11.6.07

O asteróide Pallas e a campanha publicitária

Pallas-Athená, deus(a) mitologia grega
A semana começou bem. Eu praticamente sem sono, às 3h da manhã, resolvo ir para internet. Então, me deparo com a notícia que o mundo não será mais o mesmo após a segunda quinzena de julho, 2007. A causa seria o choque de um asteróide descoberto por William Olbers, em 1802, e chamado de Pallas.
Pallas é um nome unissex. Há dúvidas sobre isto porque tanto existe um deus Pallas como também a própria Athená também recebe este nome nos textos mitológicos. No entanto, em suma, seu significado masculino indica que é filho de Gaia (Terra) e gera filhos poderosos como Kratos (Poder), Bia (Violência) e a Niké (Vitória). O seu lado feminino é a própria Diké ou justiça.
O astrônomo que descobriu este asteróide parece que escolheu bem o nome. O asteróide não é mitológico. Há mesmo um que recebeu o nome de Pallas que se situa no cinturão entre Marte e Júpiter e é considerado o segundo maior asteróide já descoberto. Este asteróide, segundo o noticiário de cientistas amadores, saiu da rota e vem em direção a terra, com chances de colisão, mas as autoridades se calaram para não haver um pânico global. Calma, não pretendo dar um tom profético ao texto. Apenas, considerar que isto seria mesmo um momento oportuno para pensarmos em nossos últimos dias. Mas, não. Eu lhes convido para pensar nas crenças. Nunca acreditei em mundanças vindas do céu e sempre mantive as minhas crenças terrenas. Não sou ingênuo em acreditar em notícias vinculados na internet, ainda mais quando a fonte desta notícia é de um site especializado em publicidade da fábrica de automóveis da marca francesa Citroën.
Segundo a notícia, o mundo poderá ter o mapa alterado nos próximos meses. Uma coisa um tanto interessante e curioso para nós, filósofos. Entretanto, com a astronomia eu já me decepcionei com a passagem do cometa Halley, em 1985. Não vi nada! Depois, com a espera de outros asteróides que passariam pela Terra ou mesmo com eventuais proximidades a outros objetos interestrelares, também me decepcionei. Eu fiquei mesmo com as notícias normais: eclipses, descoberta de supernovas e por aí vai. Mas, me senti privilegiado por ver a virada do milênio de 1000 para 2000. Isto é, se considerarmos o calendário romano. Com certeza, foi a maior glória que um leigo em astronomia poderia sentir. Ou isto é astrologia? Sei lá, é tudo uma questão de crença. Nem Copérnico, nem Galileu Galilei, nem Isaac Newton tiveram esta chance de ver a virada do milênio e acredito que morreram frustrados por não verem a troca do algarismo 1 pelo 2, na casa do milhar.
Não conseguimos nos libertar totalmente das crenças. Para Platão, filósofo grego, as crenças é um enunciado que acreditamos nele e por isso, então é a parte subjetiva do conhecimento. A ela emitimos apenas opiniões porque são recolhidas apenas das aparências. Ela possui dois valores: ou é verdadeira ou é falsa. Para se opor a este conhecimento subjetivo (e as opiniões), o mesmo Platão nos aconselha a "sair da caverna" ou buscar o conhecimento objetivo, a epistemologia, que seria a linguagem universal, a científica, aquela saboreia a vida com investigação. Para Ortega y Gasset, a crença é o fundamento, o alicerce para instaurar um projeto avaliando o que nos rodeia, as nossas circunstâncias. Mas, sair das circunstâncias é contribuir para uma vida autêntica, uma vida saborosa e cheia de aventuras. E este abandono de circunstâncias é a nossa realidade radical, pois consiste no viver.
O nome do asteróide parece conter exatamente alguns dos significados vitais que o homem aprendeu a banalizar: poder, violência, vitória e a justiça. A vida humana desprezou a terra e o meio ambiente, desejou o poder e conseguiu o manter com violência. E por fim, a Niké e a Diké parecem vir dos céus, embutido num asteróide desgovernado com o firme propósito de aniquilar nosso egocentrismo. Tomara que os cientistas amadores, como diz a notícia, seja um daqueles estudantes de panfletagem. E estou certo! Os cientistas em questão são publicitários da Citroën, sobre o novo carro Pallas. A publicidade agora está em catástrofes! Claro, não restou muito que chame atenção para os publicitários nos últimos tempos, em meio a tanta informação. Me parece assaz oportuno lembrar que algo assim já aconteceu na sociedade americana, em 1938, quando no Dia das Bruxas, o locutor da Rádio Mercury, Orson Welles, narrou a invasão de alienígenas, conforme a narrativa de ficção-científica do livro Guerra dos Mundos, de Herbert George Wells. No entanto, este livro serviu para atentar a sociedade americana sobre os rumos da política e os avanços científicos da época. Naquela ocasião era um alerta! Agora, é só publicidade. Ou seja, o objetivo de divulgar uma suposta colisão de um asteróide com a terra é o de tornar público um automóvel chamado Pallas. No entanto, em meia a tanta publicidade, a morte da humanidade seria algo que realmente chame atenção, talvez seja isto que pensaram os publicitários da marca Citroën.
Para nós filósofos, nos resta a ironia. A própria natureza nos mostrando o quanto somos idiotas ao falar tanto de ética e, muitas vezes, jogar a natureza em segundo plano. Acreditar em algo é também algo natural e não devemos desprezar, porém sair das crenças é uma atitude filosófica. Conforme Ortega y Gasset, a crença não é algo que podemos escolher, mas o objeto da crença sim, é algo que escolhemos através da inteligência. Assim, a verdade é objetiva, porém sua crença é subjetiva. E não há hierarquia entre crença e razão. As duas categorias afirmam o homem autêntico, constitui sua presença no mundo, pois transitar entre as duas instaura a dialética.
Acreditar se este asteróide destruirá ou não a Terra, é subjetivo. Acreditar que este automóvel é mesmo um asteróide, também é subjetivo. Mas, sentir o sabor da vida em cada instante que nos resta é objetivo. E para sentirmos melhor este sabor vital nada melhor que tentar solucionar os problemas diários. Aqueles problemas que realmente nos tira da órbita e nos distancia do nosso projeto vital. Acreditar em algo é uma lei natural, tudo que temos a fazer é descobrir o que é este algo, para nos tornarmos mais sensatos e éticos. Após descoberto, que venha o asteróide Pallas ou qualquer outro que exista com nome de automóvel.
Portanto, o sonho de qualquer publicidade é manter o público na crença. O melhor publicitário é aquele que se assemelha a um sacerdote e que atribui à crença o fundamento único de sua profissão. A crença é jogar com a opinião baseando apenas nas aparências. Este automóvel da Citroën, com o nome de Pallas, poderá ser sim um asteróide se acreditarmos assim. Ou podemos acreditar em outro automóvel que não possua o nome de algo que mude facilmente de rota e colide com outro objeto mudando para sempre a História. Mera contradição publicitária! Tudo não passa de publicidade! Vou dormir depois desta...
PS. Após as 17h o portal UOL lançou a seguinte notícia:
Danilo Dornas é filósofo.

