estou solitário! Estou egoísta, ambicioso, mas confortável. Há o que se preocupar e há o que se temer. Estou inquieto às 03h50 da manhã, do dia 04 de maio de 2009, desabafando isto, que um dia chamarão de texto. Não há mundo melhor para mim neste instante. Há apenas um sujeito que se inspira em agonias e últimas palavras adicionado ao cachorro do vizinho que late irritado com algo. Não há mais que atentar para as conclusões de uma vida como a minha já fracassada. A minha vida chega ao fim! A vida não é justa! Porém, um dos meus melhores conselhos é não me seguir em minhas inquietações. Não há espelhos em meio a tanta vaidade e escassez de nobreza. Assim, desistam de receberem de mim qualquer sugestão de resposta ou conclusão como fiz com a minha vida, neste instante. Nunca fui habilidoso em decidir e não seria o caminho da minha vida que eu iria acertar. Não tenho vocação para ser contemplado pelo que chamam de felicidade. A solidão me consome, pela falta dos seus opostos e pela minha rigidez ambiciosa e egoísta. Entretanto, é tudo um simples truque! Um jogo! Uma Paidéia! Se é que se pode aprender assim!

Danilo Dornas é ninguém.
e-mail: danilodornas@uol.com.br
http://paideiadigital.blogspot.com

4 comentários:

Ludmila disse...

esta se sentindo sozinho prof? Nos te amamos

Juliana disse...

eita texto triste

patricia disse...

Não sabia que no Brasil também se sentia a angústia existencial desta forma. Espero que tenha sido passageiro. Mas a tristeza é tão poética, não é?

patricia disse...

Não sabia que no Brasil também se sentia a angústia existêncial desta forma. Espero que tenha sido passageiro.

É tão poética a tristeza, não é?