12.10.08

O lúdico e a morte

O meu apego ilimitado à vida não me vem do conhecimento e da reflexão. Ao contrário, ele vem do lado que não tem objetivo e nem um projeto racional. Como diria o filósofo Voltaire (1694-1778) "On aime la vie, mais le néant ne laisse pas d' ávoir du bon"*. Eu reafirmo esta frase do filósofo Voltaire, pois parece ridículo à minha racionalidade inquietar com a vida em tão curto espaço e em tão escasso tempo que dispomos na dimensão racional. Porém, mesmo que isto possa parecer pessimismo, sinto a necessidade em esclarecer que não se trata deste tipo de julgamento que tenho sobre a vida e nem uma demonstração pela vontade de morrer.
A vida é, apenas, uma atividade lúdica que constitui o elemento essencial que unifica os desejos e a razão como orientação para percorrer o caminho incerto e inseguro que dispomos. No entanto, meu esforço é demonstrar que não há espaço para um homem lúdico que valorize o homem constituído puramente da razão. É neste estranho confronto entre o "homem sério" e o "homem brincalhão", que tento qualificar na vida, me traz o cuidado das generalizações e as conclusões precipitadas que afastam a precaução e as conseqüências de qualquer ação.
Uma vez me disseram que "a maior musa inspiradora da filosofia e das religiões é a morte". Em todo caso, a vida deve realmente ter seu fim - que é a morte - mas abordar este fim é uma conclusão precipitada e correríamos o risco de cair dum precipício e, sem perecer, continuar caindo numa dúvida interminável, invejável inclusive ao mais perspicaz dos céticos. Então, como devemos abordar a vida sem o medo da morte? Aliás, esta questão é uma das que considero mais profundas, pois para solucioná-la teríamos que discutir a morte e depois a vida, separadamente, para enfim compreendermos a cultura da morte num espaço e num tempo determinado e situado numa circunstância.
Não é nada fácil separar, conceitualmente, a vida e a morte. Então, eis a dificuldade em compreender como seguiríamos nosso desafio de viver, sem ter que morrer. Porém, em minha trajetória e experiência considerei apenas o lúdico como uma categoria que poderia separar estes estados de espírito e suas condições reais. O lúdico, o jogo, o entretenimento é a forma que podemos compreender, sem confusão, a vida e a morte. O lúdico estabelece os limites dos dois extremos que marcam nosso breve intervalo vital e é por isto que o considero fundamental para tornar-se presente à existência humana.
A vida cede ao jogo e à competição. Daí surge a alegria e a felicidade que impedem que pessoas angustiadas tenham a ousadia em interromper sua orientação aventureira. Ao abordar a vida, como um jogo, nós começamos a nos sentir com a vitalidade infantil, que não seria de todo ruim, mas que poderia ser considerado imaturo, quando não se verifica nenhuma possibilidade de renascimento. Eliminaríamos a apatia e incentivamos a expectativa através dos deslumbres com o mundo, e não mais com o espanto, como queriam alguns filósofos racionais. No jogo, também, há o desejo pela vitória; o saborear dos momentos; e o sentir dos carinhos de suas peças vitais, como os amantes. Mas também há derrotas, que podem nos levar à maturidade e à experimentação da vida ou a preferência pela morte. Assim, a vida é um emaranhado de desejos que estariam livres de julgamentos ou rótulos, mas não das regras e normas naturais, impostas pelas leis biológicas. O viver, que sai das leis biológicas, tem que encontrar uma perspectiva ou um significado que fascina a vontade e o desejo, para que se faça valer à pena e que não seja redutível às classificações enciclopédicas.
A morte surge quando pensamos. E o pensamento vem com a preocupação sobre a não-existência - o Nada. A morte é o vazio que, por carência, tentamos preencher com critérios, também culturais, quando não sentimos mais a sede de jogar. O medo de morrer não pode ser ocasionado pelo simples fato de não-existir, pois não existíamos também antes de sermos concebidos no ventre materno. O medo de morrer vem da preocupação em não poder viver mais o nosso lado lúdico ao lado da pessoa amada.
Assim, a vida é sempre a mais desejada e a mais conservada atividade que possuímos, porém conseguimos pensar que às vezes ela possa não valer a pena. A morte, ao contrário, é o nosso lado obscuro que, assim como Voltaire condiciona: "que ela não deixa de ter seu lado bom", mas que se pudermos separar da vida, o fazemos com idéias de salvação, bem-aventurança e paraíso. Eis o resultado da razão e da preocupação em preencher o nada com entidades que já não dominam os pensamentos. Eu não admito qualquer preenchimento da morte com tais entidades culturais. Eu admito que a morte seja o final. É difícil admitir que a morte seja o fim da vida. Mas, o caminho da vida será sempre a morte.

* "Amar-se a vida; mas o nada não deixa de ter o seu lado bom" (Voltaire).

Danilo Dornas é filósofo.

7 comentários:

Janete disse...

Danilo,
saiba que sua importância na filosofia é essencial. Vc é um cara que conseguiu dar sentido a filosofia de forma literária. Por maiores as críticas a este método, vc consegue se impor ridicularizando a racionalidade e também equilibrando com os desejos. Agora visitando seus últimos escritos considero essencial entendermos a sua vida, seus dramas e suas angústias. Me responda com um texto, o que seriam estes últimos textos que leio aqui? Vc ainda não percebe seu talento e sua vocação? Vc ainda não percebe que sabe dar valor às pequenas coisas da vida? Sinto uma melancolia, uma excassez de motivação, que é incomum em mineiros. Não tenha que se explicar pelo que escreve, mas explique sobre sua vida. Acredite, será muito importante para mim, q sou sua leitora, conseguir entender os reais motivos dos textos melancólicos. Vá ao âmago do seu ser e desabafe o que há de mal em vc. Vc é importante para a Filosofia e para a Literatura. Beijos, Janete.

Giovana disse...

Estou aqui a pedido da Janete. Li seu texto nesta madrugada fria. O texto é frio e poético. Na verdade, não sei mto sobre o que motiva alguém a escrever algo assim, tão conciso e misterioso. Será um desejo de viver? Ou um desejo de morrer? Qual o motivo da separação da vida e da morte? Com certeza, é um texto que, permita-me, irei imprimir ler e reler. Quando eu perceber que há nele algum traço de preferencia pela vida ou pela morte, deixarei de lê-lo. Mas, estranhamente, vc os separa. É o único sujeito que soube separar a vida e a morte com elegância e inteligência. A princípio, está de parabéns pelo texto. Mas, exigimos saber um pouco sobre vc. Quem é vc afinal?

Fernanda disse...

ai...
que profundo como uma cova...
ou preferes ser cremado?

Gustavo disse...

Poético...
Vibrante...
traços de um ser angustiado com a vida ou um temente à morte?

Aline disse...

kra
que loko....
seus textos são demais.

Juliana disse...

nao se deixa enganar com o nada. n eh uma boa opçao q mereça enxergar algo de bom.

Edna disse...

vc eh inteligente
sempre entro no seu blog e soh agora comentei pq vi um item importante. parabens