5 comentários:

Anônimo disse...

Você reparou que a notícia foi tirada do site do uol e que o site do mondo da astronomia foi tirado do ar? o que será que isso significa?

Anônimo disse...

Perceberam que foi uma jogada imbecil e rapidamente tiraram do ar.

Marketeiras panacas, causaram aflição a várias pessoas, com essa brincadeira de mau gosto.

Quem sabe o asteróide não faça efeito, desintegrando o emprego dessa turma.

Anônimo disse...

Vcs não perceberam q eles estão mostrando um lado muito positivo…de q não podemos acreditar em qq coisa q vemos…q o mundo é cheio de mentiras…e q apenas pessoas tolas passam a pensar nisso de forma negativa…o tempo todo estava escrito q era publicidade…c em algum momento vcs acreditaram q era verdade… parabens, vcs acabam de ser pegos por milhões de noticias falsas sobre politica, economia, esportes…ou qq coisa q vcs tenham lido…mais uma vez o povo brasileiro percebe sua estupidez e prefere ficar bravo com os outros ao invés de olhar pra si mesmo e pensar nas suas próprias crenças do q é real ou não.

Anônimo disse...

Gostei!! propaganda inteligente é assim mesmo...
aposto q todo mundo ficou curioso para obter maiores informções e investigou...
Parabens a citroen!!!

nota 1000 para a propaganda!

Anônimo disse...

Muito bom este artigo ! vc foi longe.
Realmente é impressionante como as pessoas hoje com acesso a tanta informaçao não evoluiram nada. O episódio Orson Welles foi nos anos 30 gente!!
A internet substitui o radio...
Mesmo estando claro que era publicidade, ninguem percebeu. O mundo ama as catastrofes.